Tubarão-dorminhoco é visto em vídeo pela primeira vez nas profundezas quase congelantes da Antártida

O tubarão estava a 490 metros de profundidade, onde a temperatura da água era de quase 0°C

Tubarão-dorminhoco é visto em vídeo pela primeira vez nas profundezas quase congelantes da Antártida
Nesta imagem capturada em vídeo e divulgada pela Universidade da Austrália Ocidental, um tubarão-dorminhoco nada em direção ao foco de uma câmera na Antártida, em janeiro de 2025 / Imagem: Centro de Pesquisa em Águas Profundas Minderoo-UWA, Inkfish, Kelpie Geoscience via AP

*Por Rod McGuirck

Um tubarão enorme e em formato semelhante a um barril cruzou lentamente um fundo marinho árido e profundo demais para que os raios do sol o iluminassem. Esta cena foi uma visão inesperada para cientistas, que acreditavam que não existiam tubarões nas águas gélidas da Antártida, até que um tubarão-dorminhoco surgiu sob os holofotes de uma câmera de vídeo.

Filmado em janeiro de 2025, o tubarão era um exemplar considerável, com um comprimento estimado entre 3 e 4 metros. Ele estava a 490 metros de profundidade, onde a temperatura da água era de quase 0°C, 1,27°C.

"Fomos até lá sem esperar ver tubarões, porque existe uma regra geral de que não se encontram tubarões na Antártida", disse o pesquisador Alan Jamieson nesta semana. "E este não é pequeno. É um tubarão enorme. Essas criaturas são verdadeiros tanques", acrescentou.

A câmera operada pelo Centro de Pesquisa em Águas Profundas Minderoo-UWA, que investiga a vida nas partes mais profundas dos oceanos do mundo, estava posicionada perto das Ilhas Shetland do Sul, na Península Antártica. O centro concedeu permissão à Associated Press na última quarta-feira (18.fev.2026) para publicar as imagens.

A localização fica dentro dos limites do Oceano Antártico, também conhecido como Oceano Austral, definido como a área abaixo da linha de latitude de 60 graus sul.

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Uma arraia aparece na imagem imóvel no fundo do mar e aparentemente indiferente à passagem do tubarão. A presença da arraia, um parente do tubarão que se parece com uma arraia-pintada, não foi uma surpresa, já que os cientistas já sabiam que sua distribuição geográfica se estendia até o sul.

Jamieson, diretor fundador do centro de pesquisa sediado na Universidade da Austrália Ocidental, disse que não encontrou nenhum registro de outro tubarão no Oceano Antártico.

Peter Kyne, biólogo de conservação da Universidade Charles Darwin, independente do centro de pesquisa, concordou que nunca antes um tubarão havia sido registrado tão ao sul.

As mudanças climáticas e o aquecimento dos oceanos podem estar levando os tubarões para as águas mais frias do Hemisfério Sul, mas havia poucos dados sobre mudanças na distribuição geográfica perto da Antártica devido ao isolamento da região, disse Kyne.

Os tubarões-dorminhocos, de movimentos lentos, podem ter estado na Antártica por muito tempo sem que ninguém percebesse, afirmou.

“Isso é ótimo. O tubarão estava no lugar certo, a câmera estava no lugar certo e eles conseguiram essa ótima filmagem”, disse Kyne. “É muito significativo.”

A população de tubarões-dorminhocos no Oceano Antártico provavelmente era esparsa e difícil de ser detectada por humanos, disse Jamieson.

O tubarão mantinha-se numa profundidade em torno de 500 metros porque ali se encontrava a mais quente de várias camadas de água sobrepostas até a superfície, explicou Jamieson.

O Oceano Antártico é altamente estratificado até uma profundidade de cerca de 1.000 metros devido a propriedades conflitantes, incluindo a água mais fria e densa das profundezas, que não se mistura facilmente com a água doce proveniente do derretimento do gelo na superfície.

Jamieson acredita que outros tubarões antárticos vivem na mesma profundidade, alimentando-se de carcaças de baleias, lulas gigantes e outras criaturas marinhas que morrem e afundam.

Há poucas câmeras de pesquisa posicionadas nessa profundidade específica nas águas antárticas. As que existem só podem operar durante os meses de verão do Hemisfério Sul, de dezembro a fevereiro.

“Nos outros 75% do ano, ninguém está observando. E é por isso que, acredito, ocasionalmente nos deparamos com essas surpresas”, disse Jamieson.

Autor

Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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