Trump tem um problema com a China na Venezuela: o que fazer com a dívida e as participações de Pequim no petróleo?

Parte significativa do petróleo venezuelano que Trump diz estar administrando pertence à China a partir de contratos firmados há anos

Trump tem um problema com a China na Venezuela: o que fazer com a dívida e as participações de Pequim no petróleo?
Uma faixa na frente de um ônibus exibe imagens do presidente venezuelano Nicolás Maduro e do presidente chinês Xi Jinping com a mensagem em espanhol: "Um exemplo para o mundo", durante um protesto organizado pelo governo contra a intervenção dos EUA, em Caracas, Venezuela, no sábado, 13 de dezembro de 2025 / Imagem: AP/Cristian Hernandez
Índice

*Por Didi Tang e Bernard Condon / Associated Press

Introdução

Quando se trata de afirmar que o petróleo venezuelano está agora sob seu controle, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não mede palavras. Mas uma parte significativa desse petróleo pertence à China, em contratos firmados com Caracas há anos, o que cria um cenário para uma delicada dança diplomática nas próximas semanas.

Alguns especialistas esperam que Trump procure cooperar com a China em uma tentativa de estabilizar as relações comerciais. Afinal, ele deve visitar Pequim em abril de 2026 como parte de um esforço para proteger a frágil trégua comercial alcançada no fim do ano passado com o presidente chinês Xi Jinping.

“O governo parece focado em evitar uma escalada desnecessária ou novos atritos com Pequim, mantendo a vantagem firmemente sob os termos de Washington”, disse Craig Singleton, diretor do programa sobre a China do think tank Foundation for Defense of Democracies.

Ele acrescentou que duvida que Trump queira transformar a Venezuela em um “ponto de tensão que complique a dinâmica comercial ou o envolvimento pessoal de Trump com Xi”.

Nesta foto divulgada pela Agência de Notícias Xinhua, o presidente chinês Xi Jinping, também secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista da China e presidente da Comissão Militar Central, discursa na reunião de Ano Novo realizada pelo Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CPPCC) em Pequim, na quarta-feira, 31 de dezembro de 2025 / Imagem: Yan Yan/Xinhua via AP

Segundo várias estimativas, a China tem a receber ao menos US$ 10 bilhões da Venezuela, dívida que o presidente venezuelano preso Nicolás Maduro vinha quitando por meio de envios de petróleo. É possível que o governo interino venezuelano, ao atender às exigências de Washington, questione a legalidade desses acordos de “empréstimo por petróleo” e suspenda os pagamentos.

Duas grandes estatais chinesas –China National Petroleum Corp. e Sinopec– têm direito a 4,4 bilhões de barris de reservas de petróleo na Venezuela, o maior volume concedido a qualquer país estrangeiro, de acordo com um relatório do banco de investimento Morgan Stanley.

Empresas norte-americanas também reivindicam dezenas de bilhões de dólares referentes às nacionalizações da indústria petrolífera feitas por Caracas –e ainda não está claro se e como essas dívidas serão honradas nem em que ordem.

Os Estados Unidos apreenderam nesta semana 2 petroleiros sancionados como parte de um plano para reafirmar o controle sobre os embarques de petróleo venezuelano.

O secretário de Energia, Chris Wright, disse que os EUA administrarão as vendas de petróleo da Venezuela “por tempo indeterminado”, depositando as receitas em contas controladas pelos EUA que, no fim, “retornarão à Venezuela para beneficiar o povo venezuelano”.

O governo dos EUA afirmou nesta semana que iniciará essas vendas com entre 30 e 50 milhões de barris retirados dos estoques de petróleo bruto venezuelano. Um funcionário da administração Trump, que pediu anonimato por não estar autorizado a falar publicamente, afirmou que a política dos EUA é reduzir a “influência hostil externa” no Hemisfério Ocidental.

O uso desse tipo de alavancagem sobre um recurso natural crucial ocorre depois de Pequim ter mostrado sua força em 2025 ao restringir o fornecimento de ímãs de terras raras e usar de forma estratégica suas compras de soja norte-americana durante a guerra comercial com Washington.

