Sem fiscalização, Tratado do Alto-Mar é 'apenas um pedaço de papel', diz Paul Watson

Ativista respondeu, por escrito, a perguntas enviadas pelo Correio Sabiá sobre conservação marinha

Sem fiscalização, Tratado do Alto-Mar é 'apenas um pedaço de papel', diz Paul Watson
O ativista Paul Watson participou de evento no Paraná na 1ª metade de junho de 2026 / Imagem: Daniel Bueno
Índice

O fato principal

O ativista oceânico Paul Watson declarou que, se não houver fiscalização adequada, o Tratado do Alto-Mar ratificado em 2024 é "apenas um pedaço de papel".

"Em 2024, o Tratado do Alto-Mar sobre a Proteção da Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional foi oficialmente ratificado, mas sem fiscalização, é apenas um pedaço de papel. As áreas marinhas protegidas ficam bem no papel, mas a fiscalização é inadequada ou inexistente", disse ele.
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O Tratado do Alto-Mar (oficialmente Acordo BBNJ) é um marco legal histórico da ONU criado para proteger a biodiversidade em águas internacionais. Ele regula a exploração sustentável e a conservação de áreas que não pertencem a nenhum país, cobrindo cerca de metade do planeta. O Brasil ratificou o acordo, consolidando-se como membro pioneiro.

De acordo com Watson, há instrumentos suficientes para garantir a proteção marinha. No entanto, falta vontade política e econômica para fazer cumprir os acordos existentes.

"Possuímos todas as regulamentações, leis e tratados necessários para proteger a vida marinha e os ecossistemas. O que nos falta é a vontade econômica e política para fazer cumprir essas leis", disse ele.

As declarações ocorreram por escrito, em resposta a perguntas enviadas pelo Correio Sabiá para a equipe de assessoria de imprensa do capitão. Watson participou do evento UCBio, no Paraná, realizado nos dias 7, 8 e 9 de junho.

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Paul Watson é fundador do Sea Shepherd Conservation Society e da Captain Paul Watson Foundation, além de cofundador e ex-diretor do Greenpeace.

Outras sugestões

Watson também defendeu na entrevista concedida ao Correio Sabiá:

  • A proibição da exploração de petróleo na Foz do Amazonas;
  • O combate à pesca ilegal;
  • A interrupção da mineração em águas profundas;
  • A eliminação da pesca de krill (detalhes abaixo) e dos criadouros de salmão doméstico;
  • Uma moratória da pesca industrializada.

Leia a entrevista completa

Eis abaixo a entrevista completa:

Correio Sabiá: O que mais ameaça o oceano hoje: as próprias mudanças climáticas ou a incapacidade dos governos de agirem com rapidez suficiente?

Capitão Paul Watson: O oceano enfrenta ameaças de múltiplas fontes: poluição, sobrepesca, a expansão da pesca de krill, a indústria de criação de salmão, destruição de habitats, mudanças climáticas e a emergente indústria de mineração em águas profundas.

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A pesca de krill é a captura industrial do pequeno crustáceo na Antártica. Esse minúsculo animal é a base de toda a cadeia alimentar do oceano austral, sustentando baleias, focas e pinguins. A extração serve essencialmente para fabricar ração para a aquicultura (como salmões), ração animal e suplementos de ômega-3.

Não se trata apenas dos governos não agirem com rapidez suficiente. Os governos estão falhando em abordar essas ameaças por completo. Possuímos todas as regulamentações, leis e tratados necessários para proteger a vida marinha e os ecossistemas. O que nos falta é a vontade econômica e política para fazer cumprir essas leis.

Os governos, em geral, priorizam a indústria, defendendo os lucros corporativos, os empregos e a arrecadação de impostos. Muito pouco esforço é dedicado à proteção de espécies não humanas ou à conservação de ecossistemas.

Os ministérios mais importantes são os da Fazenda, Agricultura, Pesca e Indústria. Em contrapartida, os departamentos menos importantes são aqueles dedicados ao meio ambiente e à conservação.

Em 2024, o Tratado do Alto-Mar sobre a Proteção da Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional foi oficialmente ratificado, mas sem fiscalização, é apenas um pedaço de papel. As áreas marinhas protegidas ficam bem no papel, mas a fiscalização é inadequada ou inexistente.

Correio Sabiá: O Brasil controla uma das maiores áreas marítimas do planeta, incluindo a Amazônia Azul. O que o país deve fazer para se tornar um líder global na proteção dos oceanos e, talvez, melhorar o financiamento para iniciativas oceânicas?

Capitão Paul Watson: O Brasil é uma nação-guardiã com a responsabilidade global de proteger os pulmões verdes e azuis do planeta. A proteção da floresta tropical e da vida marinha deve ser prioridade para o Brasil. A perfuração em alto-mar na foz do Amazonas deve ser proibida. A pesca ilegal deve ser rigorosamente combatida.

Correio Sabiá: Depois de décadas de confrontos com governos e poderosos interesses econômicos, o que ainda lhe dá esperança para o futuro dos oceanos?

Capitão Paul Watson: O que me dá esperança é que o oceano é resiliente, mas precisamos dar-lhe tempo para reparar os danos que lhe causamos. Deveria haver uma moratória na pesca industrializada. Precisamos interromper a mineração em águas profundas, eliminar a pesca de krill e os criadouros de salmão doméstico. Os danos podem ser reparados.

Quando me dizem que as soluções são impossíveis, respondo que problemas impossíveis podem ser resolvidos encontrando soluções impossíveis, e soluções impossíveis podem ser concretizadas por meio de paixão, coragem, imaginação e persistência. Em 1972, a própria ideia de que Nelson Mandela um dia seria presidente da África do Sul era impensável e impossível, mas o impossível se tornou possível.

Correio Sabiá: Sabemos mais sobre a superfície da Lua do que sobre o nosso oceano. Ao mesmo tempo, os países se comprometeram a proteger 30% dos mares até 2030. Como podemos definir prioridades de conservação e políticas públicas eficazes quando ainda sabemos tão pouco sobre os ecossistemas marinhos que estamos tentando proteger?

Capitão Paul Watson: O compromisso de proteger 30% não é o mesmo que realmente proteger 30%. Isso soa bem na teoria, mas nenhuma "solução" de qualquer conferência internacional sobre meio ambiente ou clima desde 1972 jamais foi implementada.

De qualquer forma, não podemos encarar os ecossistemas dessa maneira. Precisamos proteger e conservar 100%. Uma pessoa sobreviveria se removêssemos 70% de seus órgãos?

A exploração industrial com fins lucrativos se preocupa pouco com o futuro e apenas com os lucros trimestrais. Isso exige uma abordagem biocêntrica, trabalhando em harmonia com todas as espécies e ecossistemas, retirando o que precisamos e devolvendo o que outras espécies precisam. Precisamos viver em conformidade com as 3 leis da Ecologia: Diversidade, Interdependência e Recursos Finitos.

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