Em 2026, Congresso Nacional tem maior número de deputadas negras eleitas
Centro Brasileiro de Justiça Climática lançou a linha do tempo "Mulheres Negras na Política Brasileira”. Conheça o Mamute Político.
O fato principal
Num período de 38 anos, a presença de deputadas negras na Câmara dos Deputados aumentou de apenas uma para 29, conforme o número de eleitas na última eleição. Já no Senado Federal, nenhuma mulher negra foi eleita diretamente para a Casa em 2022.
No Congresso Nacional como um todo, o número de mulheres negras era o maior da história em 25 de julho de 2026, Dia da Mulher Negra Latino-Americana, Afro-Caribenha e da Diáspora.
Nessa mesma ocasião, o CBJC (Centro Brasileiro de Justiça Climática) lançou a linha do tempo "Mulheres Negras na Política Brasileira" (disponível ao final deste conteúdo), que analisa pontos-chave para ampliar a representatividade.
“A linha do tempo surge como um instrumento de registro e reflexão sobre a desigualdade também nos Poderes. É mais uma evidência da lacuna de representatividade e de construção de um Brasil que reflete nosso povo, nossas questões e lutas", disse a diretora-executiva do CBJC, Andreia Coutinho Louback, numa nota enviada à imprensa.
Trajetórias políticas
As trajetórias políticas das mulheres negras que ocupam cargos no Congresso têm uma característica comum e estrutural. Para uma mulher negra brasileira, a política institucional quase nunca é ponto de partida.
- Benedita da Silva era liderança comunitária antes de se tornar vereadora e, posteriormente, deputada constituinte.
- Lídice da Mata presidiu o movimento estudantil sob a ditadura militar antes de presidir qualquer comissão e ser eleita a 1ª senadora pela Bahia.
- Perpétua Almeida saiu do seringal aos 14 anos, passou pelo convento e só depois pelo sindicato dos bancários do Acre.
- Janete Capiberibe foi presa e exilada em quatro países antes de voltar ao Brasil e legislar sobre biodiversidade amazônica.
- Marina Silva foi seringueira e só se alfabetizou aos 16 anos, antes de se tornar historiadora e senadora pelo Acre.
- Talíria Petrone e Áurea Carolina eram professoras em escolas públicas em favelas e periferias antes de serem eleitas deputadas.
De acordo com a pesquisadora e cientista política Elisa de Araujo, pesquisadora e cientista política, que construiu a linha do tempo, os avanços são demorados por um motivo:
“Herança histórica: quase 400 anos de escravidão trataram mulheres negras como propriedade, não como sujeitos políticos. Some a isso o fato de que analfabetos só puderam votar a partir de 1985 (e ainda não podem se candidatar) — e negros foram historicamente excluídos da educação formal. Ou seja, a exclusão política tem raiz direta na exclusão educacional."
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Linha do tempo
2003: o 1º degrau
O 1º salto real na presença de mulheres negras na Câmara aconteceu em 2003, no início do 1º governo Lula: de uma deputada eleita para 7. Esse avanço foi o resultado de décadas de organização do movimento negro e de mulheres encontrando, finalmente, um ambiente político mais permeável. O patamar se sustentou, com pequenas variações, por 15 anos.
2014: contar não é agir
Foi só em 2014 que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) passou a registrar raça e cor na ficha de candidatura – até então, o único lugar do país que coletava esse dado era o Censo do IBGE.
A ausência do registro desse dado até 2014 mostra como as instituições políticas do Brasil ignoraram por tantos anos a importância da diversidade de eleitos e eleitas.
Autodeclarar-se preto ou pardo, naquele momento, não dava direito a nenhum recurso público diferenciado. Mas era o início do desenho estatístico, necessário à construção de políticas públicas com base em dados.
2018: de Marielle à disputa institucional
Em 14 de março de 2018, Marielle Franco – socióloga, vereadora, mulher negra, bissexual, criada na Favela da Maré – foi assassinada a tiros no Rio de Janeiro. O Congresso eleito naquele outubro de 2018 tinha 18 mulheres negras na Câmara: o maior número da história até então.
2022: quando o financiamento ganhou cor
A partir de consulta apresentada pela Deputada Benedita da Silva ao TSE em 2020, com apoio da Coalizão Negra por Direitos e de outras organizações do movimento negro, o órgão determinou que recursos do fundo eleitoral e partidário, e o tempo de propaganda no rádio e na TV, fossem distribuídos proporcionalmente ao número de candidaturas negras dentro de cada partido, valendo para eleições gerais a partir de 2022.
Benedita questionou o TSE se os recursos do fundo eleitoral e o tempo de propaganda no rádio e na TV – já reservados por cotas de gênero – deveriam ser divididos igualmente entre candidatas negras e brancas, e se cada partido deveria reservar 30% de suas candidaturas para pessoas negras.
Pela 1ª vez, a viabilidade de uma candidatura negra deixou de depender exclusivamente da vontade de cada legenda e tornou-se agenda de política pública do Estado brasileiro. O resultado foi o maior salto já registrado: 29 mulheres negras eleitas, mais que o dobro registrado nos 4 anos anteriores.
Autor
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