Trump diz que Irã quer negociar; número de mortos em protestos chega a 646
Em duas semanas de protestos, o país teve mais de 10 mil detenções. Agora, cidades também registram grandes atos a favor do governo.
*Por Jon Gambrell, Julia Nikhinson e Aamer Madhani / Associated Press
O essencial
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o Irã quer negociar com Washington após sua ameaça de atacar a República Islâmica por causa da repressão aos manifestantes. Há ao menos 646 pessoas mortas desde que os protestos começaram há cerca de 2 semanas.
“Acho que eles estão cansados de apanhar dos Estados Unidos. O Irã quer negociar”, disse.
O Irã não reagiu diretamente a estes comentários de Trump, feitos após o chanceler do Omã, um tradicional intermediário entre Washington e Teerã, viajar ao país neste fim de semana.
Também não está claro o que o Irã poderia oferecer, especialmente porque Trump impôs exigências rigorosas sobre seu programa nuclear e seu arsenal de mísseis balísticos, que Teerã considera essenciais para sua defesa nacional.
O chanceler iraniano Abbas Araghchi, falando a diplomatas estrangeiros em Teerã, insistiu que “a situação está totalmente sob controle”, em declarações que culparam Israel e EUA pela violência.
“É por isso que as manifestações se tornaram violentas e sangrentas, para dar uma desculpa ao presidente americano para intervir”, disse Araghchi, em comentários transmitidos pela Al Jazeera, rede financiada pelo Catar e que tem sido autorizada a reportar ao vivo dentro do Irã, apesar do corte da internet.
Araghchi afirmou que o Irã está “aberto à diplomacia”. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, disse que um canal com os EUA permanece aberto, mas que as negociações precisam ser “baseadas na aceitação de interesses e preocupações mútuos, não em uma negociação unilateral e ditatorial”.
Enquanto isso, outros manifestantes lotaram as ruas na segunda-feira (12.jan) em apoio ao governo do Irã, numa demonstração de força após dias de protestos que desafiaram diretamente o líder supremo aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos.
A TV estatal iraniana exibiu gritos da multidão, que parecia contar com dezenas de milhares de pessoas, bradando “Morte à América!” e “Morte a Israel!”. Outros gritavam: “Morte aos inimigos de Deus!”.
O procurador-geral do Irã alertou que qualquer pessoa que participe dos protestos contra o governo será considerada “inimiga de Deus”, um crime passível de pena de morte.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que a retórica pública do Irã diverge das mensagens privadas que a administração Trump recebeu de Teerã nos últimos dias.
“Acho que o presidente [Trump] tem interesse em explorar essas mensagens. No entanto, o presidente demonstrou que não hesita em usar opções militares quando julgar necessário, e ninguém sabe disso melhor que o Irã”, afirmou Leavitt.
Trump anuncia tarifas adicionais de 25% a quem fizer negócios com o Irã
Trump anunciou nesta segunda-feira (12.jan.2026) que vai impor tarifas comerciais adicionais de 25% a todos os países que fizerem negócios com o Irã.
Esta foi uma medida contra o Irã pela repressão aos protestos. Trump acredita que as tarifas podem ser uma ferramenta para dobrar amigos e inimigos no cenário global. Brasil, China, Rússia, Turquia e Emirados Árabes Unidos estão entre as economias que negociam com Teerã.
A Casa Branca recusou-se a comentar mais sobre o anúncio das tarifas. Trump disse no domingo (11) que sua administração está em conversas para marcar uma reunião com Teerã, mas falou que pode ter de agir primeiro enquanto o número de mortos no Irã aumenta e o governo segue prendendo manifestantes.
O Irã, por meio do presidente do Parlamento, alertou no domingo (11) que o exército dos EUA e Israel seriam “alvos legítimos” caso Washington use força para proteger manifestantes.
“Se fizerem isso [retaliarem os EUA], nós os atingiremos em níveis que nunca sofreram antes”, rebateu Trump.
Mais de 10 mil detidos nos protestos

Mais de 10.700 pessoas foram detidas nas duas semanas de protestos, segundo a Human Rights Activists News Agency, com sede nos EUA, que tem sido precisa em agitações anteriores e divulgou o novo saldo de mortos no início desta terça-feira (13).
Segundo a agência, 512 mortos eram manifestantes e 134 eram membros das forças de segurança. Ela se baseia em apoiadores no Irã que verificam e cruzam as informações.
Com a internet cortada no Irã e linhas telefônicas bloqueadas, dimensionar as manifestações do exterior ficou mais difícil. A Associated Press não conseguiu avaliar independentemente o saldo de mortos. O governo iraniano não divulgou números gerais de vítimas.
Às 14h de segunda-feira, a TV estatal iraniana mostrou imagens de manifestantes lotando Teerã em direção à Praça Enghelab, ou “Praça da Revolução Islâmica”.
O canal exibia desde a manhã declarações de líderes governamentais, de segurança e religiosos convocando para o ato. Chamou o comício de “levante iraniano contra o terrorismo americano-sionista”, sem abordar a raiva subjacente no país pela economia debilitada.
A TV estatal exibiu imagens de manifestações semelhantes pelo país, tentando sinalizar que superou os protestos.
Medo domina a capital iraniana
Em Teerã, uma testemunha disse à AP que as ruas ficam vazias no chamado à oração do pôr do sol todas as noites. Na oração noturna Isha, as vias estão desertas. Parte disso vem do medo de ser pego na repressão.
A polícia enviou uma mensagem de texto ao público iraniano com um alerta:
“Dada a presença de grupos terroristas e indivíduos armados em alguns ajuntamentos na noite passada e seus planos de causar mortes, e a decisão firme de não tolerar apaziguamento e lidar decisivamente com os desordeiros, as famílias são fortemente aconselhadas a cuidar de seus jovens e adolescentes.”
Outra mensagem, que dizia vir do braço de inteligência da Guarda Revolucionária paramilitar, também alertou diretamente as pessoas a não participarem de manifestações.
A testemunha falou sob anonimato devido à repressão em curso.
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*Jon Gambrell reportou de Dubai, Emirados Árabes Unidos, e Julia Nikhinson reportou a bordo do Air Force One. Melanie Lidman contribuiu para esta reportagem a partir de Tel Aviv, Israel.
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