Em cidade alemã, extrema-direita se mobiliza contra placas memoriais do Holocausto
Decisão da Câmara Municipal de uma pequena cidade alemã provocou indignação especialmente porque alguns conservadores do partido do chanceler uniram-se à extrema-direita
*Por Jamey Keaten
O fato principal
A Câmara Municipal de Heidenau, a sudeste de Dresden, decidiu interromper a instalação de placas memoriais em homenagem às vítimas do Holocausto nesta quinta-feira (24.set.2026).
A decisão provocou indignação, especialmente porque alguns conservadores do partido do chanceler Friedrich Merz uniram-se à extrema-direita do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) para apoiar a medida.
A instalação era uma prática nas calçadas da cidade. Feitas de latão, as placas gravavam os nomes das vítimas — muitas vezes substituindo paralelepípedos, situadas perto das casas onde essas pessoas viveram.
Criadas pelo artista alemão Gunter Demnig, as Stolpersteine — ou "pedras de tropeço" em alemão — são placas memoriais do tamanho da palma da mão que trazem os nomes e os destinos de judeus e outras pessoas perseguidas pelos nazistas. Elas se tornaram uma forma importante de memória do Holocausto na Alemanha.
O 1º bloco foi instalado na cidade de Colônia, no oeste do país, em 1992; hoje, mais de 126.000 deles podem ser encontrados em mais de 30 países da Europa, homenageando alguns dos 6 milhões de judeus e outras pessoas mortas no Holocausto.
Vereadores do partido AfD e da União Democrata-Cristã (CDU) — partido de centro-direita de Merz — uniram-se em torno da iniciativa municipal; seus defensores alegaram que muitos parentes de vítimas do Holocausto consideram as pedras uma forma inadequada de memória, pois os pedestres caminham sobre elas.
Reações fortes criticam a medida

No entanto, o embaixador de Israel na Alemanha, Ron Prosor, disse sentir "vergonha" da decisão, acrescentando que algumas das placas em Berlim homenageavam seus próprios parentes.
"E, na Alemanha, no ano de 2026, uma Câmara Municipal decide não instalar mais novas Stolpersteine [pedras de tropeço]", escreveu ele na rede social X.
Muitos judeus viajaram para a Alemanha para participar das cerimônias de instalação das pedras, muitas vezes para relembrar vítimas mortas em câmaras de gás nos campos de concentração nazistas. Os blocos com placas representam o que mais se aproxima de um túmulo ou local de sepultamento.
Christian Meyer-Heidemann, comissário estadual de educação política no estado de Schleswig-Holstein (norte do país), criticou duramente a decisão em Heidenau, declarando à agência de notícias alemã dpa que ela equivalia a "um ataque deliberado à nossa cultura de memória".
A cidade, com cerca de 16.000 habitantes, não é a única a rejeitar as homenagens com placas. Munique não permite a instalação de Stolpersteine em terrenos públicos e criou memoriais alternativos. Alguns líderes judaicos locais opuseram-se às pedras sob a alegação de que elas permitem que os nomes das vítimas sejam pisoteados.
AfD tenta minimizar os crimes nazistas
O partido AfD, de orientação anti-imigração e com forte base eleitoral no leste da Alemanha, vem surfando uma onda de popularidade. O partido obteve vitórias eleitorais recentes em 2 estados, e pesquisas indicam que é, agora, o partido mais popular da Alemanha.
Merz, líder da CDU, rejeitou qualquer cooperação com a AfD. Mas os êxitos eleitorais da AfD têm posto à prova a política de longa data dos partidos tradicionais de não cooperar com a legenda.
A AfD foi classificada pela agência de inteligência interna da Alemanha como um grupo extremista em algumas regiões.
"Após os sucessos eleitorais da AfD, era certamente de se esperar que algo assim acontecesse", disse Demnig, segundo a agência dpa. Ele acusou a CDU de "abandonar suas raízes cristãs".
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