Islândia vota para decidir se retoma as negociações para virar membro da União Europeia
Votação ocorre num contexto de ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a vizinha Groenlândia
*Por Kwiyeon Ha e Brian Melley
O fato principal
Os eleitores da Islândia foram às urnas neste sábado (29.ago.2026) para decidir se o país deve retomar as negociações para se tornar membro da União Europeia, paralisadas desde 2015. Analistas acreditam em votação acirrada.
O evento ocorre num contexto de ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de assumir o controle da vizinha Groenlândia, território autônomo que pertence ao Reino da Dinamarca.

Contexto
A pergunta do referendo — que exige uma resposta de "sim" ou "não" — é bastante simples para os cerca de 265 mil eleitores aptos a votar:
"A Islândia deve retomar as negociações de adesão com a União Europeia?"
Um voto favorável desencadearia negociações com o braço executivo da UE, a Comissão Europeia, abrangendo 35 áreas, desde a economia até os direitos humanos.
Alguns defensores acreditam que a União Europeia poderia oferecer proteção caso Trump fizesse ameaças semelhantes contra a Islândia. Eles também veem estabilidade econômica na adesão ao bloco.
Se os eleitores rejeitarem a proposta, o assunto estará encerrado — pelo menos por uma geração.
Os opositores concentraram seus argumentos na ameaça que a adesão à UE representaria para os ricos recursos pesqueiros da Islândia e no fato de que o país já colhe benefícios por integrar o mercado único da UE (sem barreiras comerciais) e a zona de livre circulação de Schengen.
Mais de 20% dos eleitores votaram antecipadamente antes do dia da eleição (28.ago), informou a emissora nacional da Islândia, RÚV.
Groenlândia é o pano de fundo
Quando Trump falou sobre o controle dos EUA sobre a Groenlândia, particularmente no início deste ano, ele mudou o clima na Islândia, país situado a apenas 290 km (180 milhas) do território autônomo pertencente à Dinamarca — uma aliada de longa data dos EUA.
Alguns islandeses ficaram particularmente alarmados quando ele citou erroneamente o nome do país deles 4 vezes, enquanto falava sobre suas intenções em relação à Groenlândia.
Embora Trump tenha indicado que não usará a força para tomar a Groenlândia, seu interesse não parece ter diminuído.

A preocupação entre muitos islandeses é:
"Se a Groenlândia for tomada, a Islândia será a próxima?"
A questão que se segue também é clara:
"Em caso afirmativo, a adesão à UE serviria de escudo contra quaisquer novas ambições de Trump no Atlântico Norte?"
O governo de coalizão de esquerda da Islândia, eleito em 2024, certamente acredita que sim; essa é, em grande parte, a razão pela qual o país decidiu antecipar o referendo sobre a UE, que estava originalmente planejado para o próximo ano, 2027.
"Não podemos mais confiar realmente nos EUA", afirmou Hildur Knútsdóttir, escritora de ficção de terror que pretende votar a favor da adesão à UE.
Direitos de pesca e adesão à UE
O debate sobre a UE não é novidade na Islândia, que encerrou formalmente sua tentativa anterior de ingressar no bloco em 2015, principalmente devido a preocupações sobre o impacto que a adesão teria em seus ricos recursos pesqueiros.
As volumosas capturas de bacalhau e hadoque nas águas geladas do Ártico, ao redor da Islândia, também são fundamentais para a identidade nacional. Os descendentes dos vikings que se estabeleceram na ilha vivem do mar há séculos.
Como grande parte da economia do país está voltada para sua lucrativa e bem gerida indústria pesqueira, os direitos de pesca têm sido um tema central nas discussões que antecedem o referendo.
A adesão à UE — composta por 27 nações — exigiria que a Islândia integrasse a política comum de pesca do bloco, o que permitiria a entrada de traineiras espanholas, holandesas e de outras nacionalidades em suas águas. O governo indicou que buscaria um acordo especial, possivelmente uma isenção total (opt-out) em relação a essa política.
Nos dias finais que antecedem a votação, a primeira-ministra da Islândia, Kristrún Frostadóttir, tem procurado lembrar aos eleitores que o referendo não encerra o assunto e que haverá uma nova consulta popular caso a Islândia chegue a um acordo de adesão com a UE.
"Esta não é uma eleição sobre a adesão em si nem sobre a adaptação, pois haverá outro referendo sobre o acordo de ingresso caso o resultado seja favorável", disse Frostadóttir durante um comício.
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