Lula inicia processo de reciprocidade contra tarifas dos EUA
Iniciativa ocorre em contexto eleitoral. Governo brasileiro acusa os EUA de tentar interferir no pleito.
*Por Mauricio Savarese
O fato principal
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta sexta-feira (15.ago.2026) que seu governo acionou um mecanismo da lei de reciprocidade econômica contra as tarifas impostas pelos Estados Unidos. Declarou que o Brasil deve ser respeitado.
Contexto
Em julho, o presidente dos EUA, Donald Trump, impôs tarifas sobre centenas de produtos brasileiros de exportação, com alíquotas chegando a 37,5% em alguns itens.
A administração Trump acusou o Brasil de práticas comerciais desleais. Lula negou as acusações – ele diz que o presidente norte-americano age por questões políticas antes das eleições de outubro.
Lula busca a reeleição contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ideologicamente mais alinhado ao governo Trump. O congressista se reuniu com autoridades norte-americanas, incluindo o próprio Trump, em Washington, semanas antes da proposta de impor tarifas mais altas sobre produtos brasileiros.
"Ontem, invocamos a lei de reciprocidade para mostrar que não somos alguém com quem se brinca", disse Lula em entrevista a podcasters brasileiros. "Nós nos respeitamos. Estou muito tranquilo quanto ao que pode acontecer e preparado para debater a defesa do Brasil em qualquer lugar do mundo."
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou, em comunicado na noite de quinta-feira, que está solicitando consultas diplomáticas com seus homólogos norte-americanos sobre a questão, como sinal da intenção de Lula de "privilegiar o diálogo e a negociação em suas relações internacionais".
O início dos trâmites não significa necessariamente que o Brasil retaliará as tarifas americanas.
"Não quero nenhuma briga com os Estados Unidos", disse Lula na sexta-feira. "Infelizmente, eles estão espalhando inverdades."
Embaixadora brasileira tem visto revogado
No início deste mês de agosto, o Departamento de Estado dos EUA revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, em retaliação à recusa do Brasil, no mês passado, em conceder vistos a 2 diplomatas norte-americanos que pretendiam visitar o país antes das eleições de outubro.
O governo dos EUA também acusou o Brasil de protelar a aprovação do indicado de Trump para o cargo de embaixador em Brasília, enquanto autoridades brasileiras afirmam que os EUA deveriam ter buscado a aprovação do governo antes de submeter a indicação ao Congresso, conforme exige o protocolo diplomático.
Embora o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, tenha revogado o visto da embaixadora brasileira em resposta às ações de Lula — sem, contudo, ordenar sua expulsão —, autoridades dos EUA afirmaram que a administração Trump não deseja que a disputa se agrave.
Essas autoridades, que falaram sob condição de anonimato para discutir deliberações internas da administração, afirmaram em diversas ocasiões que a resposta contida de Rubio foi planejada intencionalmente para dar a Lula tempo e espaço para recuar.
Ao mesmo tempo, elas declararam que os EUA reagirão rapidamente caso o governo Lula decida escalar a situação, e que declarar a embaixadora brasileira persona non grata e expulsá-la dos EUA seria o próximo passo lógico.
Lula disse mais uma vez que Trump o tratou bem, mas alertou que quaisquer governos estrangeiros "que venham aqui interferir na eleição perderão".
*O repórter da Associated Press Matthew Lee contribuiu de Washington.
Autor
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
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