Tragédias ambientais têm origem humana, diz pesquisador

Tragédias ambientais têm origem humana, diz pesquisador

Origem de tragédias ambientais tem natureza humana, diz pesquisador

Diego Pereira defendeu, entre outras iniciativas, a implementação de um fundo climático global
Correio Sabiá: O pesquisador Diego Pereira comentou sobre tragédias ambientais em entrevista exclusiva ao Correio Sabiá / Foto: Divulgação
Diego Pereira é procurador federal e doutorando em Direito. É também pesquisador de clima, desastres, mudanças e justiça climáticas / Foto: Divulgação

Procurador federal e doutorando em Direito, Diego Pereira, 37 anos, declarou em entrevista ao Correio Sabiá que não é aceitável a justificativa dada pelo poder público de que não poderia prever tragédias ambientais, como aquela decorrente da chuva em Pernambuco. Autor de ‘Vidas Interrompidas pelo Mar de Lama’, Pereira é também pesquisador de clima, desastres, mudança e justiça climáticas.

“Não podemos tornar naturais as mortes em Petrópolis e Pernambuco, por exemplo. A origem do problema [precipitações] tem natureza antrópica –relativa à ação humana– pela intensidade e irregularidade, segundo cientistas do clima”, disse em entrevista ao Correio Sabiá, concedida no dia 9 de junho de 2022.

Foram registradas 129 mortes em Pernambuco (até a última atualização desta reportagem), após fortes chuvas que atingiram o estado em maio deste ano. Em Petrópolis, cidade na região serrana do Rio de Janeiro, mais de 200 pessoas morreram.

Pereira também avaliou que iniciativas contra desastres ambientais têm partido de atividades, não de governos. “Sinceramente, eu vejo um avanço mais dos ativistas, das ONGs e da sociedade civil, do que iniciativa, mesmo, de líderes”, disse.

(Recife - PE, 30/05/2022) Sobrevoo de áreas afetadas pela chuva / Foto: Clauber Cleber Caetano/PR
Sobrevoo de áreas afetadas pela chuva em Pernambuco / Foto: Clauber Cleber Caetano/PR

Veja a entrevista de Diego Pereira ao Correio Sabiá

Leia abaixo a entrevista, na íntegra, com o pesquisador Diego Pereira, concedida no dia 9 de junho de 2022:

Correio Sabiá: Professor, em seu livro ‘Vidas Interrompidas pelo Mar de Lama’, o senhor traz a perspectiva de vítimas da tragédia ambiental de Brumadinho (MG). Como evitar esse tipo de incidente, levando em consideração que outros episódios ocorreram após essa tragédia? 

Diego Pereira: Pedro [repórter], enquanto a gente não encarar o problema do gerenciamento de risco, dentro do planejamento da política preventiva de desastre, seja pela via do Estado, seja pelo respeito aos comandos legais dos entes privados, não poderemos solucionar essa problemática no país. De um lado temos o estado, que em todas as esferas e poderes precisa mirar os desastres como política pública e, por outro lado, os agentes privados cumprirem as normas de regulação dessa política pública na parte que lhes toca. 

CS: O último relatório do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, uma organização científico-política criada em 1988 no âmbito da ONU, a Organização das Nações Unidas], divulgado em agosto do ano passado, é o mais preocupante entre os já divulgados, responsabilizando claramente os humanos pelo aquecimento global. O senhor vê uma mudança de postura dos líderes mundiais após esse alerta? 

Pereira: Hoje há 2 grandes problemas que preocupam os líderes mundiais: a guerra e a crise climática. Noam Chomsky e Robert Pollin já haviam alertado isso no lançamento do livro ‘Crise Climática e o Green New Deal Global, em 2020. A divulgação dos relatórios do IPCC em 2021 confirmam essa preocupação ao tempo que vivemos o horror de uma guerra de consequências planetárias. O que o IPCC faz é ciência e serve de orientação aos líderes mundiais. Creio que, após esse ultimo relatório, o alerta foi acionado mais uma vez, e a mudança de postura dos lideres globais tende a ocorrer de agora para frente, embora não tenha sido tarefa fácil. 

CS: Em sua avaliação, o que tem sido feito de positivo por governos –inclusive internacionais– contra os efeitos das mudanças climáticas? 

Pereira: Os avanços conseguidos em Paris [Acordo de Paris, 2015] precisam ser implementados, especialmente com a criação do fundo climático internacional que prevê um fundo pelos países ricos de US$ 100 bilhões ao ano. Enquanto o fundo não for implementado, os avanços são pequenos. É como se os países em desenvolvimento olhassem para os países desenvolvidos e falassem: ‘o principal pontapé para nos salvar não foi dado até hoje e, sem ele, a gente, enquanto grupo, não avança’. Sinceramente, eu vejo um avanço mais dos ativistas, ONGs e sociedade civil do que iniciativa, mesmo, de líderes. 

CS: Ainda há líderes que entram em conflito com ativistas ambientais por minimizarem as mudanças climáticas e incentivarem o desenvolventismo em áreas de reserva. Qual a consequência desse discurso? 

Pereira: Esse discurso dialoga com o negacionismo que impera em parte da sociedade e também por parte de líderes ao redor do mundo (vide o recente filme ‘Não Olhe para Cima’, com Leonardo Di Caprio [Netflix, 2021]). É um discurso que não ajuda em nada, que ao negar o conhecimento científico se confirma a irresponsabilidade na condução de um problema que é sério e urgente. Não podemos tornar natural as mortes em Petrópolis e em Pernambuco, por exemplo.

A origem do problema (precipitações) tem natureza antrópica –relativa à ação humana– pela intensidade e irregularidade, segundo cientistas do clima. As consequências, como deslizamentos e mortes, também têm natureza antrópica e se intensificam pela ausência de políticas públicas. Portanto, todo discurso que minimiza as mudanças climáticas serve para não apenas negar a ciência, mas justificar a ausência de ações governamentais.  

CS: Estamos em um ano de eleições. Em sua avaliação, o que não pode faltar na área de propostas para o meio ambiente num programa de governo? 

Pereira: Embora não vinculante (mas obrigatório seu registro), os planos de governos devem mirar nos problemas reais do país, tanto no plano estadual quanto no federal. Esse ano foram mais de 500 mortes em decorrência de desastres. São milhares de pessoas desabrigadas, a quase totalidade pobres, negros e negras e mulheres que comandam famílias inteiras.

A justiça climática, uma possibilidade de reduzir vulnerabilidades diversas nesses casos, deve ser a lupa de leitura desses planos de governos na seara ambiental. E esses planos de governos devem dialogar com as mais diversas áreas do conhecimento, em uma ação multinível. Para isso, contudo, temos que falar em orçamento específico para a política ambiental que, claro, não se resume à prevenção de desastres, mas no combate ao desmatamento, concurso público para entidades ambientais, etc.

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