Trump fecha acordo para ampliar presença militar dos EUA na Groenlândia, mantendo a ilha sob controle da Dinamarca
Apesar das ameaças de Trump em tomar a Groenlândia à força por razões de 'segurança', os EUA já têm base militar na ilha ártica que pertence à Dinamarca, aliada da OTAN
*Por Aamer Madhani e Ben Finley
O fato principal
O presidente Donald Trump anunciou nesta sexta-feira (18.set.2026) que fechou um acordo com a Dinamarca para reforçar a presença militar dos EUA na Groenlândia, após meses de ameaças de tomar a ilha à força. O acordo também mantém o território ártico sob controle dinamarquês.
Ao anunciar o acordo numa publicação nas redes sociais, Trump afirmou que o pacto em questão "confere aos Estados Unidos controle permanente sobre a segurança e todas as outras necessidades na Groenlândia, atendendo plenamente a TODAS as nossas muitas preocupações".
Ele acrescentou que, com o acordo, sua administração iniciaria "imediatamente" o processo de desenvolvimento de uma presença militar maior no território dinamarquês, rico em minerais.
O acordo surgiu após meses de negociações discretas nos bastidores entre autoridades dos EUA, da Groenlândia e da Dinamarca, em busca de soluções para algumas das preocupações de segurança de Trump em relação ao território, que conta com cerca de 56 mil habitantes.
Para Trump, a questão da Groenlândia havia ficado em 2º plano enquanto ele lançava uma operação militar para remover o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro do poder e se unia a Israel para iniciar uma guerra contra o Irã.
Com o anúncio do pacto, Trump pode exibir uma conquista de política externa antes das eleições de meio de mandato.
O conflito com o Irã, que já dura 6 meses, reconfigurou a disputa eleitoral e minou a promessa de campanha de Trump de evitar conflitos estrangeiros. Representa um desafio aos republicanos, que tentam manter maiorias apertadas no Congresso.
O gabinete da primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, informou que o acordo será assinado pelos 3 governos na próxima semana, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, mas ainda é necessária a aprovação parlamentar dos governos da Dinamarca e da Groenlândia para que entre em vigor.
Em um comunicado, ela afirmou que "o acordo reconhece a soberania e a integridade territorial" da Groenlândia e da Dinamarca e respeita o direito de ambos os povos à "autodeterminação".
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmou que o acordo em gestação beneficia os 3 governos e "reconhece os interesses da Groenlândia".
Histórico de ameaças de Trump contra a Groenlândia

Após retornar à Casa Branca em 2025, Trump ameaçou tomar a Groenlândia à força. O território é autônomo, mas pertence à Dinamarca, aliada histórica dos EUA e uma das fundadoras da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), uma aliança militar que envolve os EUA como um dos seus principais integrantes.
Trump também sugeriu que a Dinamarca vendesse a ilha aos Estados Unidos, insistindo que a Groenlândia é crucial para a segurança norte-americana.
A Dinamarca e a Groenlândia declararam repetidamente que a ilha não estava à venda e condenaram as notícias de que os EUA estariam coletando informações de inteligência no local. A iniciativa norte-americana em relação à Groenlândia também enfrentou forte oposição da Rússia e de grande parte da Europa.
No entanto, com o anúncio feito na sexta-feira, Trump sugeriu que pode ter sido alcançado um entendimento capaz de encerrar o que a Dinamarca via como uma crise existencial.
"Esperamos trabalhar com o povo maravilhoso da Dinamarca e da Groenlândia em prol de um futuro magnífico para essa vasta e altamente estratégica porção de terra", disse Trump em sua publicação. "Seremos grandes protetores dela!"
Trump havia alegado que os EUA precisam da Groenlândia para conter ameaças da Rússia e da China. Fez repetidas afirmações falsas sobre a presença de forças militares chinesas e russas nas proximidades da costa da ilha.
O acordo proíbe a instalação de qualquer base que não pertença à OTAN na Groenlândia, limita investimentos de adversários na região e garante que a China e a Rússia não possam estabelecer bases no território, segundo uma autoridade do Departamento de Estado que não estava autorizada a comentar publicamente e falou sob condição de anonimato à Associated Press.
O secretário de Estado, Marco Rubio, celebrou o anúncio como um "acordo histórico" e uma "grande vitória" para os Estados Unidos.
"A Groenlândia fará parte para sempre da área de defesa estratégica da América do Norte, mantendo adversários afastados dela e de seu entorno", disse Rubio. "Este acordo soluciona de forma permanente e completa nossas preocupações de segurança nacional em relação à Groenlândia."
Ilha é 'fundamental' para a defesa da América do Norte

No entanto, os EUA mantêm há muito tempo uma presença militar na Groenlândia, tendo operado diversas bases e instalações durante a Guerra Fria antes de reduzir sua presença.
Os EUA ainda operam a remota Base Espacial de Pituffik, no noroeste da Groenlândia, construída após a assinatura do Tratado de Defesa da Groenlândia entre os EUA e a Dinamarca, em 1951. A base dá suporte a operações de alerta e defesa contra mísseis, bem como de vigilância espacial, para os EUA e a OTAN.
A Groenlândia situa-se ao largo da costa nordeste do Canadá, com mais de dois terços de seu território dentro do Círculo Polar Ártico. Essa localização tornou a ilha fundamental para a defesa da América do Norte desde a Segunda Guerra Mundial, quando os EUA ocuparam a Groenlândia para impedir que ela caísse nas mãos da Alemanha nazista e para proteger rotas marítimas vitais no Atlântico Norte.
Apesar dos repetidos comentários agressivos de Trump dirigidos à Dinamarca a respeito da Groenlândia, autoridades dinamarquesas haviam deixado claro, em diversas ocasiões, que estavam prontas para colaborar com os EUA na expansão da presença militar americana e no fortalecimento dos interesses comerciais dos EUA na ilha.
Ainda assim, as repetidas exigências de Trump pela Groenlândia e as ameaças de tomá-la à força abalaram a aliança da OTAN e causaram desconforto entre os aliados europeus, afirmou Imran Bayoumi, diretor associado do Centro Scowcroft de Estratégia e Segurança, vinculado ao Atlantic Council.
"Acredito que os americanos realmente subestimam o quanto isso prejudicou a imagem dos Estados Unidos na Europa", disse ele. "Creio que os habitantes da Groenlândia, os dinamarqueses e os europeus viram isso como um verdadeiro ataque à sua soberania, e será necessário muito trabalho para reparar os danos."
*O repórter diplomático da AP, Matthew Lee, contribuiu para esta matéria.
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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
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