Fortalecimento de unidades de conservação é essencial para proteger corais, diz pesquisador

Fortalecimento de unidades de conservação é essencial para proteger corais, diz pesquisador
Imagem: Benjamin L. Jones/Unsplash

Doutor em Oceanografia e Professor pela USP (Universidade de São Paulo), Miguel Mies afirmou em entrevista ao Correio Sabiá que o fortalecimento de UCs (unidades de conservação) existentes e a criação de novas unidades são uma importante solução para proteger os recifes de corais.

"A unidade de conservação deixa o ambiente mais robusto, mais resistente, para enfrentar ondas de calor. Ambientes protegidos vão tolerar melhor do que os ambientes que sofrem com uma série de outros impactos, como poluição, sobrepesca ou turismo sem gerenciamento", disse.

A entrevista ocorreu no dia 2.mai.2024 pela série "Sábios Diálogos", as conversas de alto nível do Correio Sabiá. Está disponível na íntegra no canal do Correio Sabiá no YouTube, e o tema principal foi branqueamento de corais. É possível assistir abaixo:

Além de Doutor pela USP, Mies é responsável pelo Laboratório de Recifes de Corais e Mudanças Climáticas (LARC); Coordenador de Pesquisas do Projeto Coral Vivo; e membro do Conselho Diretor do Instituto Coral Vivo. Eis o currículo Lattes dele.

Pela série Sábios Diálogos, convidamos especialistas em assuntos de interesse público para conversar conosco, via Zoom. Liberamos que nossa Comunidade participe ao vivo da sessão. Basta se inscrever para receber o link de acesso.

'No ritmo atual, vamos praticamente aniquilar os recifes de corais em escala global'

Miguel Mies, em entrevista ao Correio Sabiá, sobre o ritmo de aquecimento do planeta

Eis o contexto em que estamos inseridos em nível global, segundo pesquisador:

"A gente esquentou muito o planeta e, mesmo que a gente conseguisse parar de poluir a atmosfera e de esquentar o planeta agora, o planeta ainda tem muito calor acumulado e vai continuar esquentando por alguns anos. A gente sabe que o tempo está bastante contra."

"A gente tem cerca de 25 anos para reverter isso aí. Por quê? Porque já existem modelagens bastante precisas que mostram que, se continuarmos esquentando o planeta na taxa que estamos esquentando, a gente vai ter só 5% dos recifes de corais que tínhamos no começo da década de 1990. Então, vai praticamente aniquilar os recifes de corais em escala global. É uma corrida contra o tempo."

Além do fortalecimento de unidades de conservação, Mies defende um esforço global de conscientização. Educação ambiental.

"Como são eventos de escala global, não adianta a gente fazer a nossa parte no Brasil, mas os outros países não. Todo mundo tem que se unir e isso passa por um esforço muito grande de educação ambiental, de conscientização e sensibilização para formar uma população que tenha crítica e que possa cobrar de políticos, tomadores de decisão, atitudes mais responsáveis e limpas perante o meio ambiente. Eu acredito muito que esse é o caminho, só que esse é um caminho lento."

Restauração de corais e repovoamento de espécies

Mies declarou que há outros estudos que tentam preservar os corais. No entanto, ainda não têm comprovação científica. É o caso de iniciativas como a restauração de recifes, o repovoamento e uma série de outras técnicas razoavelmente similares ou associadas a isso.

"Essas são técnicas que ainda não se mostram efetivas em nada. Não houve até agora um único programa de restauração com sucesso. Se não for bem feito, pode até contribuir para impactos. Atrapalhar, e não ajudar o recife. É um negócio que ainda não tem escala... Então, só coisas complicadas ainda. É uma solução muito simples para um problema muito complexo", declarou.

Apesar disso, ele defende o investimento em pesquisas nessas áreas como forma de tentar avançar nos estudos e compreender melhor o problema para propor soluções.

"A gente sempre tem que continuar investindo nessas diferentes possíveis soluções. Mesmo que elas não funcionem ainda, investir nelas é relevante porque a gente pode uma hora compreender uma coisa que, aí sim, pode ter uma eficácia maior no ambiente."

Educação ambiental como política pública de todos os governos

Questionado se havia ou não políticas públicas adequadas no Brasil para enfrentar o branqueamento de corais, Mies falou que, "[em relação a] este episódio de branqueamento que tem agora, a única coisa que se pode fazer é monitorar, documentar e comunicar para as pessoas, para diferentes setores da sociedade".

"Parar esse episódio não dá mais. O calor já está aí, e a gente não consegue ligar um grande ar-condicionado e neutralizar esse calor", disse.

Em termos de política pública, a batalha seria por normas que fortalecessem a proteção ambiental (como os investimentos nas unidades de conservação) e por educação ambiental.

"A gente precisa batalhar em transformar a educação ambiental como política pública para a gente conscientizar as pessoas a ter hábitos e práticas mais responsáveis e limpos no planeta para evitar que continue esquentando. É o máximo que se dá para fazer", disse.

Por fim, outra possibilidade seriam os investimentos para inovações tecnológicas que possam trabalhar junto ou até separadas da restauração, podendo deixar esses métodos mais eficientes.

"Mas sugiro tudo isso em laboratório antes –e não sair fazendo experimentação ainda sem conhecer o problema e a dimensão dele na natureza."

Qual o problema das unidades de conservação e como podemos melhorá-las?

Em palavras um pouco diferentes, mas a pergunta acima foi feita na entrevista do Correio Sabiá com Mies. Eis a reposta:

Um problema que o Brasil tem e que dificulta muito a eficiência e a atuação dos gestores associados às UCs é a falta de recurso e investimento dessas unidades. Elas não têm esforço humano suficiente para fiscalizar adequadamente. Sempre tem uma série de coisas erradas, ilegais e proibidas acontecendo em várias UCs, porque os órgãos ambientais não têm o recurso adequado para fiscalizar e combater isso.

Ainda assim, a gente sabe que tem UCs que claramente tiveram impacto positivo na conservação dos ambientes. Principalmente naquelas um pouco mais distantes da costa. Vou citar 2 exemplos: Abrolhos e Atol das Rocas. Esses 2 lugares, que não são exatamente próximos da costa, 1º ficaram protegidos da urbanização. Isso é uma coisa boa, então estão menos sujeitos à poluição e tudo mais. Mas, criaçnaode UCs ajudaram a combater a pesca.

A pesca é uma coisa boa desde que seja regulamentada e que, em certas regiões, ela seja restrita, proibida, porque são regiões muitos sensíveis à pesca. Então a pesca é uma coisa boa, desde que seja feita de forma responsável. Veja: Abrolhos a pesca é proibida, Atol das Rocas a pesca é proibida... Esses são lugares em que os estoques de peixe estão razoavelmente bem conservados.

Noronha tem pesca, mas ainda assim é muito pouco e é controlada comparada com o resto da costa. Então, sim, criar UCs é importante, funciona, é muito bem conhecido que a diversidade de peixes invertebrados e a saúde desses organismos dentro de UCs é maior dentro do que fora dela.

UC é muito importante. O que a gente precisa é dar força para as unidades que já existem, dar mais recurso para elas, e criar novas unidades em regiões estratégicas que não estão protegidas e precisam ser. Sem dúvida, essa é uma prioridade que todo governo brasileiro, em todas as esferas –estadual, federal, municipal– tem que ter na cabeça.