Cazaquistão vota em eleição parlamentar que deve reforçar o controle do presidente sobre o poder

Esta é a 1ª votação desde que o Parlamento se tornou unicameral

Cazaquistão vota em eleição parlamentar que deve reforçar o controle do presidente sobre o poder
Nesta foto divulgada pela Assessoria de Imprensa da Presidência do Cazaquistão, o presidente Kassym-Jomart Tokayev deposita seu voto em uma seção eleitoral em Astana, Cazaquistão, no domingo, 23 de agosto de 2026. (Assessoria de Imprensa da Presidência do Cazaquistão via AP)
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*Por Yuras Karmanau

O fato principal

O Cazaquistão votou neste domingo (23.ago.2026) em uma eleição parlamentar que deve reforçar ainda mais o controle do presidente Kassym-Jomart Tokayev sobre o poder na maior nação da Ásia Central.

Prevê-se que o partido Adilet, favorável ao presidente, conquiste uma maioria esmagadora de assentos. Espera-se também que vários partidos menores leais a Tokayev ingressem no Parlamento. Esta é a 1ª eleição do país para um novo Parlamento unicameral chamado Kurultai.

Tokayev, de 73 anos — ex-funcionário soviético e diplomata cazaque que trabalhou anteriormente nas Nações Unidas —, está no cargo desde 2019.

Parlamento virou unicameral

Membros da comissão eleitoral contam votos em uma seção eleitoral durante eleições parlamentares antecipadas em Almaty, Cazaquistão, no domingo, 23 de agosto de 2026 / Imagem: AP/Vladimir Tretyakov

A votação deste domingo é o ponto culminante de uma reforma constitucional iniciada por Tokayev em março, quando 87% dos eleitores apoiaram um referendo para fundir as duas câmaras do Parlamento em uma só e conceder ao presidente autoridade para nomear autoridades-chave (sujeitas à aprovação parlamentar), incluindo o restabelecimento do cargo de vice-presidente.

Tokayev, que tem buscado manter um equilíbrio delicado entre Moscou e o Ocidente desde que sanções foram impostas à Rússia devido à guerra na Ucrânia, justificou as mudanças citando a necessidade de uma tomada de decisão rápida em um mundo em transformação.

No mês passado, o Tribunal Constitucional do Cazaquistão decidiu que as emendas efetivamente zeravam a contagem dos mandatos anteriores de Tokayev, abrindo caminho para que ele concorresse a mais um mandato de 7 anos.

Tensão econômica

A eleição ocorre em um momento econômico difícil para o Cazaquistão: a inflação atingiu 10,2% em fevereiro, e aumentos de impostos alimentaram o descontentamento público.

Analistas afirmam que a tensão econômica deixou as autoridades receosas de uma repetição dos distúrbios de janeiro de 2022, quando protestos contra os preços dos combustíveis degeneraram em violência, resultando na morte de dezenas de manifestantes e policiais — um cenário que Tokayev tenta evitar ao concentrar poder em suas próprias mãos.

Antes da eleição, Tokayev afirmou que ela prometia ser um "evento verdadeiramente histórico".

"Sem dúvida, estas eleições serão lembradas como talvez as mais interessantes da história do nosso país. (...) Em meio a tensões geopolíticas sem precedentes e desafios globais crescentes, devemos implementar de forma firme e consistente nossa estratégia para transformar o Cazaquistão em um Estado verdadeiramente desenvolvido", disse Tokayev na sexta-feira (21.ago).

Repressão à imprensa

Soldados cazaques fazem fila para votar em uma seção eleitoral durante eleições parlamentares antecipadas em Almaty, Cazaquistão, no domingo, 23 de agosto de 2026 / Imagem: AP/Vladimir Tretyakov

A votação também ocorreu em um contexto de repressão crescente à liberdade de imprensa. Organizações de mídia instaram Tokayev a retirar as acusações criminais contra vários jornalistas em prisão domiciliar e a revisar a legislação do país para garantir a liberdade de imprensa. As autoridades abriram cerca de 10 processos criminais contra jornalistas independentes e blogueiros populares.

O caso mais recente envolve Lukpan Akhmedyarov, um jornalista independente que apresenta o projeto no YouTube "Prosto Zhurnalistika", ou "Simplesmente Jornalismo".

Ele disse à Associated Press que um processo criminal foi aberto contra ele em agosto, sob a acusação de "disseminar informações falsas", depois que publicou uma lista de cidadãos do Cazaquistão que lutam na Ucrânia. Ele pode pegar até 7 anos de prisão.

"No período que antecedeu estas eleições parlamentares, a repressão se intensificou drasticamente, com ataques à mídia independente, ataques cibernéticos e processos criminais iniciados contra jornalistas independentes e blogueiros populares", disse Akhmedyarov à AP, falando de Almaty, a maior cidade do Cazaquistão.
"Parece que as autoridades querem silenciar todos os veículos de comunicação que não controlam — todos aqueles com quem não conseguiram chegar a um acordo ou que não conseguiram comprar", acrescentou.

Akhmedyarov disse que as ruas das principais cidades do Cazaquistão estão "tomadas por anúncios e cartazes do partido Adilet, que apoia o presidente".

"Não é muito difícil prever o resultado destas eleições", disse ele.

Autor

Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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