Quando Trump se encontrou com Xi na Coreia do Sul em outubro de 2025, ambos acordaram uma trégua de um ano, suspendendo tarifas e controles de exportação que vinham sendo aplicados mutuamente.

As participações da China na Venezuela

Entre 2000 e 2023, a Venezuela foi o 4º maior destinatário de crédito oficial de Pequim, recebendo US$ 106 bilhões em empréstimos de instituições estatais chinesas, segundo o AidData, laboratório de pesquisa do College of William & Mary, na Virgínia, que monitora as atividades financeiras externas da China.

Mas não está claro quanto do total Caracas já pagou e quanto ainda deve, afirmou o diretor executivo do AidData, Brad Parks, porque o governo venezuelano deixou de divulgar informações detalhadas sobre a dívida há vários anos.

Embora algumas estimativas indiquem que a dívida pendente esteja em torno de US$ 10 bilhões, Parks disse que o valor pode ser muito maior, já que as sanções dos EUA sobre o petróleo venezuelano podem ter atrasado os pagamentos. Os empréstimos da China, em um arranjo incomum, foram estruturados para serem quitados com receitas das exportações de petróleo.

Na China, a captura de Maduro evocou lembranças de outro líder que também havia firmado acordos com empresas chinesas antes de perder o poder subitamente: Muammar Gaddafi, da Líbia.

Após a queda de Gaddafi em 2011, empresas chinesas tiveram de abandonar bilhões de dólares em investimentos. O professor Cui Shoujun, da Universidade Renmin, em Pequim, disse ao site chinês guancha.cn que o governo de transição em Caracas poderia considerar ilegais os acordos firmados sob Maduro e declarar a dívida com a China inválida.

Assim como ocorreu na Líbia, os interesses de Pequim na Venezuela vão além do petróleo. Empresas chinesas investiram em telecomunicações, ferrovias e portos venezuelanos, todos agora ameaçados, segundo um relatório da empresa financeira global Jefferies.

Ainda assim, o relatório observou que Pequim provavelmente conseguirá lidar com qualquer interrupção, já que o petróleo venezuelano representa apenas uma pequena fração das importações de petróleo da China. Além disso, o país tem diversificado suas fontes de energia e investido fortemente na transição elétrica.

Poucas horas antes de ser capturado por forças norte-americanas, Maduro recebeu um diplomata chinês de alto escalão no palácio presidencial e exaltou a parceria entre os 2 países, estabelecida ainda nos tempos de seu antecessor, Hugo Chávez, que garantiu a Pequim influência significativa na “área de influência” dos Estados Unidos.

A Venezuela é o único país da América Latina que mantém uma parceria estratégica de alto nível com a China, comparável àquela com aliados próximos como o Paquistão.

A queda de Maduro deve reduzir a influência chinesa no Hemisfério Ocidental –algo que está em linha com um dos objetivos estabelecidos na Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump.

A resposta de Pequim à captura de Maduro

Logo após a captura de Maduro, Pequim afirmou estar “profundamente chocada” com o uso evidente da força norte-americana contra um Estado soberano e uma ação direta contra seu presidente e declarou “forte condenação” às medidas dos EUA. O governo chinês pediu a libertação imediata de Maduro e de sua esposa.

O porta-voz do Ministério do Comércio da China, He Yadong, disse na quinta-feira (8.jan.2026) que nenhum país tem o direito de interferir na cooperação econômica e comercial entre China e Venezuela, uma relação que, segundo ele, “é entre 2 Estados soberanos e protegida pelas leis internacionais e domésticas.”

“Não importa como a situação política na Venezuela evolua, a disposição da China em aprofundar a cooperação econômica e comercial bilateral não mudará”, afirmou He.

Singleton observou que Pequim não exerce o mesmo peso no Hemisfério Ocidental que costuma exibir.

“Pequim pode protestar diplomaticamente, mas não consegue proteger parceiros ou ativos quando Washington decide aplicar pressão direta”, disse ele.

*Condon reportou de Nova York.

Autor

Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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