Análise do debate da Band entre Lula e Flávio Bolsonaro
Algumas questões que resolvemos ressaltar. Conte-nos o que você achou.
Síntese
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidatos à Presidência nesta eleição de 2026, participaram do debate da Band neste domingo (18.out.2026).
Em síntese, Flávio Bolsonaro usou a tática do coach Pablo Marçal, candidato derrotado à Prefeitura de São Paulo em 2024. Voltaremos à ficha do Marçal adiante. Por ora, vamos nos ater ao senador, que posicionava-se ao fundo a cada vez que Lula se direcionava à câmera.
O que acontecia: Flávio Bolsonaro, em sua vez de falar, fazia suas declarações sozinho no enquadramento da TV. Na vez de Lula, ficava ao fundo dando risinhos de deboche ou acenando negativamente com a cabeça.


Flávio operou na mesma lógica de Marçal: sem qualquer compromisso com as respostas e com a veracidade das informações. A técnica é conhecida por nós, jornalistas: o candidato provoca uma desordem informacional, de modo a impossibilitar qualquer discussão razoável.
- Especificamente no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro venceu em todas as regiões de milícia.
- Flávio Bolsonaro pediu mais de R$ 130 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, envolvido no maior escândalo financeiro do país.
- Flávio Bolsonaro divide escritório e a mesma estrutura de contabilidade de empresas ligadas ao "Careca do INSS".
- Mais recentemente, Flávio Bolsonaro foi acusado de tomar uma ilha avaliada em R$ 10 milhões do jogador de futebol Richarlison.
O senador, no entanto, tentou atribuir o escândalo do Banco Master ao governo Lula. Fez o mesmo para o outro escândalo, do INSS, cuja estrutura começou a ser montada no governo anterior, do pai, o ex-presidente preso Jair Bolsonaro (PL).
O que nós achamos disso tudo
Antes de qualquer coisa, achamos que o formato geral dos debates, sem checagem de fatos, sem desmentir candidatos em tempo real, chegou a um esgotamento de seu modelo. Tem que ter um jeito de "chamar no VAR".
Fora isso, desde o 1º momento, ainda no 1º bloco, apontamos (com desconforto) para a conduta do senador ao se posicionar debochadamente ao fundo do presidente. Fizemos a observação de imediato em nosso canal do WhatsApp. Clique abaixo para participar.
A antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, que é também historiadora, membra da Academia Brasileira de Letras, professora da USP e de Princeton, fez a comparação com a conduta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Transcrevemos abaixo todo o comentário de Lilia Moritz Schwarcz:
"A extrema direita apenas repete. Basta ver as duas fotos. Flávio Bolsonaro trouxe uma tática que não é sequer dele. Nem nisso soube ser original. A tática é de seu 'ídolo' Donald Trump que tentou atrapalhar Hillary Clinton no debate presidencial norte-americano em 2016. Imitou igualmente o estilo de escárnio, o risinho sempre solto, o desrespeito e a absoluta falta de respostas."
"Também espelhou Trump ao transformar o debate em um palanque eleitoral. Fez um anti-debate, mentiu descaradamente e se comportou sem qualquer respeito. Gesticulou sem parar, elevou o tom, distribuiu acusações, tentou desconcentrar Lula, tentou debochar o tempo todo e recorreu a frases de efeito. Mas, diante de perguntas que exigiam explicações, preferiu mudar de assunto e nada respondeu."
"Não se trata apenas de estilo. Trata-se de uma estratégia política: substituir o argumento pelo espetáculo, a explicação pela indignação, a proposta pela provocação, a fraqueza em ataque. Essa é a estratégia da extrema direita. Não houve, na minha opinião, equivalência alguma entre os candidatos."
"É uma linguagem que aposta na simplificação de problemas complexos e na mobilização dos afetos, sobretudo do medo, da raiva e do ressentimento."
