Artigo: 'Joe Biden chega ao Oriente Médio', escreve Henry Galsky

Artigo: 'Joe Biden chega ao Oriente Médio', escreve Henry Galsky

Artigo: ‘Joe Biden chega ao Oriente Médio’, escreve Henry Galsky

O simbolismo de um voo entre Tel Aviv e Jedá parece ser mais relevante do que a própria visita em si
O presidente Joe Biden também tem viagem programada à Árabia Saudita, a partir de Israel / Foto: Official White House Photo/Adam Schultz/08.dez.2021
O presidente Joe Biden também tem viagem programada à Árabia Saudita, a partir de Israel / Foto: Official White House Photo/Adam Schultz/08.dez.2021
*Por Henry Galsky, de Israel

O presidente norte-americano Joe Biden visita Israel e os territórios palestinos em meio a grandes incertezas no jogo político israelense e regional. Sob a sombra do desenvolvimento nuclear iraniano –e das dificuldades que o atual governo em Washington encontra para refazer o acordo com Teerã (capital do Irã)–, o principal propósito das autoridades de Israel é deixar claro que, apesar de haver um governo provisório que funciona apenas como tampão até mais um dos intermináveis processos eleitorais, há uma linha que se mantém.

Essa linha, em especial, é a que sustenta as diretrizes israelenses justamente diante do Irã, foco de permanente preocupação não somente em Jerusalém, como também entre os diversos atores regionais do chamado eixo sunita sobre o qual trato por aqui com frequência. Com os Acordos de Abrãao se mantendo de pé e diante de um projeto de construção regional iraniano que não dá sinais de mudança, a aliança entre israelenses e as monarquias do Golfo se reafirma dia a dia.

A visita de Biden reforça esta percepção a partir de sinais relativamente óbvios, como a viagem programada para a Arábia Saudita a partir de Israel, realizando portanto um voo para lá de simbólico entre Tel Aviv e Jedá –feito que não é inédito, mas que é comemorado regionalmente e também pelo próprio Joe Biden, como ele mesmo ressalta em artigo que escreveu para o jornal norte-americano Washington Post, intitulado “Por que estou indo para a Arábia Saudita”:

“Líderes de toda a região irão se reunir, apontando para a possibilidade de um Oriente Médio mais estável e integrado, com os Estados Unidos desempenhando um papel de liderança vital”, disse.

De fato, Biden não está errado. A política internacional –e a política, de forma mais ampla– é muitas vezes construída a partir de símbolos. E a integração entre Israel e as monarquias do Golfo carrega intrinsecamente muitos símbolos que também são caros aos EUA, lembrando sempre algo que escrevo também com frequência por aqui: a principal potência estrangeira presente no Oriente Médio de forma permanente é a Rússia de Vladimir Putin a partir do processo de enfraquecimento da posição norte-americana –também fruto do investimento de Putin e dos muitos mecanismos que levaram Donald Trump à Casa Branca.

Donald Trump foi o presidente norte-americano que se empenhou diretamente em rever e modificar alguns dos principais preceitos presentes no histórico da política externa dos EUA.

Joe Biden enfrenta muitos desafios na presidência do país. Dentre eles, liderá-lo após quatro anos de Trump e, claro, lidar com a pandemia de Covid que ainda existe. Isso sem falar nos desafios internacionais, como a guerra entre Rússia e Ucrânia e a pressão permanente exercida pela China.

No Oriente Médio, o Irã é a principal fonte de problemas, mas Biden também precisa resolver certos impasses que ele mesmo criou durante a campanha presidencial, quando disse que não iria se reunir com as lideranças sauditas (já tratei do tema por aqui também). O conflito entre israelenses e palestinos acabou por se tornar, quem diria, um assunto menos relevante, diante deste quadro mais amplo.

Biden será lembrado disso por aqui. Mas esta é uma visita que tem outro foco, no caso o principal problema regional e fonte permanente da instabilidade do Oriente Médio: a disputa entre sunitas e xiitas. Ao contrário do que normalmente o senso-comum acredita, a visita protocolar de Biden a Israel e aos territórios palestinos será a constatação do óbvio. Não por acaso, o simbolismo de um voo entre Tel Aviv e Jedá parece ser mais relevante do que a própria visita em si.

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