Influenciadores virtuais criados com IA ameaçam debate eleitoral de 2026, aponta pesquisador
Matheus Soares, do Aláfia Lab e do Desinformante, apresentou panorama do uso de inteligência artificial em conteúdo político
Antes mesmo do início da campanha eleitoral oficial, personagens fictícios gerados por inteligência artificial já acumulam milhões de visualizações nas redes sociais com opiniões sobre candidatos, partidos e o governo Lula. O fenômeno, batizado de "influenciadores de IA" ou avatares sintéticos, é a principal tendência identificada pelo Observatório IA nas Eleições de 2026 e levanta questões sobre responsabilização jurídica, manipulação do debate público e o alcance das regras do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
O diagnóstico foi apresentado por Matheus Soares, coordenador de conteúdo do Desinformante e do Aláfia Lab, em um webinário promovido pelo Correio Sabiá em parceria com o Sleeping Giants Brasil. Soares acompanha os usos de IA generativa no ecossistema informacional desde o lançamento do ChatGPT, em 2022, e coordena o Observatório IA nas Eleições desde junho de 2024. Assista no canal do Correio Sabiá no YouTube.
O que mudou de 2024 para 2026

O Observatório foi criado às vésperas das eleições municipais de 2024, em parceria com o Data Privacy Brasil. Naquele ciclo, a tecnologia generativa foi usada por candidaturas (em cidades como Salvador, no Rio de Janeiro e em São Paulo), mas o impacto na desinformação foi menor do que o esperado.
"A principal desinformação que circulou naquele momento, inclusive pelo Pablo Marçal, que foi o laudo falso sobre o Guilherme Boulos, não foi feita com inteligência artificial", disse Soares.
O ponto de inflexão, segundo o pesquisador, foi o lançamento do Veo 2, do Google, e as atualizações das ferramentas de criação de vídeo da OpenAI, em meados de 2025. A partir daí, as ferramentas passaram a produzir vídeos hiperrealistas com qualidade estética que dificulta a identificação por leigos.
"A gente já identificou que isso poderia respingar nos conteúdos políticos. E foi o que aconteceu ao longo de 2025", disse.
Entre os casos mapeados no período:
- Deepfake simulando telejornal afirmando que Trump enviara militares ao Brasil para libertar Bolsonaro;
- Vídeo de Lula comendo picanha em barco durante a COP30 em Belém; e
- Imagem da cantora Shakira adulterada para simular apoio a Jair e Flávio Bolsonaro.
"São conteúdos de diversos espectros políticos", ressaltou Soares.
Dona Maria e o fenômeno dos avatares sintéticos
O caso que mais repercutiu na imprensa foi o da "Dona Maria": uma mulher negra e idosa gerada por inteligência artificial, com perfil ativo nas redes sociais, opiniões sobre a política brasileira e alcance expressivo. A personagem não existe, mas dialoga diretamente com o público real.
"São pessoas fictícias que estão ali publicando uma opinião sobre um determinado candidato, sobre um determinado partido, e consequentemente estão emitindo opinião dentro do debate público", explicou Soares.
Do lado oposto do espectro, o pesquisador identificou o "Zé da Feira", avatar com discurso de endossamento ao governo Lula, e outros perfis fictícios voltados a posicionamentos progressistas. No entanto, nenhum tem o alcance da Dona Maria.
Para Soares, a criação desses personagens não é aleatória:
"Muito provavelmente, a pessoa que criou pediu para ser uma mulher negra, idosa. Não foi aleatório. Me faz pensar como esse comando também é muito estratégico no contexto informacional que a gente tem hoje."
A responsabilização jurídica desses avatares permanece em aberto:
"Não são pessoas de verdade para a justiça penalizar. Quem responsabilizar quando um influencer como a Dona Maria solta uma desinformação no meio das eleições?"
2 de 3 conteúdos sem rótulo
O mapeamento do Observatório identificou que 2 em cada 3 conteúdos publicados nas redes sociais feitos com IA não trazem qualquer sinalização de que foram gerados artificialmente, incluindo publicações de políticos e partidos. Entre os casos documentados em 2026:
- O PSDB usou imagem de Lula criada com IA para criticar políticas de combustíveis;
- O PT usou conteúdo sintético em campanha pela regularização do título de eleitor; e
- Deputados federais e estaduais têm produzido vídeos com rostos de pré-candidatos à Presidência sem qualquer identificação.
"Quando são políticos ou partidos publicando conteúdo sintético sem o rótulo, isso evidencia que eles não estão preocupados em informar ao cidadão que aquele conteúdo foi feito por inteligência artificial", disse Soares.
Violência política de gênero com IA
Em 2024, o Observatório mapeou pelo menos 5 casos de deep nudes –imagens sexuais falsas criadas com IA– envolvendo candidatas no Sudeste. Em 2026, a tendência se expande para outras formas de violência política de gênero.
Soares citou conteúdos sintéticos transfóbicos com a vereadora Erika Hilton e material que simulava Michele Bolsonaro em situação degradante. Por razões éticas, esses casos são registrados na base de dados privada do Observatório, sem repercussão pública das imagens.
"A inteligência artificial está vindo para criar uma nova camada de violência política de gênero que essas pessoas já sofrem. A gente precisa ficar de olho."
O que diz o TSE para 2026
O TSE atualizou para 2026 as resoluções sobre uso de IA na propaganda eleitoral, com o Aláfia Lab participando da consulta pública. As principais regras:
- Rotulagem obrigatória. Todo conteúdo criado com IA publicado por campanhas deve ser identificado como tal, na legenda ou por meio de rótulo fornecido pelas plataformas.
- Proibição de deepfakes. O conceito ainda não tem definição consolidada na jurisprudência, o que gerou inconsistência nas decisões dos tribunais regionais em 2024.
"Alguns juízes olhavam a deepfake e diziam: isso aqui está muito grotesco e não vai desinformar. E mantinham o conteúdo nas redes", relatou Soares.
- Restrição de chatbots. É vedada "qualquer simulação de interlocução com a pessoa candidata ou outra pessoa real". O pesquisador alertou que chatbots que respondem com áudio na voz de um candidato podem se enquadrar nessa proibição.
- Janela eleitoral silenciosa. Novidade de 2026: fica proibida a circulação de novos conteúdos de IA nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao pleito.
- Responsabilidade das plataformas. O TSE incorporou obrigações para provedores de redes sociais, incluindo monitoramento de conteúdo fora dos padrões, impedimento de chatbots que recomendem candidatos e remoção de material de violência de gênero.
Assimetria no uso da desinformação
Questionado sobre a distribuição do fenômeno entre campos políticos, Soares respondeu que a produção de conteúdo sintético ocorre em todos os espectros, mas a capacidade de disparo e viralização é concentrada.
"É nítido que a extrema-direita tem um padrão ali, um comportamento de disparo, de uso dessas ferramentas, inclusive o conhecimento dessas ferramentas, que o lado progressista não tem."
*O webinário integra a série de debates promovida pelo Correio Sabiá em parceria com o Sleeping Giants Brasil.
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Primeira organização de notícias do Brasil criada no WhatsApp, em 2018, para combater a desinformação.
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