Lula na Casa Branca: as entrelinhas do encontro com Trump
Questões de segurança pública e tarifas aparecem em contexto, assim como o cenário político doméstico
As notícias que definiram a semana
O fato principal
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve um encontro na semana passada com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O evento ocorreu em Washington, na Casa Branca, sede do Poder Executivo dos EUA.
“Acabo de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o muito dinâmico presidente do Brasil. Discutimos muitos temas, incluindo comércio e, especificamente, tarifas”, dizia o texto publicado por Trump em sua rede social, Truth Social.
“Saio daqui com a ideia de que demos um passo importante na consolidação da relação democrática e histórica que o Brasil tem com os Estados Unidos. Foi uma reunião importante. O Brasil está preparado para discutir com qualquer país do mundo qualquer assunto. Não tem assunto proibido. A única coisa que nós não abrimos mão é da nossa democracia e da nossa soberania”, falou Lula.

Em entrevista concedida a jornalistas após o encontro, Lula relatou um momento descontraído da conversa com Trump:
“Ele me perguntou da Copa do Mundo, se a seleção brasileira estava boa. E eu falei: ‘olha, eu espero que você não venha a anular o visto dos jogadores da seleção. Por favor, não faça isso porque nós vamos vir aqui para ganhar a Copa’.”
Contexto
A relação comercial entre os 2 países atravessa, desde 2025, tensões decorrentes da política tarifária de Trump.
O ciclo começou com tarifas de 25% sobre aço e alumínio e avançou com críticas ao STF (Supremo Tribunal Federal), num contexto de apoio de Trump ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Houve ampliação das tarifas para impactar todos os produtos exportados brasileiros.
Depois, um recuo quase integral no fim de 2025 e início de 2026, com a aproximação entre os 2 presidentes. Mas aço e alumínio seguem com taxas elevadas, sendo remanescentes do tarifaço direcionado ao Brasil.

Existe ainda uma tarifa global temporária (mais branda, mas que também impacta o Brasil) de cerca de 10%.
O que isso quer dizer na prática?
Os 30 dias de prazo não são uma vitória; são uma forma sofisticada de manter a pressão. Trump não precisa de acordo agora; precisa de posição de força para negociar em múltiplas frentes ao mesmo tempo. O Brasil entrou na fila, e a fila é longa.
Para Lula, ir a Washington já é um argumento eleitoral doméstico: sinaliza que o país está sendo tratado como protagonista, não como satélite. A questão é quanto dessa imagem resiste se os 30 dias terminarem sem concessão americana real.
Debate sobre crime organizado
Outro tópico sensível na agenda dos 2 países é a ameaça pelos EUA de enquadrar facções criminosas, como CV (Comando Vermelho) e PCC (Primeiro Comando da Capital), como organizações terroristas. Pode parecer apenas uma palavra solta, mas não é. Esta questão "semântica" traz desdobramentos profundos.
Pela legislação brasileira, "terrorismo" não é um termo adequado para caracterizar esses grupos criminosos. Isso porque, no entendimento legal do Brasil, essas são organizações que praticam o "crime pelo crime", dentro de uma lógica de obtenção de lucro.
A mudança de classificação pelos EUA colocaria esses grupos no mesmo patamar de organizações de outros países, que agem com motivações ideológicas (Hezbollah e Hamas, por exemplo). E isso daria brecha para os EUA atuarem diretamente contra as facções.
Um dos temas que debatemos na reunião com o presidente Trump foi o combate ao crime organizado. Temos uma extraordinária Polícia Federal e muita experiência no combate ao tráfico de drogas e de armas. Nossas aduanas já estão cooperando neste sentido.
— Lula (@LulaOficial) May 8, 2026
Criamos uma base na cidade…
Eis abaixo, em itálico, o que Lula escreveu no X (antigo Twitter), na íntegra:
Um dos temas que debatemos na reunião com o presidente Trump foi o combate ao crime organizado. Temos uma extraordinária Polícia Federal e muita experiência no combate ao tráfico de drogas e de armas. Nossas aduanas já estão cooperando neste sentido.
Criamos uma base na cidade de Manaus com a participação de representantes das polícias de países da América do Sul para combater o crime organizado, o tráfico de armas e drogas na fronteira brasileira. Se os Estados Unidos quiserem participar conosco, estarão convidados.
Também precisamos destruir o potencial financeiro do crime organizado e das facções. Esta é outra frente de trabalho importante que estamos atuando, e que estamos dispostos a colaborar. E que integra o plano Brasil Contra o Crime Organizado, que vamos lançar na semana que vem.
Governo x Congresso: a política doméstica

