Trump se coloca como líder vitalício do 'Conselho da Paz' e único com poder de veto
Órgão lançado no Fórum de Davos, na Suíça, tem ambições de rivalizar com instituições como a ONU. A quilômetros dali, em Gaza, crianças palestinas morrem de frio.
O destaque
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocou-se como presidente vitalício do "Conselho da Paz" que ele mesmo criou para supervisionar a Faixa de Gaza. Trump também disse ser o único com poder de veto do grupo.
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Na prática, esses poderes dão a Trump a autoridade permanente para convidar ou expulsar países, renovar mandatos e tomar uma série de decisões sozinho. Quando sua vontade não for realizada, poderá barrar iniciativas.
Esses detalhes foram dados durante o Fórum Econômico Mundial, encontro anual realizado em Davos, na Suíça, que chega ao fim nesta sexta-feira (23.jan.2026). O lançamento oficial do "Conselho da Paz" também ocorreu neste evento, na quinta-feira (22.jan).

Vários dos principais aliados históricos dos EUA decidiu não participar do "Conselho da Paz", embora Trump tenha convidado. O Brasil também foi chamado, mas ainda não respondeu oficialmente (e dificilmente aceitará).
A criação do "Conselho da Paz" estava prevista no plano de 20 tópicos proposto pelos EUA para implementar um cessar-fogo em Gaza. Grande parte da comunidade internacional saudou a proposta, que naquele momento não dava tantos detalhes sobre como funcionaria o colegiado.
Mesmo assim, informações da época já mostravam contradições históricas, como o presidente norte-americano (que não tem nenhum vínculo com a região) liderar o grupo e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, acusado de crimes de guerra, exercer uma espécie de liderança a partir de um cargo de "diretor".

Fórum Econômico Mundial

Na véspera do anúncio do "Conselho da Paz", quarta-feira (21), Trump discursou para uma plateia em grande parte formada por autoridades com as quais tem divergido politicamente.
O presidente norte-americano voltou atrás sobre suas ameaças de usar força militar para tomar a Groenlândia, território semi-autônomo da Dinamarca, embora tenha mantido o tom de ameaça.
Trump fala em 'acordo de segurança' sobre Groenlândia, mas líder local não sabe do que se trata
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, expressou um alívio cauteloso na quinta-feira (22) com o recuo de Trump sobre usar força militar para tomar a ilha. No entanto, disse que não conhece detalhes sobre um "acordo" citado pelo presidente dos EUA para a segurança do Ártico.
“Não sei o que há no acordo, ou no pacto, sobre o meu país”, disse Nielsen a repórteres, classificando a soberania da Groenlândia como uma “linha vermelha”.
Muitos aspectos do possível acordo permanecem obscuros, embora Trump tenha afirmado em entrevista à Fox Business que “teremos acesso total à Groenlândia”. Ele acrescentou que “teremos todo o acesso militar que desejarmos”.
Atualmente os EUA já têm acesso militar à Groenlândia, inclusive com base na ilha, por meio da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a aliança militar historicamente liderada pelos Estados Unidos e com presença de vários países europeus –entre eles, a própria Dinamarca.

Na mesma ocasião de seu discurso, Trump manteve críticas aos países europeus, com os quais os EUA têm histórico de aliança e cooperação. Fez ainda diversos comentários racistas, xenófobos e até supremacistas brancos.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, por sua vez, repreendeu os aliados europeus pelo que descreveu como uma resposta lenta e fragmentada à invasão russa, comparando-a ao filme "Feitiço do Tempo" (Groundhog Day), em que o personagem principal revive o mesmo dia indefinidamente.
O bilionário Elon Musk, dono de uma série de empresas (X [antigo Twitter], Tesla, SpaceX e outras) fez piadas sobre o Conselho da Paz de Trump e os EUA anexarem um "pedaço" da Groenlândia e da Venezuela. Ele atuou como secretário do governo Trump, mas deixou o cargo.

Em meio ao encerramento do Fórum, as atenções se voltaram dos Alpes Suíços para os Emirados Árabes Unidos, onde reuniões trilaterais entre os EUA, a Ucrânia e a Rússia começaram nesta sexta-feira (23).
Os enviados de Trump, Steve Witkoff e seu genro, Jared Kushner, eram esperados para conversas em Moscou ainda na quinta-feira (22). Com interesses no mercado imobiliário, assim como Trump, Kushner também vem monitorando a formação do "Conselho da Paz".
Oriente Médio

Enquanto isso, a quilômetros de distância da Suíça, palestinos desesperados estão cavando um lixão em Gaza com as próprias mãos em busca de itens de plástico para queimar e se aquecer no inverno frio e úmido.
“Esta é a nossa vida”, disse Sanaa Salah, que vive em uma tenda com o marido e 6 filhos.
“Não conseguimos dormir à noite por causa do frio.”

A cena contrasta fortemente com a visão para o território projetada pelos líderes mundiais que inauguraram o "Conselho da Paz" de Trump, expondo imagens geradas com IA (inteligência artificial) que projetam empreendimentos imobiliários que podem ser lançados futuramente em Gaza.

Trump afirmou em Davos esta semana que “níveis recordes” de ajuda humanitária entraram em Gaza desde o início do cessar-fogo mediado pelos EUA, em outubro de 2025. Na Suíça, houve exaltação ao potencial de desenvolvimento do território palestino.
A realidade: os moradores de Gaza não têm combustível nem lenha. Bebês morrem de frio (só neste inverno, foram 9 crianças mortas de hipotermia), os preços são exorbitantes e a busca por lenha é perigosa.

Dois meninos de 13 anos foram mortos a tiros por forças israelenses na quarta-feira (21) enquanto tentavam coletar lenha, disseram funcionários do hospital. Israel matou mais de 470 pessoas em Gaza desde o início da "trégua".
Três jornalistas foram mortos pelos disparos israelenses. Eles foram vítimas de um ataque israelense quando estavam num veículo, segundo autoridades de saúde de Gaza.

Os jornalistas faziam filmagens perto de um campo de deslocados no centro de Gaza, administrado por um comitê do governo egípcio, segundo o porta-voz do comitê, Mohammed Mansour.
O exército israelense afirmou que o ataque ocorreu após detectar "suspeitos" operando um drone que, segundo Israel, representava ameaça às tropas.
Os veículos de imprensa dependem amplamente de jornalistas palestinos e residentes locais para mostrar o que ocorre no território, já que Israel mantém proibida a entrada de repórteres estrangeiros, exceto em raras visitas guiadas.

Venezuela

Forças militares dos EUA apreenderam na terça-feira (20.jan) um 7º navio petroleiro ligado à Venezuela, como parte dos esforços mais amplos do governo Trump para controlar o petróleo do país sul-americano.
O Comando Sul dos EUA afirmou em uma publicação nas redes sociais que as forças norte-americanas apreenderam o navio a vapor Sagitta "sem incidentes" e que o petroleiro operava em desafio à "quarentena estabelecida pelo presidente Donald Trump para embarcações sancionadas no Caribe".
O comando militar não informou se a Guarda Costeira dos EUA assumiu o controle do petroleiro, como ocorreu em apreensões anteriores. Tanto o Pentágono quanto o Comando Sul disseram não ter nada a acrescentar quando questionados sobre mais detalhes.
Autor
Primeira organização de notícias do Brasil criada no WhatsApp, em 2018, para combater a desinformação.




