Como jornalistas rastrearam fábricas flutuantes ilegais de farinha de peixe na Guiné-Bissau usando dados abertos
Webinário do Pulitzer Center mostrou como ferramentas gratuitas de monitoramento de embarcações podem servir de ponto de partida para investigações de pesca ilegal, cadeia de abastecimento e crimes ambientais
Uma fonte com 7 meses de trabalho a bordo de um navio de processamento de peixe na costa da Guiné-Bissau lembrava de cor as coordenadas exatas do local onde estava ancorado. A partir desse ponto no mapa, o jornalista italiano Davide Mancini reconstruiu uma operação de pesca industrial ilegal que envolvia fábricas flutuantes chinesas, embarcações turcas e a cumplicidade de autoridades locais — e publicou a investigação no jornal britânico The Guardian.
A história foi apresentada como estudo de caso durante o 2º webinário da série "Investigating the Ocean", promovida pelo Pulitzer Center, dedicada ao rastreamento de embarcações com ferramentas de inteligência de fontes abertas (OSINT).

"A fonte estava a bordo por 7 meses junto com toda a tripulação e, durante esse tempo, tinha que preencher registros. Por isso, os números exatos das coordenadas eram algo que ela mantinha guardado com muito cuidado", disse Davide Mancini durante o evento.
A partir dessa informação, Mancini cruzou os dados com o Global Fishing Watch, plataforma gratuita de monitoramento marítimo, e identificou 2 navios que permaneceram ancorados no mesmo ponto por vários meses.

Assista ao webinário completo no canal do Pulitzer Center no YouTube.
Da coordenada à cadeia de abastecimento
O caso ilustrou, na prática, o caminho que jornalistas podem percorrer a partir de um único dado geográfico. Os 2 navios identificados tinham bandeiras do Domínio Dominicano e do Gabão, o que dificultava a busca pelo proprietário real. A investigação só avançou com a colaboração de um jornalista de outro país, que ajudou a localizar os registros societários.
"O número IMO pode vir acompanhado de dados bastante atualizados, e existem plataformas de fontes abertas onde você pode encontrar quem são os proprietários reais. Mas os registros comerciais nos diferentes países nem sempre são de fácil acesso", explicou Davide.
A partir da identificação dos navios de transporte, que levavam a farinha de peixe e o óleo de peixe até o porto de Dakar, no Senegal, principal hub de distribuição, foi possível rastrear a empresa responsável pelas exportações.
A companhia, chamada Bissau Wangsheng, anunciava publicamente em seu site a produção e exportação de farinha de peixe a partir da Guiné-Bissau, informando inclusive os volumes. Os destinos reportados incluíam Turquia, Chile e Equador.
"O meu palpite inicial e final ainda é que a maior parte da matéria-prima real entraria na União Europeia, mas não é fácil obter dados de importação dos países europeus ou do Reino Unido", afirmou o jornalista.
A investigação revelou uma lógica preocupante no mercado global de proteínas: espécies de baixo valor comercial, como a sardinela — fundamental para a alimentação de populações costeiras e do interior da África Ocidental — estavam sendo capturadas em larga escala para se tornarem ração de espécies de alto valor criadas em aquicultura em outras partes do mundo.
"O ano passado foi a 1ª vez que a produção de aquicultura superou a captura selvagem. O que vejo nessa investigação é que as espécies de baixo valor estão sendo pescadas para alimentar espécies de alto valor criadas em cativeiro em outro lugar. E isso não combate a pesca ilegal — é apenas uma transferência", disse Davide.
O identificador que nunca muda
A 2ª parte do webinário foi dedicada a apresentar ferramentas e técnicas para o rastreamento de embarcações. A apresentadora da equipe de dados e pesquisa do Pulitzer Center, Fernanda Buffa, propôs uma analogia para ajudar os participantes a entenderem os identificadores de navios:
"Comparo os navios a pessoas; eles têm nacionalidades, documentos de identidade e telefones."
Nessa analogia, o número IMO (da Organização Marítima Internacional) equivale ao documento de identidade: é único e não muda, independentemente do navio trocar de bandeira, de nome ou de proprietário.
O MMSI (Maritime Mobile Service Identity) funciona como um número de telefone: pode mudar ao longo do tempo, mas é o que aparece na maioria das plataformas de rastreamento em tempo real. A bandeira corresponde à nacionalidade.
