Trump deixa oposição venezuelana de lado e mantém partido de Maduro no poder

Mesmo tendo elogiado Trump, a líder da oposição e vencedora do Nobel da Paz María Corina Machado foi colocada para 'escanteio', ao menos no atual momento

Trump deixa oposição venezuelana de lado e mantém partido de Maduro no poder
Vencedora do Prêmio Nobel da Paz María Corina Machado com o vice-líder do Comitê Nobel Norueguês Asle Toje, à direita, fora do Grand Hotel em Oslo, sexta-feira, 12 de dezembro de 2025 / Imagem: Ole Berg-Rusten/NTB via AP
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*Por Regina Garcia Cano / Associated Press

O essencial

Apoiadores da oposição venezuelana há muito sonham com o dia em que Nicolás Maduro não esteja mais no poder –sonho realizado quando militares norte-americanos levaram o líder autoritário embora. Mas, enquanto Maduro está preso em Nova York por acusações de tráfico de drogas, os líderes de sua administração permanecem no comando.

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A oposição do país –apoiada por consecutivas administrações dos EUA, tanto republicanas como democratas,– por anos prometeu substituir Maduro imediatamente por um dos seus e restaurar a democracia no país rico em petróleo. Mas o presidente dos EUA, Donald Trump, desferiu golpe pesado nesses políticos ao permitir que a vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez, assumisse o controle.

Enquanto isso, maioria dos líderes da oposição, incluindo a vencedora do Nobel da Paz María Corina Machado, está no exílio ou na prisão.

"Eles claramente não se impressionaram com o realismo mágico etéreo da oposição, sobre como se apenas empurrando Maduro haveria um movimento instantâneo para a democracia", disse David Smilde, professor da Universidade Tulane que estuda a Venezuela há 3 décadas, sobre a administração Trump.

Os EUA capturaram Maduro e a primeira-dama Cilia Flores em operação militar no sábado (3.jan.2026), retirando-os de casa em base militar na capital Caracas. Horas depois, Trump disse que os EUA "administrariam" a Venezuela e expressou ceticismo de que Machado pudesse ser sua líder.

"Ela não tem apoio dentro, nem respeito dentro do país. É uma mulher muito simpática, mas não tem o respeito", Trump disse a repórteres.

Ironia: o elogio incessante de Machado ao presidente norte-americano, incluindo dedicar seu Nobel da Paz a Trump e apoiar campanhas dos EUA para deportar imigrantes venezuelanos e atacar supostos traficantes de drogas em águas internacionais, custou-lhe apoio em casa.

O legítimo vencedor da eleição presidencial venezuelana

Machado emergiu como principal opositora de Maduro nos últimos anos, mas seu governo a barrou de concorrer para impedir que o desafiasse –e provavelmente derrotasse– na eleição presidencial de 2024. Ela escolheu o embaixador aposentado Edmundo González Urrutia para representá-la na urna.

Funcionários leais ao partido governante declararam Maduro vencedor horas após fechamento das urnas, mas uma campanha bem organizada de Machado chocou o país ao coletar atas detalhadas mostrando que González derrotara Maduro por margem de 2 para 1.

EUA e outras nações reconheceram González como legítimo vencedor. O Brasil não reconheceu González como vencedor, mas tampouco reconheceu Maduro. A posição brasileira foi de estimular a transparência e demonstração de lisura do pleito, o que não ocorreu.

Mesmo com González tendo sido o candidato, é comum que venezuelanos identifiquem Machado (e não González) como vencedora, já que a líder opositora permaneceu como voz da campanha, pressionando por apoio internacional e insistindo que seu movimento substituiria Maduro.

Em sua 1ª entrevista televisionada desde a captura de Maduro, Machado elogiou efusivamente Trump e não reconheceu seu desdém por seu movimento opositor na transição de poder mais recente.

"Falei com presidente Trump em 10 de outubro de 2025, mesmo dia que prêmio foi anunciado, não desde então. O que ele fez, como eu disse, é histórico, e é enorme passo para transição democrática", disse ela à Fox News na segunda-feira (5).

Esperanças por nova eleição

O secretário de Estado americano Marco Rubio, no domingo (4), pareceu recuar da afirmação de Trump de que os EUA "administrariam" Venezuela. Em entrevistas, Rubio insistiu que Washington usará controle da indústria petrolífera venezuelana para forçar mudanças de política, e chamou atual governo de ilegítimo. O país abriga as maiores reservas comprovadas de petróleo bruto do mundo.

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Nem Trump nem Rodríguez disseram quando, ou se, eleições ocorrerão na Venezuela.

Constituição venezuelana exige eleição em 30 dias sempre que presidente se torne "permanentemente indisponível" para servir. Motivos incluem morte, renúncia, destituição ou "abandono" de deveres declarado pela Assembleia Nacional. Esse cronograma eleitoral foi rigorosamente seguido quando predecessor de Maduro, Hugo Chávez, morreu de câncer em 2013.

Na terça-feira (6), o senador norte-americano Lindsey Graham, aliado próximo de Trump que viajou com presidente no Air Force One no domingo (4), disse crer que uma eleição ocorrerá, mas não especificou quando ou como.

"Vamos reconstruir o país, infraestrutura, culminando em eleição livre", disse o republicano da Carolina do Sul a repórteres.

Mas aliados de Maduro no alto tribunal, no sábado, citando outra disposição constitucional, declararam que a ausência de Maduro é "temporária", o que significa não haver exigência de uma nova eleição. Em vez disso, a vice-presidente, cujo cargo não é eleito, assume por até 90 dias, com provisão para estender a 6 meses se aprovado pela Assembleia Nacional, controlada pelo partido governante.

Desafios à frente para oposição

Em sua decisão, o Supremo Tribunal da Venezuela não mencionou o limite de 180 dias, levando a especulações de que Rodríguez poderia tentar se agarrar ao poder enquanto busca unir facções do partido governante e protegê-lo do que certamente seria um desafio eleitoral.

Machado na segunda-feira (5) criticou Rodríguez como "uma das principais arquitetas de tortura, perseguição, corrupção, narcotráfico". Disse que "certamente" não é "indivíduo confiável por investidores internacionais".

Mesmo se eleição ocorrer, Machado e González primeiro teriam que achar um jeito de voltar à Venezuela.

González está exilado na Espanha desde setembro de 2024 e Machado deixou Venezuela no último mês quando apareceu publicamente pela primeira vez em 11 meses para receber Nobel na Noruega.

Ronal Rodríguez, pesquisador do Observatório Venezuela na Universidad del Rosario da Colômbia, disse que decisão da administração Trump de trabalhar com Rodríguez poderia prejudicar o "espírito democrático" da nação.

"O que a oposição fez na eleição de 2024 foi unir com desejo de transformar situação na Venezuela por meios democráticos, e isso é encarnado por María Corina Machado e, obviamente, Edmundo González Urrutia. Desconsiderar isso é menosprezar, quase humilhar, venezuelanos", disse.

Autor

Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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