Artigo: 'Líbano: o que leva o país a ter inflação superior a 200%'

Artigo: 'Líbano: o que leva o país a ter inflação superior a 200%'

Artigo: ‘Líbano: o que leva o país a ter inflação superior a 200%’, escreve Henry Galsky

Além das questões políticas, as dificuldades sociais e econômicas são complexas de serem contornadas
Beirute, capital do Líbano. O país enfrenta uma situação de grave crise econômica e social
Beirute, capital do Líbano. O país enfrenta uma situação de grave crise econômica e social, com taxa de pobreza de 75% / Foto: Pexels
*Por Henry Galsky, de Israel

O resultado eleitoral no Líbano mostra o desgaste da população não apenas com o quadro político em si, mas com o próprio sistema que levou o país a uma situação de grave crise econômica e social. Antes considerado um modelo de sucesso econômico na região, o Líbano hoje enfrenta inflação superior a 200% e grave deterioração social, levando a taxa de pobreza a 75% da população de 6,8 milhões de cidadãos. A moeda local, a libra libanesa, perdeu 95% do valor frente ao dólar norte-americano, o salário mínimo não dá conta de encher um tanque de gasolina e o fornecimento de energia é restrito a duas horas diárias.

As eleições parlamentares evidenciam a instatisfação óbvia da população. A milícia xiita Hezbollah –que detinha a maioria do Parlamento– teve a maior perda; se no ciclo anterior detinha o controle de 71 das 128 cadeiras, agora perdeu 10 assentos, ficando com 61.

Esta eleição possui alguns simbolismos e marcos importantes: foi a 1ª desde as manifestações contra a classe política de 2019 e também a 1ª desde a explosão ocorrida no porto de Beirute, em agosto de 2020 –a tragédia deixou mais de 200 mortos, milhares de feridos e destruiu parte importante da infraestrutura da capital libanesa. O complexo processo de investigação leva a crer que o acidente teria sido causado pela negligência de autoridades do Líbano que permitiram o armazenamento de toneladas de nitrato de amônia num dos armazéns do porto.

E, neste aspecto, também é possível notar como a situação é complexa. O Hezbollah é um grupo armado, mas que também atua como partido político e organização de assistência social. É considerado como organização terrorista por Estados Unidos, Israel, Grã-Bretanha, Austrália, Alemanha. A União Europeia designou o braço armado do grupo como terrorista.

A própria Liga Árabe –com exceção do Líbano e do Iraque– também designa o Hezbollah como organização terrorista. Mas o ponto é que o grupo teria usado sua influência interna no Ministério da Agricultura para garantir a importação e armazenamento de nitrato de amônio no porto. A substância é normalmente usada como fertilizante, mas também pode servir como elemento na constituição de explosivos quando misturada a outros componentes.

O principal rival do Hezbollah, o partido cristão Forças Lebanesas (LF), emergiu como o principal vencedor, conquistando 21 cadeiras e se estabelecendo como o maior bloco no parlamento. O LF superou outro partido cristão, o Movimento Patriótico Livre, este aliado ao Hezbollah.

Não é exatamente uma surpresa diante do quadro atual que candidatos independentes e novatos tenham conquistado 14 cadeiras. Este é um dado importante, principalmente porque a setorização do jogo político também criou e ainda mantém “feudos” de controle de poder. E aqui é importante explicar como funciona o processo no Líbano, um país que, a partir da independência da França, ocorrida em 1943, preciou encontrar uma maneira muito específica de modo a viabilizar a grande complexidade religiosa de forma a manter-se como um estado nacional único.

São 18 denominações religiosas. E a coesão se sustenta a partir da Constituição do país que estabelece a necessidade de dividir poderes entres esses grupos no parlamento. Além disso, apesar deste aspecto específico não estar escrito, há um acordo informal para que os 3 principais cargos de governo sejam repartidos; o presidente deve sempre ser um cristão maronita; o primeiro-ministro, muçulmano sunita; e o presidente do Parlamento, muçulmano xiita.

Some-se a este quadro o cenário regional mais amplo, onde a disputa entre os eixos sunita e xiita marca a principal divisão e impasse no Oriente Médio, como faço questão de repetir por aqui. Desta maneira, a maior potência xiita, o Irã, conta com a aliança do Hezbollah para alcançar seus objetivos estratégicos regionais, o mais importante deles a expansão e construção de hegemonia, além da exportação de seu modelo de revolução; evidentemente, esses esforços encontram resistência interna no próprio Líbano também a partir da influência do eixo sunita –liderado pela Arábia Saudita.

E, evidentemente, o projeto iraniano e sua aliança com o Hezbollah também encontram resistência externa (aí já sem presença no jogo político interno libanês) por parte de Israel, que frequentemente realiza ataques aéreos contra a infraestrutura do Hezbollah e também contra a tentativa iraniana de envio de armamento ao grupo. É muito raro que Israel comente de forma aberta sobre essas ações.

Todos esses cenários (interno e externo), a crise econômica e social, a necessidade de seguir com as investigações após a explosão no porto de Beirute e a própria complexidade do jogo político no Líbano deixam evidentes as grandes dificuldades envolvendo qualquer processo que busque solucionar os muitos impasses que o país tem pela frente. Inclusive (e dentre eles) a própria formação do próximo governo.

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