Trump lança o 'Conselho da Paz' em Davos, mas os principais aliados dos EUA não participam
Inicialmente lançado para supervisionar Gaza, declarações de Trump dão a entender que os objetivos do colegiado são maiores, com interesse de rivalizar com a ONU
*Por Josh Boak, Aamer Madhani e Will Weissert / Associated Press
O fato principal
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou oficialmente nesta quinta-feira (22.jan.2026) o seu "Conselho da Paz", órgão que deve liderar os esforços por um cessar-fogo entre Israel e Hamas, bem como supervisionar as atividades em Gaza, de acordo com o seu plano de 20 pontos para a "paz" na região.
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Ao anunciar o "Conselho da Paz", Trump insistiu que “todos querem fazer parte” do órgão, que, segundo ele, pode eventualmente rivalizar com a ONU (Organização das Nações Unidas). No entanto, diversos aliados históricos dos EUA já optaram por não participar.
“Isso não é sobre os Estados Unidos, é para o mundo. (...) Acho que podemos expandir para outras coisas à medida que tivermos sucesso em Gaza”, disse ele.
Chefe do governo tecnocrático a ser instalado em Gaza, Ali Shaath participou do evento de lançamento do Conselho. Ele anunciou que a passagem fronteiriça de Rafah, no Egito, será aberta em 2 sentidos na próxima semana.
A declaração ocorre depois de Israel dizer –sem implementar–, no início de dezembro de 2025, que abriria a travessia (que liga Gaza ao Egito).

Neste conteúdo, o Correio Sabiá explica sobre o início da 2ª fase do plano de cessar-fogo em Gaza e dá mais detalhes sobre Shaath
Ambições maiores para o 'Conselho da Paz'

O "Conselho da Paz" foi inicialmente idealizado como um pequeno grupo de líderes mundiais responsáveis por supervisionar o cessar-fogo, mas acabou transformado em algo mais ambicioso.

Neste conteúdo, o Correio Sabiá mostra as exigências para ingressar no Conselho da Paz, ampliando o contexto sobre o colegiado
O ceticismo sobre a composição do Conselho e a implementação de um mandato para integrá-lo (ou o pagamento de US$ 1 bilhão para garantir assento permanente), assim como a condução de Trump para assuntos internacionais, são alguns dos fatores que têm levado até aliados mais próximos de Washington a não participar.
Trump tentou evitar que as ausências arruinassem o evento. Disse que 59 países haviam "assinado" o Conselho. No entanto, apenas 19 países (além dos EUA) estiveram representados no lançamento (com chefes de Estado, diplomatas ou outras autoridades). O grupo incluía nações como Azerbaijão, Paraguai e Hungria –e Trump lhes disse:
“Vocês são as pessoas mais poderosas do mundo.”
Trump falou sobre o conselho substituir algumas funções da ONU e talvez até tornar todo o órgão obsoleto um dia. Mas foi mais conciliador em outras declarações, paralelas ao Fórum Econômico Mundial:
“Faremos isso em conjunto com as Nações Unidas”, disse Trump, embora tenha criticado a ONU por, segundo ele, não fazer o suficiente para acalmar conflitos ao redor do mundo.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que alguns líderes disseram planejar aderir ao Conselho, mas ainda não o fizeram porque precisam de aprovação de seus parlamentos.
O governo Trump diz também ter recebido consultas de países que nem sequer foram convidados a participar.
Por que alguns países não estão participando?

Grandes dúvidas ainda permanecem sobre como será o Conselho.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que seu país ainda está consultando “parceiros estratégicos” antes de decidir se aderirá. Putin deve receber em Moscou, nesta quinta-feira (22.jan), o presidente palestino Mahmoud Abbas para conversas.
O Kremlin, sede do Executivo russo, disse nesta quinta-feira (22) que Putin planeja discutir sua proposta de enviar US$ 1 bilhão ao Conselho da Paz durante suas conversas com Abbas. Mas observou que o uso desses recursos exigirá que os EUA desbloqueiem os ativos.
Outros países questionam por que Putin e outros líderes autoritários foram convidados. A secretária de Relações Exteriores britânica, Yvette Cooper, disse que o Reino Unido não assinaria, “porque isso envolve um tratado legal que levanta questões muito mais amplas”.
“E também temos preocupações sobre o presidente Putin fazer parte de algo que fala em paz, quando ainda não vimos nenhum sinal de um compromisso com a paz na Ucrânia”, disse ela à BBC.
Noruega e Suécia indicaram que não participarão, depois da França também ter recusado. Autoridades francesas enfatizaram que, embora apoiem o plano de paz para Gaza, estão preocupadas que o conselho possa tentar substituir a ONU como principal fórum de resolução de conflitos.
Canadá, Ucrânia, China e o braço executivo da União Europeia também não se comprometeram. A decisão de Trump de cancelar as tarifas elevadas que havia ameaçado impor por causa da Groenlândia pode aliviar a relutância de alguns aliados, mas a questão ainda parece longe de ser resolvida.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou que concordou em participar. Anteriormente, seu gabinete criticou a composição do comitê do conselho encarregado de supervisionar Gaza.
Protestos no Irã ao fundo
A iniciativa de Trump pela "paz" também ocorre após ele ter ameaçado ação militar neste mês contra o Irã, que vem reprimindo violentamente os maiores protestos de rua dos últimos anos, matando milhares de pessoas.
Por ora, Trump sinalizou que não fará novos ataques ao Irã, depois de afirmar ter recebido garantias de que o governo islâmico não executaria mais de 800 manifestantes, cujas mortes estavam planejadas.

Trump também afirmou que sua postura dura em relação a Teerã –incluindo ataques às instalações nucleares iranianas em junho de 2025– foi essencial para a consolidação do acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas.
O Irã era o principal financiador do Hamas, fornecendo centenas de milhões de dólares em ajuda militar, armas, treinamento e apoio financeiro ao longo dos anos.
Encontro com Zelensky

Trump também se reuniu com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que chegou a Davos. O presidente norte-americano ainda tenta fazer Zelensky e Putin concordarem com os termos para encerrar a guerra, que já dura quase 4 anos. Trump expressou repetidamente a sua frustração com ambos os lados:
“Acredito que eles estão em um ponto em que podem chegar a um acordo”, disse Trump na quarta-feira (21). “E se não o fizerem, são estúpidos –isso vale para os 2.”
O que mais estamos lendo

*Madhani e Weissert relataram de Washington.
Autor
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

