Artigo: 'Liderada por Netanyahu, oposição derrota Bennett em Israel'

Artigo: 'Liderada por Netanyahu, oposição derrota Bennett em Israel'

Artigo: ‘Liderada por Netanyahu, oposição derrota Bennett em Israel’, escreve Henry Galsky

Derrota da atual coalizão israelense demonstra o grande impasse político; nova votação pode reverter o caso
Bandeiras em Israel / Foto: Timo Wagner/Unsplash
Intenção da oposição seria expor incapacidade da atual gestão de governar / Foto: Timo Wagner/Unsplash
*Por Henry Galsky, de Israel

A coalizão liderada pelo primeiro-ministro Naftali Bennett sofreu nesta semana uma derrota significativa no Knesset, o Parlamento israelense, ao não conseguir renovar uma legislação considerada fundamental a qualquer governo. Derrotado por 58 votos contrários (e apenas 52 a favor), a coalizão não conseguiu aprovar a manutenção da extensão das leis criminais e civis de Israel aos israelenses que vivem nos assentamentos judaicos na Cisjordânia, território reivindicado pelos palestinos para a constituição de seu Estado.

A situação é complexa e tem a ver como uma série de questões fundamentais a Israel e também aos palestinos. Como já escrevi algumas vezes, a linha a separar política interna israelense da externa é muito tênue. Muitas vezes, inexistente.

O governo Bennett precisou colocar em votação a renovação de uma lei que, desde 1967, é tratada como “medida de emergência” e, por isso, é votada a cada 5 anos. Importante lembrar que após a chamada Guerra dos Seis Dias, em 1967, os israelenses conquistaram 2 territórios que mudariam a sua política regional, internacional e interna: conquistou a Faixa de Gaza dos egípicios; e também a Cisjordânia –chamada por parte dos judeus de Judeia e Samária–, da Jordânia.

Em 2005, Israel retirou todos os assentamentos judaicos da Faixa de Gaza, entregando o território à Autoridade Palestina (AP) –que, 2 anos mais tarde, como resultado de um conflito interno palestino, acabaria expulsa de lá, dando ao grupo terrorista Hamas o controle integral do enclave, configuração que se mantém até os dias de hoje.

A Cisjordânia vive situação distinta. Israel ainda administra a maior parte do território onde vivem cerca de 500 mil judeus em meio a 2,4 milhões de palestinos. A divisão detalhada entre Israel e AP ainda segue as determinações estabelecidas pelos Acordos de Oslo (1993/94) assinados entre israelenses e palestinos, e o impasse permanece até que haja novas rodadas de negociações em busca de um acordo final –está, portanto, longe de acontecer.

O fato é que, sob o ponto de vista jurídico, a situação também é complexa. Na medida em que Israel não anexará o território (compromisso assumido com as monarquias do Golfo Pérsico e que levou ao estabelecimento de relações diplomáticas entre Israel e esses países no que se convencionou chamar de Acordos de Abrãao), os judeus que vivem na Cisjordânia têm acesso, por exemplo, a seguro de saúde israelense e pagam impostos a Israel graças à renovação automática da Lei de Regulação da Judeia e Samaria; a lei que foi reprovada pelo parlamento.

É provável que nova votação aconteça e que a situação retorne ao status quo, mas a intenção da oposição –liderada pelo ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu– era a de demonstrar a incapacidade do atual governo de continuar a administrar o país. Curiosamente, este bloco de oposição apoia ideológicamente os assentamentos judaicos na Cisjordânia.

Ou seja, Netanyahu e seus aliados articularam uma votação ideologicamente desalinhada a seus interesses apenas como forma de expor o governo. Governo este formado em boa medida por grupos que ideologicamente são contrários aos assentamentos na Cisjordânia, casos do partido Ra’am (a representação política do Movimento Islâmico em Israel) e dos partidos de esquerda Meretz e Avodá (este último a representação política do movimento trabalhista no país). Este é o retrato de um momento em que a atual coalizão se mostra bastante enfraquecida. É também um exemplo prático das complexidades e dos mecanismos do sistema parlamentarista.

A sociedade israelense tem se mostrado profundamente dividida em suas escolhas eleitorais; em 23 de março de 2021, os israelenses foram às urnas pela 4ª vez num período 2 anos. Até aquele momento, quatro eleições não haviam resultado na formação de governos minimamente estáveis. Caso de fato a atual coalizão liderada por Naftali Bennett não consiga se sustentar, o atual governo terá fracassado em seu projeto mais fundamental: unir por pelo menos um mandato os opositores a Netanyahu em nome do pragmatismo. O governo Bennett tomou posse em junho do ano passado.

Leia os outros textos de Henry Galsky no Correio Sabiá:

Assobio: o conteúdo deste artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Correio Sabiá, que apenas abriu este espaço para o debate de ideias. Portanto, todo o material textual e visual, bem como as informações e juízos de valor aqui contidos, são de inteira responsabilidade do(s) autor(es). Para propor um artigo ao Sabiá, entre em contato: redacao@correiosabia.com.br

leia mais