A mesma embarcação pode aparecer com nomes diferentes em plataformas distintas. O exemplo apresentado foi um navio listado como "Damas Wave" em alguns sistemas e como "MV Golden Yara" em outros. O IMO idêntico confirma que se trata do mesmo navio.
Padrões suspeitos no AIS
Federico Rainis, grantee do Pulitzer Center, apresentou os fundamentos do sistema AIS (Automatic Identification System), tecnologia semelhante ao GPS utilizada por embarcações para evitar colisões.
"O AIS sempre transmite dados de identidade do navio, como o IMO e o MMSI, além de informações como velocidade, localização e rumo. Esses dados são ouro quando você está pesquisando", afirmou.
No entanto, Federico fez questão de listar as limitações do sistema. Os dados são autodeclarados pelos próprios navios. A cobertura por satélite pode ser fragmentada. E, mais importante: o AIS pode ser desligado deliberadamente, o equivalente a desativar o GPS do celular.
"Não significa necessariamente que é porque estão fazendo algo ilegal ou suspeito. Mas é um bom ponto de partida para investigar quando encontramos essas lacunas nos rastros, onde o sistema foi desligado e onde foi religado novamente", explicou Federico.
O pesquisador também alertou para a prática de spoofing, que consiste em transmitir dados falsos ou falsificar a identidade de uma embarcação. Para detectar possíveis manipulações, ele sugeriu cruzar os dados do AIS com imagens de satélite:
"Eles podem desligar o AIS, mas não podem evitar ser fotografados do céu."
Do porto ao pixel: imagens de satélite como ferramenta
O webinário abordou o uso de imagens de satélite para verificar a presença de embarcações em locais específicos e demonstrou como isso pode funcionar mesmo sem saber previamente o nome dos navios envolvidos.
Federico apresentou um exercício baseado em uma reportagem da agência Reuters sobre 2 petroleiros flagrados transferindo petróleo ilegalmente no mar da Malásia, a 24 milhas náuticas a oeste de Muka Head.
Usando o Copernicus Browser, plataforma gratuita da Agência Espacial Europeia, e a distância mencionada na matéria como referência, foi possível localizar as duas embarcações na imagem de satélite da data do flagrante.
"O interessante é que, se você fosse ao Global Fishing Watch procurar esses navios, só encontraria um deles — porque o outro estava com o AIS desligado. A imagem de satélite mostrou que havia dois navios ali, mesmo sem sinal de rastreamento", destacou Federico.
Estrutura de propriedade: quem realmente controla o navio
Um dos pontos mais complexos de qualquer investigação marítima é identificar quem de fato controla uma embarcação. O webinário apresentou 6 categorias de proprietários e operadores que podem aparecer nos registros: o proprietário beneficiário (quem lucra com o navio), o proprietário registrado, o operador comercial, o gerente técnico, o operador terceirizado e o gestor de segurança (ISM manager).
A plataforma Equasis, gratuita mediante cadastro, permite consultar o histórico de proprietários e gerentes de um navio. No exemplo apresentado, a mesma embarcação tinha trocado de gerente apenas 1 mês antes da pesquisa — informação que só estava disponível porque o Equasis mantém o histórico de alterações com datas.
Para o cruzamento com sanções internacionais, os participantes foram orientados a consultar plataformas como Open Sanctions e a base de dados da OCCRP (Aleph). No exemplo trabalhado ao vivo, a busca revelou que o navio havia sido sancionado por operar em portos da Crimeia.
Comunidade e método
Ao encerrar o evento, os apresentadores reforçaram que o conjunto de ferramentas apresentado — Global Fishing Watch, Equasis, Copernicus, Marine Traffic, Cerulean para manchas de óleo, e bases de dados de regulação pesqueira como a do OceanLaw — só se torna efetivo quando combinado com fontes humanas e verificação cruzada.
A investigação de Davide começou com um número de coordenadas dito de memória por uma fonte. As ferramentas serviram para confirmar, ampliar e tornar publicável o que ela havia testemunhado.
"Se você não consegue ir fisicamente a um lugar, tente entrar em contato com associações locais de pescadores artesanais. Normalmente eles serão os primeiros a revelar o que está acontecendo — e, em geral, são as vítimas da pesca ilegal", disse Davide.
*O webinário "Investigating the Ocean: How To Track Ships Like a Pro Using OSINT" é o segundo de uma série produzida pelo Pulitzer Center. As gravações e os materiais de apoio estão disponíveis para os participantes inscritos.
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