Votação na Colômbia tende a remodelar o futuro da Amazônia à medida que os ventos políticos mudam na América Latina
De la Espriella representa um contraste em relação a Petro, que se opôs a novos contratos de exploração de combustíveis fósseis
*Por Steven Grattan
O fato principal
A ascensão de Abelardo de la Espriella, empresário e advogado cotado para ser o próximo presidente da Colômbia, levanta questões sobre as mudanças políticas em curso na América Latina e se elas poderiam remodelar o futuro da Amazônia.
Contexto
O resultado da eleição na Colômbia ocorre num momento em que o Peru parece prestes a eleger Keiko Fujimori como presidente, após uma votação acirrada. Enquanto isso, o Brasil se prepara para uma eleição presidencial acirrada e que envolve o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
As eleições levantam a possibilidade de que os países com as maiores porções da Amazônia adotem políticas que priorizem o crescimento econômico, as indústrias extrativistas e os esforços para combater o crime organizado e reafirmar o controle estatal em regiões remotas.
"Há um alinhamento interessante, particularmente na região andina e em toda a bacia amazônica", disse Elizabeth Dickinson, vice-diretora para a América Latina do International Crisis Group, referindo-se à crescente convicção, entre alguns governos, de que o desenvolvimento econômico e a conservação podem ser buscados simultaneamente.
Eleições na Colômbia

Os resultados das eleições na Colômbia mostraram que de la Espriella — apoiado pelo presidente dos EUA, Donald Trump — derrotou Iván Cepeda, parlamentar apoiado pelo presidente em fim de mandato, Gustavo Petro, por uma margem de 1 ponto percentual, ou cerca de 251 mil votos. Cepeda reconheceu a derrota na última quarta-feira (24.jun.2026).
A floresta amazônica cobre grande parte do norte da América do Sul e ajuda a frear as mudanças climáticas ao absorver grandes quantidades de dióxido de carbono, um gás de efeito estufa que aquece o planeta. Cientistas alertam há anos que a perda contínua de floresta pode levar partes da Amazônia a um ponto de não retorno, a partir do qual grandes áreas talvez não consigam mais se regenerar como floresta tropical.
Cerca de 40% do território colombiano está situado na bacia amazônica. Sob a gestão de Petro, o país emergiu como um dos principais defensores mundiais da proteção da floresta tropical e da transição para longe dos combustíveis fósseis.
Desenvolvimento econômico e a Amazônia

Durante sua campanha eleitoral, de la Espriella — cujo apelido é "O Tigre" — comprometeu-se a revitalizar o setor petrolífero da Colômbia, apoiou o fracking (método de extração de petróleo e gás de formações rochosas subterrâneas) e defendeu que o país deveria aproveitar melhor seus recursos naturais para impulsionar o crescimento econômico. Defensores do meio ambiente alertam que a expansão da produção de petróleo e gás poderia comprometer os esforços de redução de emissões e aumentar a pressão sobre áreas ambientalmente sensíveis.
De la Espriella representa um forte contraste em relação a Petro, que se opôs a novos contratos de exploração de combustíveis fósseis e buscou posicionar a Colômbia como uma voz de liderança internacional em questões climáticas.
O Peru, que abriga a 2ª maior parte da floresta amazônica depois do Brasil, parece estar prestes a eleger Fujimori. Assim como de la Espriella, Fujimori sinalizou apoio à expansão da mineração e de outras indústrias como motores do crescimento econômico, enquanto grupos ambientalistas expressaram preocupação com as possíveis implicações para as florestas e as comunidades indígenas.
O Brasil, que detém cerca de 60% da Amazônia, prepara-se para uma disputa presidencial que pode ter grandes implicações para a proteção da floresta. A eleição ocorre após o país ter registrado um aumento acentuado no desmatamento sob o governo Bolsonaro, seguido por quedas durante a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, à medida que a fiscalização ambiental foi reforçada.
A experiência do Brasil mostra que as prioridades do governo podem ter um impacto mensurável na Amazônia, afirmou Cristiane Mazzetti, líder da campanha de desmatamento zero do Greenpeace Brasil.
"A administração eleita define prioridades orçamentárias, preenche cargos governamentais e molda regulamentações para facilitar ou dificultar a exploração predatória e os crimes ambientais", disse ela. "O resultado disso é mensurável, como evidenciado pela taxa de desmatamento na Amazônia brasileira."
O apoio de Trump a de la Espriella, da Colômbia, ocorreu em um momento em que o presidente dos EUA revogava políticas climáticas, promovia a expansão da produção de petróleo e gás e retirava os EUA do Acordo de Paris de 2015, o pacto internacional destinado a limitar o aquecimento global.
Sergio Guzmán, diretor da Colombia Risk Analysis, afirmou que as preocupações ambientais podem competir cada vez mais com as demandas por investimentos, produção de energia e crescimento econômico.
"Muitas das preocupações dos ambientalistas sobre emissões e fracking ficarão em segundo plano em relação a algumas das preocupações econômicas sobre autossuficiência energética, investimentos e investimento estrangeiro direto nos setores de petróleo, gás e mineração", disse Guzmán.
Mineração ilegal e comunidades indígenas