Já vai fazer duas semanas que Lula teve duas derrotas relevantes no Congresso Nacional –e um personagem central nos 2 episódios foi o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP):
- Pela 1ª vez em 132 anos, uma indicação feita pelo presidente da República para um cargo no STF (Supremo Tribunal Federal) foi rejeitada pelo Senado. A rejeição do advogado-geral da União Jorge Messias para o STF (por 34 votos a favor, 42 contra) rompeu um padrão em que o Executivo só formalizava indicações à Corte com apoio previamente assegurado.
- A origem do fracasso é parte da história: Alcolumbre defendia o nome de Rodrigo Pacheco para a vaga desde novembro de 2025. Por receio de rejeição, o Planalto só formalizou o envio da indicação em abril, depois de meses tentando vencer resistências.
O resultado foi uma derrota dupla: institucional (a vaga) e política (o sinal enviado). A insistência de Lula em manter Messias terminou em derrota por vingança. Alcolumbre mostrou que tem votos, tem timing e não tem constrangimento.
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- No dia seguinte à rejeição de Messias, o Congresso derrubou o veto presidencial ao PL da Dosimetria, que altera regras de cálculo de penas para crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Na Câmara, 318 votos pela derrubada, 144 pela manutenção. No Senado, 49 a 24. O PL abranda as penas dos condenados pelos atos com pautas golpistas de 8 de janeiro de 2023 –entre eles, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão pelo STF.
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Concessão calculada: PL dos Minerais Críticos
Na véspera da viagem de Lula a Washington, a Câmara aprovou o PL que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O presidente Hugo Motta (Republicanos-PB) e o Palácio do Planalto patrocinaram o avanço rápido do projeto. Neste caso, foi uma vitória compartilhada, e o timing não foi acidente.
O conteúdo do texto revela a costura política: após pressão de mineradoras, parlamentares e de alas do próprio governo contrárias a um poder amplo de veto, o relator retirou a exigência de anuência prévia do Executivo sobre fusões e mudanças de controle nas mineradoras. O resultado foi um meio-termo: menos poder de veto direto, mais coordenação estatal sobre a política mineral. O governo cedeu no instrumento, mas manteve a narrativa de soberania.
O Brasil tem a 2ª maior reserva de terras raras já mapeada no mundo, ficando atrás apenas da China (mas apenas 25% do território nacional foi mapeado). Isso transforma o PL em argumento de peso na mesa com Trump, que quer discutir o acesso a recursos estratégicos para a cadeia tecnológica americana.
Nossos minerais críticos serão tratados como uma questão de soberania nacional, gerando riqueza e inovação em benefício de nosso país. 🇧🇷 pic.twitter.com/SJONvkPGGu
— Lula (@LulaOficial) May 8, 2026
O que isso tudo significa junto
Alcolumbre não está apenas sendo difícil: está construindo poder. Cada derrota imposta ao Planalto aumenta seu capital junto à base de centro e direita que vai decidir alianças eleitorais em 2026. A aprovação dos Minerais Críticos com patrocínio conjunto de Hugo Motta e Lula mostra que há agenda de cooperação possível, mas ela tem preço (e o Congresso está cobrando).
A pergunta que fica:
Lula vai indicar um segundo nome ao STF antes das eleições ou deixa a vaga aberta para não oferecer outro campo de batalha? O líder da oposição no Senado, Rogério Marinho, já pediu a Alcolumbre que não pautasse nova indicação ao STF pelo menos até o fim das eleições. Se Alcolumbre bancar isso, a vaga vira símbolo do final de mandato e o Congresso (e não o presidente) estará ditando o ritmo.
Outro desdobramento:
O ministro Alexandre de Moraes, do STF, já suspendeu os efeitos do PL da Dosimetria. Já era sabido que haveria desdobramentos na Justiça –e foi rápido.

