Projeto que reduz APA da Baleia Franca ganha tramitação mais rápida na Câmara

Pareceres técnicos recomendam rejeição do PL, que atenderia a interesses privados de especulação imobiliária

Projeto que reduz APA da Baleia Franca ganha tramitação mais rápida na Câmara
APA da Baleia Franca foi criada em 2000 e protege o bioma marinho-costeiro / Imagem: Simone Corrêa Becker/Wikimedia
Índice

O fato principal

A Câmara dos Deputados aprovou no dia 1º de julho de 2026 o requerimento de urgência do PL (projeto de lei) nº 849/2025, que pede a redução da APA (Área de Proteção Ambiental) da Baleia Franca, em Santa Catarina.

A aprovação do requerimento de urgência permite que o projeto tenha uma tramitação acelerada, sem a necessidade de passar pela análise de comissões temáticas. Dessa forma, o texto fica pronto para votação direta em plenário.

Criada em 2000, a APA da Baleia Franca é uma unidade de conservação federal brasileira com 154.867 hectares, localizada no litoral centro-sul de Santa Catarina. Estende-se por cerca de 130 km entre Florianópolis e Balneário Rincão.

Imagem: Reprodução da APA da Baleia Franca

Por que isso importa?

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O objetivo principal da APA da Baleia Franca é proteger o principal berçário e área de reprodução da baleia-franca-austral (Eubalaena australis) no Brasil, espécie ameaçada de extinção que usa o litoral catarinense como área de reprodução durante o inverno. Além das baleias, a APA também ordena a ocupação do território e assegura o uso sustentável dos recursos naturais. Ainda protege outras espécies ameaçadas (como tartarugas marinhas), aves costeiras e ecossistemas como dunas, lagoas, restingas e manguezais. Há conexão direta entre a APA e o ambiente marinho, com papel essencial na proteção da linha de costa, na pesca artesanal e na adaptação às mudanças climáticas.

Argumentos pró e contra

O projeto é de autoria da deputada federal Geovania de Sá (Republicanos-SC). Ela argumenta que a medida busca harmonizar a preservação ambiental com o desenvolvimento econômico. Segundo a justificativa, a demarcação inicial incluiu áreas urbanizadas de forma arbitrária, limitando o uso de propriedades privadas. Por isso, ela propõe retirar mais de 30 mil hectares da porção terrestre da unidade de conservação federal.

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Por essas e outras, o Ocean e o Correio Sabiá criaram o Mamute Político, que dá "memória de elefante" para combater a "amnésia eleitoral". A plataforma permite que qualquer cidadão monitore qualquer político do Congresso Nacional. Com IA conectada a bases de dados oficiais, é possível ver todos os projetos apresentados, votações e até discursos oficiais dos parlamentares.

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A deputada Geovania de Sá (Republicanos-SC) pode ser monitorada em nossa plataforma Mamute Político. Na imagem, ela aparece no centro, em audiência pública sobre a situação da área de proteção ambiental da Baleia Franca / Imagem: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados

Há intensa mobilização de ambientalistas e de órgãos de proteção contra a aprovação do projeto. Segundo dados divulgados pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), a APA da Baleia Franca foi, em 2025, a unidade de conservação federal mais visitada do Brasil, com cerca de 9 milhões de visitantes ao ano.

A APA da Baleia Franca é um dos principais destinos nacionais para o turismo de natureza, observação de baleias, esportes ao ar livre e atividades recreativas. Essas características impulsionam milhares de empregos e a renda de municípios do litoral catarinense.

"O PL parte da premissa equivocada de que a proteção ambiental impede o desenvolvimento econômico. Na realidade, a APA da Baleia Franca demonstra exatamente o contrário: ela protege um patrimônio natural que sustenta o turismo, a pesca artesanal, a qualidade de vida das comunidades locais e a própria economia da região. Retirar toda a faixa terrestre da unidade representa um grave retrocesso ambiental, sem qualquer respaldo técnico ou benefício comprovado para a sociedade", afirmou a diretora-executiva da Rede Pró-UC, Angela Kuczach, num release enviado à imprensa.

