Alta global do preço do ouro impulsiona uma nova 'corrida pela mineração' na Amazônia
Garimpo ilegal é influenciado por facções criminosas. Desmatamento é mapeado com ferramenta de satélite.
*Por Gabriela Sá Pessoa
O fato principal
A alta dos preços do ouro nos últimos anos impulsionou uma nova corrida pela mineração na Amazônia brasileira, acelerando o desmatamento em áreas protegidas e elevando a contaminação por mercúrio a níveis perigosos, afirmam autoridades e especialistas.
Um estudo divulgado na última terça-feira (5.mai.2026) pela ONG Amazon Conservation, em parceria com o Instituto Socioambiental, também brasileiro, constatou que a mineração ilegal provocou o desmatamento em 3 áreas de conservação na região do Xingu, uma das maiores extensões de floresta protegida do mundo, abrangendo os estados do Pará e Mato Grosso. A análise combinou imagens de satélite com pesquisa de campo.
A Estação Ecológica Terra do Meio registrou seus primeiros casos de mineração ilegal em setembro de 2024. Até o final de 2025, o desmatamento relacionado à mineração na região já havia se espalhado por 30 hectares. Na Floresta Nacional de Altamira, a mineração ilegal acumulou 832 hectares (2.056 acres) de desmatamento entre 2016 e setembro de 2025. Uma nova frente de mineração, aberta em 2024, expandiu-se para 36 hectares (89 acres) até outubro de 2025, representando quase metade do desmatamento relacionado à mineração registrado na unidade naquele ano.
O monitoramento por satélite também detectou uma pista de pouso clandestina utilizada por garimpeiros ilegais na Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo no ano passado. A mineração ilegal na reserva cresceu de 2 hectares (5 acres) para pelo menos 26,8 hectares (66 acres) em 2025.
Maior parte do desmatamento causado pela mineração é ilegal

Em 2023, a Amazon Conservation uniu-se à Earth Genome e ao Pulitzer Center para desenvolver o Amazon Mining Watch, uma plataforma que usa imagens de satélite para monitorar a mineração na Amazônia desde 2018.
A mineração continua sendo um fator relativamente pequeno de desmatamento no Brasil, onde a perda florestal está amplamente ligada à expansão do agronegócio. Em 2025, por exemplo, cerca de 579.600 hectares (1,432 milhão de acres) da Amazônia brasileira foram desmatados, segundo dados oficiais. Cerca de 17.000 hectares (42.000 acres) estavam relacionados à mineração, de acordo com o Mining Watch.
“O que torna a mineração particularmente problemática é que ela atinge áreas protegidas e territórios indígenas”, disse o diretor do programa de Monitoramento da Amazônia Andina da Amazon Conservation, Matt Finer.
A proteção de territórios indígenas é amplamente vista como uma maneira eficaz de conter o desmatamento na Amazônia, a maior floresta tropical do mundo e um importante regulador do clima global. Pesquisadores alertam que a contínua perda de floresta pode acelerar o aquecimento global.
Fiscalização se torna um jogo de 'gato e rato'
Em 2023, as autoridades brasileiras lançaram uma grande operação contra a mineração ilegal de ouro no território indígena Yanomami, no estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela, após um aumento repentino que levou a uma crise humanitária e de saúde. O crescimento anual das áreas recém-mineradas na região caiu drasticamente após aquele ano, de acordo com dados da Amazon Conservation. Embora a mineração não tenha sido totalmente eliminada, quase todo o desmatamento dentro do território Yanomami — cerca de 5.500 hectares — havia ocorrido até 2023.
Ainda assim, a fiscalização localizada não conseguiu conter a mineração ilegal em toda a Amazônia. Quando as autoridades destroem dragas e equipamentos em uma região, os garimpeiros frequentemente se realocam ou retomam as operações assim que os agentes deixam o local. O procurador federal André Luiz Porreca, que investiga a mineração ilegal na Amazônia Ocidental brasileira, descreveu a fiscalização como um “jogo de gato e rato”.
“No ano passado, participei de uma operação que destruiu mais de 500 dragas em terras indígenas”, disse Porreca. “Na semana seguinte, indígenas me mostraram fotos comprovando que os garimpeiros já haviam retornado.”
Porreca afirmou que a mineração ilegal de ouro é financiada pelas maiores organizações criminosas do Brasil, incluindo o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC), que atuam em cerca de um terço das cidades da Amazônia brasileira:
“Eles têm dinheiro para financiar essas operações. Algumas dragas custam até 15 milhões de reais.”
Embora a fiscalização tenha diminuído a pressão no território Yanomami, a mineração ilegal se intensificou em outros lugares, principalmente em terras indígenas na bacia do rio Xingu. A situação mais crítica é na terra indígena Kayapó, onde aproximadamente 7.940 hectares de floresta tropical foram desmatados pela mineração ilegal, a maior área afetada na Amazônia brasileira.
Ouro impulsiona a contaminação por mercúrio
Os preços recordes do ouro, impulsionados principalmente pela demanda dos investidores por ativos seguros em meio aos crescentes riscos globais, têm fornecido um forte incentivo para a mineração ilegal.
“É lógica básica de mercado. Com mais compradores, há mais pessoas explorando ouro”, disse Porreca.
Ele afirmou que o sistema brasileiro de controle de exportação de minerais permanece frágil, permitindo esquemas de lavagem de dinheiro que conferem ao ouro ilícito uma aparência de legalidade.
Os danos ambientais vão além do desmatamento. As operações de mineração ilegal despejam mercúrio nos rios, contaminando cursos d'água e acumulando-o nos peixes consumidos por comunidades ribeirinhas e indígenas.
Em abril, Porreca apresentou um relatório à Comissão Interamericana de Direitos Humanos descrevendo a contaminação generalizada por mercúrio na Amazônia. O relatório citou um estudo da Fiocruz, instituto de pesquisa estatal, que constatou que 21,3% dos peixes vendidos em mercados públicos na Amazônia excediam os limites de mercúrio estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde. Crianças de 2 a 4 anos estavam consumindo mercúrio em níveis até 31 vezes superiores ao máximo recomendado.
Mineração é uma preocupação crescente entre ambientalistas e povos indígenas
De acordo com a legislação brasileira, a mineração é proibida em terras indígenas. O Ministério dos Povos Índios afirmou, em comunicado, que o combate à mineração ilegal em terras indígenas é uma prioridade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O ministério afirmou que as invasões de garimpeiros são sustentadas por redes criminosas e que o seu combate exige o desmantelamento dessas cadeias econômicas e logísticas.
O Ministério do Meio Ambiente afirmou que a contaminação por mercúrio proveniente da mineração ilegal de ouro continua sendo um problema persistente na Amazônia, acrescentando que está ampliando o monitoramento científico e apoiando as ações de fiscalização.
A Polícia Federal não respondeu aos pedidos de comentários da Associated Press.
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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
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