Irã, Ormuz e os EUA
O que chegou à semana de 11 de maio: impasse.
O Irã apresentou sua resposta formal à mais recente proposta de paz norte-americana, mediada pelo Paquistão desde 8 de abril. O plano iraniano tem foco exclusivo no fim da escalada no Oriente Médio, especialmente no Líbano, e na garantia de segurança da navegação pelo Estreito de Ormuz, que segue bloqueado.
A questão nuclear, um ponto considerado central para os EUA para qualquer acordo duradouro, foi deixada para uma 2ª fase. Trump qualificou a resposta iraniana como "totalmente inaceitável" na rede Truth Social.
Traduzindo: as negociações continuam, mas cada declaração pública de Trump é também um argumento doméstico. Chamar a proposta de inaceitável não fecha a porta; sinaliza que ele quer mais antes de aceitar qualquer saída que pareça concessão.
O que acompanhar:
Se o Paquistão consegue avançar as negociações antes de Trump decidir que outra rodada de ataques é mais vantajosa eleitoralmente. E se a reabertura gradual de Ormuz se converte em precedente ou gesto isolado.
Geopolítica: mais sobre o que está acontecendo no mundo
- Europa e Ucrânia. A pressão norte-americana para um cessar-fogo negociado continua, mas sem linha vermelha clara. A Europa segue dividida entre os que querem resistência prolongada (Reino Unido e Polônia, por exemplo) e os que já calculam o custo da reconstrução.
- China e comércio global. A guerra tarifária EUA-China está em trégua técnica, mas as pressões estruturais permanecem. O que isso significa para o Brasil: somos um dos poucos países no mundo com capacidade de fornecer commodities a ambos os lados e essa posição cria tanto oportunidade quanto vulnerabilidade. A negociação com Washington não pode sacrificar o espaço brasileiro em Pequim.
- América do Sul. A Argentina de Milei passa por um ajuste fiscal brutal –e com aprovação popular surpreendente. Isso faz o país virar referência para alguns setores políticos brasileiros que querem o mesmo caminho. A instrumentalização desse exemplo no debate eleitoral do Brasil está em curso e vai escalar.
Recomendações curadas

Uma das melhores reportagens que você poderá encontrar para entender melhor quem é o presidente do Senado. Cada linha é uma apuração.
Já assistiu ao documentário que produzimos no Monte Roraima? Uma jornada épica com 8 dias, uma mochila de 15 kg nas costas e mais de 100 km percorridos, da Venezuela ao Brasil. No canal do Correio Sabiá no YouTube.

Guiana: um país que está "se dando bem" com a instabilidade de Ormuz. Vale a pena ler para entender melhor como a guerra no Irã e a escalada de conflitos no Oriente Médio muda a dinâmica global.
O que observar nesta semana
- Primeiros movimentos das negociações Brasil-EUA: os 30 dias começaram. A formação das equipes técnicas vai revelar o grau real de comprometimento americano.
- Movimentação do campo Tarcísio: o governador de São Paulo ainda não declarou candidatura. Cada semana de silêncio é uma semana de pressão crescente do PL para que Flávio Bolsonaro consolide espaço.
- Aprovação de Lula pós-Washington: o efeito do encontro nas pesquisas vai aparecer nas próximas semanas. Se subir, confirma que diplomacia funciona como argumento eleitoral. Se não mover, o governo precisa de outra narrativa de força.
Autor
Jornalista e empreendedor. Criador/CEO do Correio Sabiá. Emerging Media Leader (2020) pelo ICFJ. Cobriu a Presidência da República.