A mineração ilegal de ouro tornou-se um dos principais vetores de destruição ambiental em partes da Amazônia, contaminando rios com mercúrio, devastando florestas e gerando bilhões de dólares para grupos criminosos.
Dickinson afirmou que muitos governos adotaram medidas mais rigorosas contra a mineração ilegal, uma questão que ganhou destaque crescente nas políticas ambientais de toda a região.
"É muito difícil discordar da ideia de combater a mineração ilegal, uma das atividades mais prejudiciais à bacia amazônica", disse ela, acrescentando que os governos frequentemente concentram esforços na apreensão de equipamentos ou na retirada de garimpeiros de locais específicos, em vez de desmantelar as redes criminosas e financeiras que sustentam essas operações.
"O que ainda não conseguimos alcançar é a capacidade de combater os mentores intelectuais dessas operações", disse Dickinson.
Decisões que afetam territórios indígenas

Julio Cusurichi, uma importante liderança indígena da região amazônica do Peru, afirmou que as comunidades indígenas continuarão a se organizar e a defender uma participação mais ativa nas decisões que afetam seus territórios.
"Nossa biodiversidade, nossos territórios, nosso conhecimento e nossa sabedoria podem contribuir significativamente para o enfrentamento das mudanças climáticas", disse ele. "Em nossos territórios, demonstramos que somos capazes de exercer uma governança que beneficia não apenas nossos povos, mas todo o planeta."
Em toda a Amazônia, terras indígenas frequentemente se sobrepõem a áreas visadas para mineração, exploração de petróleo e projetos de infraestrutura. Organizações indígenas argumentam há muito tempo que os governos frequentemente falham em consultar adequadamente as comunidades antes de aprovar projetos.
Dickinson observou que as tensões em torno da autonomia indígena e de projetos extrativistas têm se tornado cada vez mais visíveis em países como Peru e Equador.
Analistas afirmam que alguns dos indicadores mais claros da abordagem ambiental da administração de De la Espriella serão a forma como o governo conduzirá os processos de consulta indígena, o licenciamento ambiental e as decisões sobre novos projetos de petróleo, gás e mineração em ecossistemas sensíveis.
'Permitir que a humanidade respire'

Guzmán afirmou que os planos de De la Espriella de aumentar a pressão militar sobre grupos criminosos e, potencialmente, retomar a fumigação aérea de plantações de coca — a planta usada para produzir cocaína — também poderiam ter consequências para as comunidades amazônicas.
A fumigação aérea é, há muito tempo, um tema controverso na Colômbia. Seus defensores a veem como uma ferramenta de combate ao tráfico de drogas, enquanto os críticos argumentam que ela pode danificar a vegetação do entorno, afetar fontes de água e incentivar os cultivadores de coca a desmatar novas áreas da floresta e avançar para regiões mais remotas da Amazônia.
Outros alertam para que não se presuma que as proteções ambientais serão inevitavelmente enfraquecidas.
Os tribunais, o Congresso, as organizações indígenas e as instituições ambientais da Colômbia continuam a exercer influência, ao passo que os avanços no monitoramento por satélite tornam cada vez mais difícil ocultar o desmatamento e os danos ambientais, segundo analistas.
Na cidade colombiana de Letícia, na Amazônia, o indígena Ticuna Arnaldo Rufino disse que muitos moradores temem que políticas de incentivo a uma maior exploração da floresta tropical possam ocorrer em detrimento da própria floresta.
Ele afirmou que as lideranças políticas deveriam concentrar-se na proteção da biodiversidade e da Amazônia, em vez de buscar projetos que ameacem aumentar as pressões sobre o meio ambiente.
"Isso significa derrubar as árvores que permitem que a humanidade respire", disse Rufino.
Autor
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.