Pareceres técnicos recomendam rejeição do PL

A justificativa do projeto também sustenta que a exclusão da área terrestre permitiria solucionar conflitos fundiários e estimular o desenvolvimento econômico dos municípios.

No entanto, tanto uma nota técnica da Rede Pró-UC (Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação) quanto um parecer oficial do ICMBio concluíram que esses argumentos não encontram respaldo técnico, jurídico ou ambiental.

Os documentos (ambos disponíveis a seguir) ressaltaram que a APA não impede a regularização fundiária prevista na legislação vigente e que muitas das áreas em disputa permanecem protegidas pelo Código Florestal por serem APPs (Áreas de Preservação Permanente), independentemente da existência da unidade de conservação.

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Sempre que possível, o Ocean dá acesso a documentos técnicos e direciona a leitura para hyperlinks oficiais, como no caso do PL no site da Câmara. Assim, leitores(as) podem checar as informações aqui apresentadas ou aprofundar-se ainda mais nos temas que divulgamos.

Documento do ICMbio fala em 'interesses privados'

O parecer técnico do ICMBio também aponta que a pressão pela redução da APA está diretamente relacionada a interesses privados voltados à ocupação e à valorização imobiliária de áreas ambientalmente sensíveis, especialmente dunas e restingas do litoral sul catarinense.

O documento lembra que operações de fiscalização realizadas pelo órgão identificaram centenas de construções irregulares em Áreas de Preservação Permanente. Essas construções foram, posteriormente, objeto de ações civis públicas do MPF (Ministério Público Federal).

Entre 2011 e 2014, operações de fiscalização conduzidas na unidade identificaram centenas de construções irregulares em áreas ambientalmente frágeis, especialmente nas praias da Galheta e do Ipuã, em Laguna (SC).

As ocupações ocorreram sobre dunas, costões rochosos e outras áreas sem condições geológicas para ocupação urbana, além de incidirem sobre sítios arqueológicos protegidos, circunstâncias que inviabilizam sua regularização ambiental. Somente na Praia da Galheta foram lavrados 148 autos de infração.

As autuações deram origem a ações judiciais que confirmaram a ilegalidade das ocupações em sucessivas instâncias da Justiça. Mais recentemente, decisões do STJ (Superior Tribunal de Justiça) determinaram a demolição de diversas construções irregulares. Tentativas de suspender essas decisões também não prosperaram no STF (Supremo Tribunal Federal).

"Estamos falando de uma tentativa de transformar uma das últimas áreas naturais do litoral catarinense em um segundo Balneário Camboriú. Isso significa substituir ecossistemas preservados, paisagens naturais e qualidade de vida por um modelo de ocupação baseado na especulação imobiliária, com adensamento urbano, pressão sobre a infraestrutura, problemas de saneamento e perda do patrimônio ambiental que hoje sustenta a economia e o modo de vida da região", afirmou Angela Kuczach.

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Têm sido recorrentes as dúvidas de pescadores e armadores quanto à pesca de arrasto na região Sul de Santa Catarina. E a preocupação do Setor não é à toa.Desde 2018 está vigente o Plano de Manejo da APA da Baleia Franca (APABF) que proíbe o arrasto de peixe a menos de 3 milhas náuticas da costa nos limites da APA. Apesar de o Plano ter sido judicializado, ele segue vigente. Uma das incertezas é a falta de menção no documento sobre o arrasto de camarão.Além disso, o Plano de Manejo condiciona a p

Autor

Maurício de Azevedo Ferro
Maurício de Azevedo Ferro

Jornalista e empreendedor. Criador/CEO do Correio Sabiá. Emerging Media Leader (2020) pelo ICFJ. Cobriu a Presidência da República.

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