Separatistas do Iêmen anunciam Constituição para um sul independente

Não ficou imediatamente claro se o anúncio era, de fato, uma declaração de independência ou uma medida simbólica

Separatistas do Iêmen anunciam Constituição para um sul independente
Apoiadores do Conselho de Transição do Sul (STC), uma coalizão de grupos separatistas que busca restaurar o Estado do Iêmen do Sul, exibem bandeiras do Iêmen do Sul durante um comício em Aden, Iêmen, na sexta-feira, 2 de janeiro de 2026. (Foto AP)
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*Por Ahmed Al-Haj e Fatma Khaled / Associated Press

O fato principal

O movimento separatista do Iêmen anunciou na última sexta-feira (2.jan.2026) uma Constituição para uma eventual nação independente no sul do país e demandou que outras facções no país –devastado pela guerra– aceitem a medida, numa escalada do confronto que colocou as potências do Golfo (Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos), uma contra a outra.

O Conselho de Transição do Sul (STC, na sigla em inglês), apoiado pelos Emirados Árabes, apresentou o anúncio como uma declaração de independência para o sul. No entanto, não ficou imediatamente claro se a medida poderia ser implementada ou se era em grande parte simbólica.

No mês passado, deembro de 2025, combatentes ligados ao STC tomaram o controle de duas províncias do sul de forças apoiadas pela Arábia Saudita e ocuparam o Palácio Presidencial na principal cidade do sul, Aden. Membros do governo reconhecido internacionalmente –que estava baseado em Aden– fugiram para a capital saudita, Riad.

Na mesma sexta-feira (2), aviões de guerra sauditas bombardearam acampamentos e posições militares controlados pelo STC na província de Hadramout, enquanto combatentes apoiados pela Arábia Saudita tentavam tomar as instalações, disse um oficial separatista.

Essa foi a mais recente intervenção direta da Arábia Saudita, que nas últimas semanas bombardeou forças do STC e atingiu o que seria um carregamento de armas emiradense destinado aos separatistas.

Enquanto isso, os Emirados Árabes Unidos anunciaram no início do sábado (3) que haviam retirado completamente todas as suas tropas do Iêmen, algo que haviam prometido fazer após o confronto.

Formalmente, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos e seus aliados no terreno no Iêmen fazem parte de uma coalizão liderada pela Arábia Saudita que luta contra os rebeldes houthis apoiados pelo Irã, que controlam o norte na guerra civil de uma década do país.

O objetivo declarado da coalizão sempre foi restaurar o governo reconhecido internacionalmente, que foi expulso do norte pelos houthis. Mas as tensões entre as facções e os 2 países do Golfo parecem estar desmantelando a coalizão, ameaçando levá-los a um conflito aberto e a despedaçar ainda mais o país mais pobre do mundo árabe.

Declaração dos separatistas do sul

Um soldado do Conselho de Transição do Sul (STC) do Iêmen do Sul está em um posto de controle em Aden, Iêmen, na quarta-feira, 31 de dezembro de 2025 / Imagem: AP Photo

O chefe do STC, Aidarous al-Zubaid, emitiu um comunicado em vídeo na sexta-feira (2) dizendo que a Constituição emitida por seu grupo entraria em vigor por 2 anos, após os quais seria realizado um referendo sobre “o exercício do direito à autodeterminação do povo do Sul”.

Durante esses 2 anos, disse ele, as “partes relevantes” no norte e no sul do Iêmen deveriam realizar um diálogo sobre “um caminho e mecanismos que garantam o direito do povo do Sul”.

Ele afirmou que, se as outras facções não concordarem com seu chamado ou tomarem ações militares, “todas as opções permanecem abertas”.

A “Constituição” de 30 artigos proclamou a criação do “Estado da Arábia do Sul”, abrangendo o mesmo território da antiga República Democrática Popular do Iêmen, o Estado sulista independente que existiu de 1967 a 1990.

Parecia ser o movimento mais explícito até agora do STC em direção ao seu objetivo de longa data de independência. Na confusão que reina no sul nas últimas semanas, não estava claro qual impacto prático teria. Mas a declaração poderia comprometer esforços para evitar um conflito aberto entre os separatistas e o resto da coalizão liderada pela Arábia Saudita.

O Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos disse em um comunicado na sexta-feira que o país estava lidando com a situação “com moderação, coordenação e um compromisso deliberado com a desescalada, guiado por uma política externa que consistentemente prioriza a estabilidade regional sobre ações impulsivas”.

O Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos informou no início do sábado (3) que a retirada de suas tropas do Iêmen estava completa. Não forneceu detalhes sobre o número de soldados e equipamentos transferidos, mas houve múltiplos voos militares de carga emiradenses entrando e saindo do Iêmen nos últimos dias.

“As forças dos Emirados Árabes Unidos seguiram a implementação de uma decisão previamente anunciada para concluir as missões restantes das unidades de contraterrorismo”, disse um comunicado do Ministério da Defesa.
“O processo foi conduzido de maneira que garantiu a segurança de todo o pessoal e realizado em coordenação com todos os parceiros relevantes”, informava o mesmo comunicado.

Aviões sauditas atacam, enquanto combates continuam no sul

Trabalhadores iemenitas conversam em um mercado popular em Sanaa, Iêmen, na quinta-feira, 1º de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Osamah Abdulrahman

A coalizão liderada pela Arábia Saudita no Iêmen exige a retirada das forças do Escudo do Sul ligadas ao STC das duas províncias que tomaram, Hadramout e Mahra, como parte dos esforços de desescalada. O STC recusou-se até agora a entregar suas armas e acampamentos.

Combatentes apoiados pela Arábia Saudita, conhecidos como Forças do Escudo Nacional, avançaram sobre dois acampamentos do STC em Hadramout, disse um alto oficial do STC, Ahmed bin Breik, ex-governador da província. As forças separatistas se recusaram a recuar e, em resposta, aviões sauditas atacaram os acampamentos, afirmou ele.

Mohamed al-Nakib, porta-voz das forças apoiadas pelo STC, disse que os ataques causaram fatalidades, sem fornecer detalhes. A Associated Press não pôde verificar independentemente essa informação.

Ele disse à AP mais tarde na sexta-feira que “confrontos intensos” eclodiram entre suas forças e as forças do Escudo Nacional em várias áreas de Hadramout.

Não estava claro se as forças apoiadas pela Arábia Saudita conseguiram retomar os acampamentos.

Salem al-Khanbashi, o governador de Hadramout escolhido na sexta-feira (2) pelo governo iemenita reconhecido internacionalmente para comandar as forças lideradas pela Arábia Saudita na província, disse que a operação para retomar os acampamentos “não é uma declaração de guerra e não busca escalada”. Ele afirmou que era uma “medida preemptiva para remover armas”.

Tensões em escalada

Em postagem no X, o embaixador saudita no Iêmen, Mohammed al-Jaber, disse que o reino havia tentado “todos os esforços com o STC” por semanas “para deter a escalada” e instar os separatistas a deixar Hadramout e Mahra, apenas para enfrentar a “intransigência contínua e rejeição de Aidarous al-Zubaidi”.

Al-Jaber disse que o STC não permitiu que um jato de uma delegação saudita pousasse em Aden, apesar de ter acordado sua chegada com alguns líderes do STC para encontrar uma solução que sirva “a todos e ao interesse público”.

O Ministério dos Transportes do Iêmen, alinhado ao STC, disse que a Arábia Saudita impôs na quinta-feira (1) exigências que obrigam voos para e de Aden a passar por inspeção em Jidá. O ministério denunciou a decisão. Não houve confirmação das autoridades sauditas.

Um porta-voz do ministério dos transportes disse à AP no final da quinta-feira (1) que todos os voos de e para os Emirados Árabes Unidos foram suspensos até que a Arábia Saudita reverta essas medidas relatadas.


*Khaled reportou do Cairo. Redatores da Associated Press Bassem Mroue, em Beirute, e Jon Gambrell, em Dubai, Emirados Árabes Unidos, contribuíram para esta reportagem.

Autor

Associated Press
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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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