Vice-presidente da Tanzânia que renunciou é expulso do partido governista
Inquérito pós-eleitoral revelou que mais de 500 pessoas morreram em decorrência da repressão de 2025
*Por Rodney Muhumuza e Ali Sultan
O fato principal
O partido governista da Tanzânia expulsou Emmanuel Nchimbi por indisciplina do seu quadro de correligionários. Isso porque Nchimbi renunciou ao cargo de vice-presidente do país nesta semana.
Este foi um ato de retaliação do partido governista contra a iniciativa do vice-presidente. A medida deve colocar ainda mais à prova as credenciais da nação da África Oriental como um local de relativa paz e estabilidade.
Contexto
Uma reunião do partido Chama cha Mapinduzi (CCM) decidiu punir Emmanuel Nchimbi por indisciplina e indicou o Ministro de Energia, Deogratius Ndejembi, para assumir o cargo de vice da presidente Samia Suluhu Hassan, segundo informou a secretária-geral do CCM, Asha-Rose Migiro, a repórteres na noite de quarta-feira (26.ago).
Acredita-se que a manobra faça parte dos desdobramentos da controversa eleição de Hassan em outubro, quando forças de segurança foram mobilizadas para conter tumultos causados pela desqualificação dos principais rivais da presidente. O acesso à internet foi interrompido por dias, uma medida pela qual Hassan pediu desculpas posteriormente, prometendo que nunca mais aconteceria.
O principal rival de Hassan, Tundu Lissu, está preso sob acusações de traição que ele afirma terem motivação política.
Nchimbi declarou que sua renúncia entraria em vigor em 4 de setembro e que ele continuaria sendo "um bom cidadão" de seu país. A decisão foi considerada uma "surpresa". A estabilidade política na Tanzânia ocorre sob o domínio do partido único, o CCM.
Alguns analistas afirmam que Nchimbi discordava de Hassan em questões de governança e outros assuntos decorrentes da repressão violenta do governo aos protestos durante e após a eleição de 29 de outubro.
Investigação pós-eleitoral
Uma investigação pós-eleitoral revelou que 518 pessoas morreram em decorrência da violência.

O líder da comissão que investigou os episódios, Mohamed Chande Othman, afirmou durante a divulgação do relatório, em abril, que o número de mortes provavelmente era maior, pois algumas famílias enterraram seus entes sem levar os corpos aos necrotérios.
Othman recomendou uma investigação sobre o uso de armas de fogo, uma vez que algumas testemunhas relataram à comissão que seus familiares foram baleados enquanto estavam sentados dentro de suas casas.
Uma versão do CCM governa a Tanzânia desde a independência do Reino Unido, em 1961. O CCM está fundido ao Estado, controlando efetivamente o aparato de segurança e estruturado de modo a permitir o surgimento de novos líderes a cada cinco ou dez anos.
A própria Hassan assumiu a Presidência em 2021 — cargo que ocupava como vice — sem intercorrências, após a morte repentina de seu antecessor, John Pombe Magufuli, logo no início de seu 2º mandato.
Essa transição ordenada preservou a reputação da Tanzânia como um oásis de estabilidade política e relativa paz, fator importante para o apoio considerável de que o CCM desfruta, especialmente entre o eleitorado rural.
*Rodney Muhumuza reportou a partir de Kampala, Uganda. Um repórter da Associated Press em Dar es Salaam, Tanzânia — cuja identidade não pode ser revelada por questões de segurança — também contribuiu para a reportagem.
Autor
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
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