Trump diz que teve 'ótima conversa' com presidente interina da Venezuela
Em pronunciamento, Delcy Rodríguez falou que seu país 'se abre para um novo momento político'
*Por Regina Garcia Cano / Associated Press
O fato principal
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira (14.jan.2026) que teve uma “ótima conversa” com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez.
“Foi uma ligação longa. Conversamos sobre muitas coisas. E acho que estamos nos dando muito bem com a Venezuela”, disse Trump durante a assinatura de um projeto de lei no Salão Oval.
Esta foi a 1ª ocasião em que se falaram diretamente desde que o agora ex-presidente Nicolás Maduro foi capturado e levado aos Estados Unidos, no dia 3 de janeiro de 2026, para responder a acusações de narcotráfico das quais se declarou inocente.
Já Delcy Rodríguez afirmou que seu governo continuará libertando prisioneiros detidos durante o governo do agora ex-presidente Nicolás Maduro. A advogada e veterana política declarou que a Venezuela "se abre para um novo momento político que permita diversidade política e ideológica”.
Rodríguez era considerada uma leal aliada de Maduro, a quem serviu como vice-presidente desde 2018. No entanto, foi mantida no poder por Trump, que declarou a si próprio "presidente em exercício da Venezuela".
Rodríguez faz declaração à imprensa
Rodríguez abriu sua 1ª coletiva de imprensa (na verdade, um pronunciamento) desde a captura de Maduro pelas forças norte-americanas em tom de conciliação. Falando a jornalistas num tapete vermelho no palácio presidencial, em Caracas, garantiu que a libertação completa dos detidos “ainda não foi concluída”.
Uma organização venezuelana de direitos humanos estima que cerca de 800 presos políticos ainda estão detidos. Essas pessoas seriam líderes políticas, militares, advogadas e integrantes da sociedade civil.

Diferentemente de discursos anteriores, marcados por uma retórica anti-imperialista, Rodríguez não mencionou os Estados Unidos nem o ritmo acelerado em que as relações entre os 2 países vêm evoluindo. A presidente interina equilibra acenos aos públicos interno e externo em seus discursos.
No entanto, Rodríguez criticou organizações que atuam em defesa dos direitos dos presos. Prometeu uma aplicação “rigorosa” da lei e atribuiu a Maduro o início das libertações –versão que contraria o discurso oficial de Washington, já que o governo Trump diz que as solturas ocorreram por pedido seu.
“Crimes relacionados à ordem constitucional estão sendo avaliados. Mensagens de ódio, intolerância e atos de violência não serão permitidos”, disse Rodríguez, no que pareceu ser uma referência às considerações de grupos de direitos humanos sobre pessoas presas, que seriam "presos políticos", segundo eles.
Acompanhada de seu irmão, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, e do ministro do Interior, Diosdado Cabello, ela não respondeu a perguntas. Segundo a presidente, Cabello está coordenando as libertações, que vêm sendo criticadas por ocorrerem de forma lenta e sigilosa.

Trump mantém partido de Maduro no poder
Se seguir os interesses de Trump, Rodríguez deve ajudar a garantir o controle dos EUA sobre as vendas de petróleo da Venezuela.
Ao manter Delcy Rodríguez, que atuava como vice-presidente de Maduro desde 2018, Trump deixou de lado María Corina Machado, líder da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz no ano passado. Machado tem encontro marcado com Trump nesta quinta-feira (15.jan), na Casa Branca.
Para assegurar a cooperação de Rodríguez, Trump chegou a ameaçá-la com uma “situação provavelmente pior que a de Maduro”, atualmente preso em Nova York após ser capturado pelos Estados Unidos no dia 3 de janeiro de 2026.
Após uma longa carreira à frente do serviço de inteligência da Venezuela, na gestão do setor petroleiro e na representação do chavismo no cenário internacional, Rodríguez agora tenta equilibrar as pressões de Washington com as de autoridades linha-dura que controlam as forças de segurança venezuelanas.
“O regime, por um lado, quer transmitir à população venezuelana que ainda está no comando e que os EUA não estão dominando. Por outro lado, internacionalmente, quer mostrar progresso gradual com a libertação de presos políticos. Eles estão jogando um jogo”, disse Ronal Rodríguez, pesquisador do Observatório da Venezuela da Universidade del Rosario, na Colômbia.

Soltura de presos políticos
Essas tensões ficaram evidentes no discurso da presidente nesta quarta-feira (14), centrado apenas nas libertações. A principal entidade venezuelana de defesa dos direitos dos presos, o Foro Penal, confirmou a libertação de pelo menos 68 pessoas desde que o governo interino prometeu uma “liberação significativa”.
O Foro Penal informou a soltura de pelo menos uma dúzia de prisioneiros nesta quarta, incluindo o ativista político Nicmer Evans. Também foram libertados Julio Balza e Gabriel González, membros da campanha de Machado, cuja prisão era considerada politicamente motivada.
No início da semana, o governo de Rodríguez libertou diversos cidadãos dos EUA, além de italianos, espanhóis e figuras da oposição. No entanto, a presidente disse que foi Maduro quem iniciou o processo de libertação de prisioneiros.
Ela afirmou que Maduro supervisionou a libertação de 194 pessoas em dezembro de 2025 porque “estava pensando precisamente em abrir espaços para o entendimento, a convivência e a tolerância.”
As declarações fazem oposição à Casa Branca, sede do Poder Executivo dos EUA, que afirmou que as solturas se deviam à pressão norte-americana.
Rodríguez alegou que seu governo provisório já libertou 212 detidos. O Foro Penal estima que mais de 800 prisioneiros ainda estejam presos com motivações políticas e criticou a falta de transparência do governo.
A presidente criticou as “organizações não governamentais autoproclamadas”, acusando-as de “tentar vender falsidades sobre a Venezuela”.
“Sempre haverá aqueles que querem pescar em águas turbulentas”, declarou Rodríguez, tentando apresentar sua primeira coletiva de imprensa como um esforço para combater narrativas falsas e “permitir que a verdade seja relatada”.
*Com reportagem adicional de Isabel DeBre (Buenos Aires, Argentina), Megan Janetsky (Cidade do México) e Will Weissert (Washington).
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