O que o show da Madonna e a tragédia no Sul têm a ver? Nada

Influencers e oportunistas em busca de ganhos políticos desinformam ao misturar as duas coisas

O que o show da Madonna e a tragédia no Sul têm a ver? Nada
1,6 milhão de pessoas foram à praia de Copacabana, no Rio de Janeiro / Imagem: Fabio Motta/Prefeitura do Rio

Alguns influencers e oportunistas em busca de ganhos políticos tentaram conectar duas coisas que não têm nada a ver: a tragédia socioambiental no Rio Grande do Sul e o show da artista Madonna no Rio de Janeiro.

Propagaram desinformação na tentativa de emplacar uma narrativa falsa: as histórias de que havia diversão, enquanto outros brasileiros sofriam; que havia dinheiro para entretenimento, enquanto recursos não seriam liberados para salvar vidas. Tudo mentira.

Para início de conversa, o show custou um total de R$ 60 milhões (entre contratações, infraestrutura, etc.). A maior parte foi de capital privado. Só o Itaú, maior patrocinador, deu R$ 30 milhões.

Os governos municipal (prefeitura do Rio) e estadual (governo do estado do Rio) deram R$ 10 milhões, cada. O valor de dinheiro público total foi R$ 20 milhões.

  • Considerando que o evento movimentou mais de R$ 300 milhões na economia, você diria que foi um bom investimento?

Compareceram à praia de Copacabana 1,6 milhão de pessoas, recorde histórico de público para um show individual. O Rio estampou os principais jornais do mundo com um viés positivo, o que atrai mais eventos, oportunidades e investimentos.

O governo federal não deu 1 centavo para o show, ao contrário de muitas narrativas falsas que circularam nas redes. Já o dinheiro do município do Rio e do estado do Rio não poderia ser destinado para o Rio Grande do Sul, de qualquer maneira. (Mesmo que você queira muito.)

Além disso, um show desse porte já estava contratado há muito tempo, com questões contratuais. Ninguém teve a ideia de armar de repente um show dessa magnitude com uma tragédia acontecendo.

Você acha que, logo depois da tragédia no Sul, alguém no Rio de Janeiro virou para o lado, reuniu uma turma e falou: "Pessoal, vamos trazer a Madonna amanhã para cantar em Copacabana, com estrutura para 1,6 milhão de pessoas?" Trata-se de uma operação planejada por muito tempo, com toda a logística que ela envolve.

Realizar o show nunca foi questão de “trade-off”, ou seja, "ou show, ou suporte contra o desastre". Aliás, você pode estar feliz pelo show e triste pela tragédia, por exemplo. As duas coisas ao mesmo tempo. Também pode não gostar do show e não gostar da tragédia. Igualmente liberado.

Só não faz sentido nenhum atrelar negativamente a realização do show à tragédia. O desastre no Rio Grande do Sul é causado pelas mudanças climáticas. É culpa de quem trabalha para passar legislações que afrouxam normas ambientais.

Muitas vezes, veja que coincidência, quem atua para afrouxar as regras de fiscalização e preservação ambiental são os mesmos políticos oportunistas e influencers que têm se aproveitado da tragédia alheia para desinformar.

Um exemplo de narrativa falsa que pegou foi a seguinte, que vi nas redes sociais: “Será que vão movimentar R$ 60 milhões para ajudar o Rio Grande do Sul também?” A questão foi em tom de ironia e contra o governo federal (que não movimentou nada pelo show da Madonna).

A resposta é séria, porque desinformação não é brincadeira:

– Claro que não vão movimentar R$ 60 milhões. Vão movimentar centenas de vezes mais do que isso. Suspensão de dívida com a União por anos, auxílio, injeção de dinheiro, linha de crédito, etc. A reconstrução não sairá por menos do que muitas dezenas de bilhões. E aí, sim, o governo federal é quem entra na jogada.

Outro exemplo de mentira: houve posts que mostraram um ilustre empresário apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) liberando 2 helicópteros para ajudar as vítimas. A legenda dizia que esse empresário, sozinho, teria ajudado mais do que a FAB (Força Aérea Brasileira). O post teve 700 mil curtidas no Instagram.

Um ex-deputado estadual do PL (Partido Liberal) pagou para impulsionar esse post (ou seja, patrocinou a postagem para ampliar seu alcance). A verdade: àquela altura, só as Forças Armadas (que obedecem ao governo federal) haviam cedido 2 helicópteros, 20 aeronaves, 84 embarcações, 385 viaturas e 1.100 oficiais.

A desinformação confunde a população e a priva do direito de tomar de decisão conscientes, embasadas em fatos. O cidadão comum pode até ter dificuldade em diferenciar cada esfera de poder, mas um político que propaga confusão sabe bem o que faz, porque tem pleno entendimento do poder público.

Ou seja, é má-fé misturada com inconsequência, porque prejudica as vítimas da tragédia à medida em que oculta informações importantes e obriga órgãos públicos, já sobrecarregados, a desmentir a todo momento uma enxurrada de fake news –que atingem enorme alcance com financiamento de empresários.

Uma das metas do Correio Sabiá é lutar contra isso. "Uma sociedade bem-informada toma decisões melhores, baseadas em fatos, dados e evidências."