Pesquisador aponta avanços na democratização de dados marinhos no Brasil
Oceanógrafo e especialista em geoprocessamento, Tiago Gandra também alertou para as lacunas que ainda comprometem a ciência e a tomada de decisões
Existe uma máxima, frequentemente repetida, de que a humanidade conhece mais a superfície da Lua do que os fundos dos oceanos. No Brasil, a afirmação é especialmente válida. Segundo Tiago Gandra, oceanógrafo, doutor em Geografia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e professor do IFRS (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul), o país teve avanços recentes na democratização dos dados marinhos, mas ainda tem lacunas profundas de conhecimento, o que compromete a tomada de decisões sobre a chamada Amazônia Azul, a vasta área marítima sob jurisdição brasileira.
"A gente conhece muito pouco", disse Gandra em entrevista ao Correio Sabiá.
"Temos lacunas que são espaciais –uma densidade maior de dados nas regiões mais costeiras e muito pouco nas regiões mais profundas. Temos lacunas temporais, porque muitas coletas aconteceram por projetos específicos. E temos lacunas temáticas", acrescentou.
Assista à entrevista completa no canal do Correio Sabiá no YouTube.
Professor de geoprocessamento desde 2010 e pesquisador associado ao NEMA (Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental) desde 2005, Gandra é especialista em Sistemas de Informação Geográfica, sensoriamento remoto, bancos de dados espaciais e análise de séries temporais marinhas.
Nos últimos anos, tem dedicado sua pesquisa ao PEM (Planejamento Espacial Marinho), um campo que busca organizar os múltiplos usos do oceano, da pesca industrial à exploração de petróleo, dos parques eólicos offshore às unidades de conservação.
Do dado à informação: uma distinção que pode mudar políticas
Para Gandra, um dos maiores obstáculos ao uso eficiente do conhecimento oceânico não é apenas a falta de coleta; é a distância entre o dado bruto e a informação útil para quem precisa tomar decisões.
"Eu gostaria de destacar uma distinção entre dado e informação. Eu consigo enxergar grandes lacunas de dados, mas também lacunas de camadas de informação espacial nas áreas marinhas."
O exemplo que ele usa: o PREPS (Programa de Rastreamento de Embarcações por Satélite), mantido pelo governo federal, registra a posição de barcos de pesca a cada poucos minutos. São mais de 150 milhões de registros em apenas 2 anos de coleta, mas inacessíveis para a maioria dos usuários por questões de confidencialidade e por demandarem infraestrutura computacional robusta para serem processados. Quando esses dados são incorporados ao Global Fishing Watch e agregados em quadrantes com horas de pesca efetiva, tornam-se informação.
"Isso é uma informação que protege a confidencialidade dos pescadores, mas que permite ao poder público saber onde a pesca industrial está concentrada. Quando você vai licitar blocos de exploração de petróleo, criar uma unidade de conservação, pensar parques eólicos offshore, você vai conseguir minimizar o conflito com a pesca industrial e pensar em áreas que não são tanto utilizadas", disse.
A conclusão prática:
"Para a tomada de decisão, a gente não precisa exatamente de dados; a gente precisa de informação agregada e com significado."
Mission Atlantic: quando 14 países olharam juntos para o Atlântico
Gandra participou do projeto Mission Atlantic, uma iniciativa financiada pela União Europeia que reuniu mais de 40 instituições de 14 países, incluindo África do Sul, Espanha, Bélgica, Reino Unido e Brasil, para produzir conhecimento integrado sobre o Oceano Atlântico, do Norte ao Sul.
No recorte brasileiro, o projeto gerou um mapeamento inédito da plataforma continental sul do Brasil, de Cabo Frio ao Chuí, em profundidades de até 200 metros. O resultado foi uma matriz que relaciona ecossistemas, setores econômicos dependentes desses ecossistemas, pressões exercidas por esses setores e estratégias de gestão possíveis.
Um dos produtos mais valorizados nas reuniões com o poder público foi justamente a plataforma SISCAT, um WebSIG intuitivo que centraliza dados de múltiplos setores em uma interface acessível.
"Quando você começa a criar ferramentas que possibilitam essa integração, mesmo que de forma simplificada, você transforma dado em informação disponível para quem não tem expertise em informação geográfica", explicou Gandra.
O projeto está sendo encerrado em 2026, com seu último ano dedicado à educação, divulgação científica e capacitação do poder público.
Dados históricos em risco e iniciativas que tentam salvá-los
Um dos pontos mais urgentes levantados por Gandra é o risco de perda de dados históricos preciosos. Coletar dados no mar é caro: um navio pequeno custa entre R$ 30 mil e R$ 50 mil por dia; um navio sísmico pode chegar a US$ 200 mil (valor em dólares) diários. O Brasil investiu décadas nesse esforço, mas boa parte do resultado está disperso em laboratórios e universidades, sem organização adequada.
"Houve um investimento muito grande na coleta e não tanto na sistematização e organização desses dados", disse Gandra. O projeto REVIMAR surge como resposta: uma de suas frentes é o resgate de dados históricos em relatórios e bancos de dados institucionais para consolidá-los numa infraestrutura espacial nacional.
"Isso é arqueologia de dados e é muito importante", afirmou.
No campo das infraestruturas digitais, Gandra observa avanços desde 2016, quando publicou um artigo com o título provocador "Onde estão os dados necessários para o planejamento espacial marinho?", época em que a INDE (Infraestrutura Nacional de Dados Espaciais) não tinha "absolutamente nada do mar". Desde então, ministérios como o do Meio Ambiente e o do Turismo passaram a alimentar esse repositório. Agora, o PEM está desenvolvendo um geoportal específico para dados marinhos, começando pela região sul como projeto piloto.
Jornalismo como elo entre ciência e sociedade
Ao fim da conversa, Gandra reservou palavras diretas para o papel da imprensa nesse processo. Para ele, a cobertura jornalística do oceano é essencial para informar a sociedade e para mudar a forma como o Brasil se enxerga enquanto nação marítima.
"A primeira questão é chamar atenção. Quando esse tipo de tema está mais presente na grande imprensa, nos podcasts, em todas essas formas de divulgação, isso também faz com que os tomadores de decisão comecem a pensar melhor nessas questões", disse.
Um sinal dessa mudança –pequeno, mas simbólico– é a inclusão da área marinha nos mapas oficiais do Brasil pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O oceano começou a aparecer no mapa.
Entrevista realizada pelo Correio Sabiá. Tiago Gandra é oceanógrafo, doutor em Geografia pela UFSC e professor do IFRS desde 2010. Atua como pesquisador nos grupos de pesquisa Geotecnologias e Meio Ambiente (IFRS), Gestão Costeira Integrada (UFSC) e Oceanografia Geológica (UFSC).
Autor
Jornalista e empreendedor. Criador/CEO do Correio Sabiá. Emerging Media Leader (2020) pelo ICFJ. Cobriu a Presidência da República.
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