Artigo: 'Coalizão de segurança deve evitar novas invasões russas'

Artigo: 'Coalizão de segurança deve evitar novas invasões russas'

Artigo: ‘Coalizão de segurança internacional pode evitar novas invasões russas à Ucrânia’, por Henry Galsky

Exigência ucraniana nas negociações é formar uma nova coalizão e neutralizar novos avanços da Rússia
Invasão russa motiva protestos em diversos países do mundo há mais de 1 mês, e Ucrânia quer nova coalizão de segurança internacional para neutralizar eventuais novas invasões / Foto: Samuel Jerónimo/Unsplash
Invasão russa à Ucrânia motiva protestos em diversos países do mundo há mais de 1 mês / Foto: Samuel Jerónimo/Unsplash
*Por Henry Galsky, de Israel

Por mais que as negociações entre representantes russos e ucranianos sejam lentas e difíceis, é possível imaginar desde já um caminho de saída. Já escrevi por aqui anteriormente, mas é impossível que o presidente Vladimir Putin decida retroceder apenas em função da intensidade da resistência ucraniana que ele não pensava que iria enfrentar. Digo isso porque a solução entre as partes vai demandar alguma perda relevante (para além das perdas que já estão em curso, sob o ponto de vista estrutural e humano) para a Ucrânia.

E neste aspecto já é possível cravar quais serão essas perdas: a primeira delas é intangível e nem existe ainda. Seria a chamada “neutralidade” do Estado ucraniano. Ou seja, para encerrar o conflito, o presidente Zelenskiy precisará assumir o compromisso de que seu país não irá aderir à Otan, a aliança militar ocidental capitaneada pelos EUA. Seria uma vitória russa no campo do simbolismo. A afirmação de que a invasão à Ucrânia conseguiu impedir a adesão ucraniana à Otan. De fato, é isso mesmo.

Agora, as demais perdas provavelmente serão territoriais. A Rússia quer o reconhecimento da anexação da Crimeia, ocorrida em 2014, e também da independência das autoproclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk, ambas situadas na fronteira com a Rússia e controladas por separatistas apoiados pelo governo russo.

As demandas de Moscou já seriam problemáticas o bastante se dependessem apenas da aprovação do Zelenskiy e de sua administração. Mas, para complicar ainda mais a situação, o presidente ucraniano se comprometeu a submeter a versão final do acordo com a Rússia a referendo e também à votação no Parlamento. E aí, por mais que o país esteja bastante castigado pela ofensiva, perda de território é um tema sensível.

Mas a Ucrânia também apresenta demandas próprias e que podem neutralizar a vulnerabilidade atual. Nas negociações que se iniciaram na Turquia, os ucranianos teriam concordado em não aderir à Otan. No entanto, exigem a formação de uma nova coalizão de segurança internacional cujo propósito seria justamente o de impedir novas invasões russas no futuro.

Essa informação foi confirmada a veículos da imprensa por Mykhailo Podolyak, Conselheiro do Chefe do Gabinete do presidente Zelenskiy. E aqui neste ponto reside a grande sacada, o chamado nó tático ucraniano.

Lembrando: essa ideia foi apresentada pela Ucrânia como contrapartida para não ingressar na Otan. Os Estados que formariam esta coalizão -chamados de Estados garantidores- seriam os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (com exceção da Rússia, evidentemente) -China, França, Reino Unido e EUA- além de Canadá, Alemanha, Israel, Itália, Polônia e Turquia.

Os representantes ucranianos fizeram menção inclusive ao Artigo 5 do tratado da Otan. Este é o artigo que estabelece a lógica da defesa coletiva. Ou seja, um ataque externo contra um membro da aliança é considerado um ataque contra todos os demais. E a defesa, claro, é coletiva em relação a todos os membros.

Para ser ainda mais claro, a Ucrânia pode encerrar o conflito com a Rússia tendo a seu favor uma espécie de Otan particular que, se for criada de acordo com os parâmetros que se apresentam, colocaria, além dos EUA, algumas das principais forças militares do mundo ao lado dos ucranianos -como China e Israel, por exemplo.

Não é um mau negócio para Kiev. Para ser ainda mais redundante, caso de fato as negociações se encerrem com todas as partes concordando com a proposta ucraniana, Kiev teria algo muito valioso a seu favor: a certeza de que a invasão total russa seria a primeira e a última.

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