"O mais preocupante é a tentativa de transformar a radicalização política em sinal de coragem e a agressividade em demonstração de liderança. Tudo sem dados, sem informação. Só jogo de cena."
"A democracia exige confronto de ideias. Exige propostas verificáveis, respeito aos fatos e responsabilidade diante das perguntas. Nada disso F Bolsonaro fez. Apenas buscou o melhor ângulo para cortes de rede e a melhor expressão para os likes."
"O debate não foi bom: sobraram acusações pessoais e faltaram debates sobre pautas. Quem pretende governar um país precisa saber responder por suas palavras. Não basta agitar o corpo e atrapalhar o outro candidato quando faltam argumentos. Não foi um debate, foi infelizmente um palanque de campanha. Todo mundo perdeu."
O que vem agora?
Resta uma semana para o 2º turno. Ainda não ficou claro, ao menos para mim, qual será a postura do eleitorado em relação ao debate.
À primeira vista, pareceu-me que a conduta do Flávio Bolsonaro irritou o Lula. E, uma vez irritado, o presidente perdeu a dicção, assim como boas oportunidades de enquadrar o senador.
Mas pode ser que o resultado seja positivo para o presidente.
A disputa vai continuar nas redes sociais. Trechos do debate serão transformados em cortes. E aí a estratégia é quem vai engajar mais. Até agora, neste 2º turno, a esquerda tem desbancado toda a estrutura digital da direita.
Há também a possibilidade de os eleitores considerarem a conduta de Flávio desrespeitosa – o que faria o tiro de sua tática sair pela culatra. Há quem diga que os eleitores indecisos poderiam preferir Lula ao identificar sarcasmo de Flávio Bolsonaro.
O deputado federal reeleito André Janones (PT-MG), que tem coordenado o canal Exército de Lula, com mais de 5,3 milhões de seguidores, orientou que os apoiadores do presidente lessem o texto abaixo.


Janones mobilizou os seguidores do canal a fazer pesquisas no Google, de forma a impulsionar buscas negativas por Flávio Bolsonaro e positivas por Lula.
Mobilização semelhante ocorreu em outras redes. No X (antigo Twitter), por exemplo, o deputado federal emplacou hashtags de interesse da campanha entre os assuntos mais comentados.
Pablo Marçal: quem é?
Pablo Marçal (PRTB) tentou se candidatar à Presidência da República na eleição deste ano, mas teve o pedido rejeitado por unanimidade pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 12 de setembro de 2026.
O coach e influencer liderou um grupo de 60 pessoas (incluindo inexperientes) em uma escalada sob forte tempestade e ventos de mais de 100 km/h na Serra da Mantiqueira. O Corpo de Bombeiros precisou resgatar 32 pessoas em uma operação de 9 horas.
Marçal tornou-se réu por expor a vida de outras pessoas a perigo e foi proibido pela Justiça de realizar atividades em montanhas e rios sem autorização.
Ele também foi condenado em 1ª instância em 2010 por envolvimento em uma quadrilha que desviava dinheiro de correntistas de bancos públicos (Operação Pegasus de 2005), pena que acabou extinta em 2018 devido à prescrição dos crimes.
Marçal é alvo de investigações da PF (Polícia Federal) por suspeitas de falsidade ideológica eleitoral, apropriação indébita e lavagem de dinheiro.
Já a ICF Brasil (International Coaching Federation) disse que ele não é coach e que o uso inadequado do termo por ele prejudica a categoria profissional. Marçal declarou que não exerce mais a profissão.
Na campanha de Flávio Bolsonaro, Marçal é apontado como o principal responsável pela palavra "prosperidade", que dá nome ao ministério anunciado pelo senador. Flávio alardeia, tal como um coach, que o brasileiro vai prosperar. Só não se sabe como.
Autor
Jornalista e empreendedor. Criador/CEO do Correio Sabiá. Emerging Media Leader (2020) pelo ICFJ. Cobriu a Presidência da República.
