Sem sinais de novos protestos no Irã, enquanto um clérigo 'linha-dura' pede execuções

Havia mais de 3 mil mortes em decorrência da repressão do governo às manifestações, segundo dados consolidados até sexta-feira (16.jan.2026)

Sem sinais de novos protestos no Irã, enquanto um clérigo 'linha-dura' pede execuções
O clérigo iraniano Ahmad Khatami profere seu sermão durante a cerimônia de oração de sexta-feira em Teerã, Irã, na sexta-feira, 5 de janeiro de 2018 / Imagem: AP/Ebrahim Noroozi, Arquivo
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*Por Jon Gambrell e Farnoush Amiri

O fato principal

Enquanto o Irã voltava a uma calma tensa após uma onda de protestos reprimida com violência, um influente clérigo linha-dura pedia nesta sexta-feira (16.jan.2026) a aplicação da pena de morte a manifestantes detidos, com críticas aos Estados Unidos e a Israel.

Transmitido pela rádio estatal iraniana, o sermão do aiatolá Ahmad Khatami, que é membro da Assembleia de Especialistas e do Conselho Guardião do Irã, provocou gritos entre os fiéis reunidos para as orações, incluindo:

“Hipócritas armados devem ser condenados à morte!”​

Conhecido há anos por suas posições, Khatami descreveu os manifestantes como “mordomos” do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e “soldados" do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele disse que Netanyahu e Trump deveriam esperar “dura vingança do sistema.”​

“Americanos e sionistas não devem esperar paz”, afirmou o clérigo.​

A repressão dura do governo iraniano, que deixou milhares de mortos pelo país, parece ter conseguido sufocar as manifestações iniciadas em 28 de dezembro contra a economia combalida do país e que acabaram se transformando em protestos contra a própria teocracia iraniana.​

Não há sinais de protestos há dias em Teerã, onde o comércio e a vida nas ruas voltaram a uma aparência de normalidade, embora o bloqueio quase total da internet, imposto há uma semana, continue em vigor. As autoridades não relataram novos focos de agitação em outras partes do país.​

Contexto

O discurso de Khatami ocorreu num momento em que aliados tanto do Irã como dos Estados Unidos tentavam reduzir as tensões. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, falou nesta sexta-feira (16) com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, e com o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, de acordo com o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.​

A Rússia vinha se mantendo predominantemente em silêncio sobre os protestos, embora Putin tenha conversado sobre este assunto com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), numa ligação por telefone que os 2 tiveram. Nesta ocasião, ambos reforçaram a importância do multilateralismo e do fortalecimento do Brics para reduzir as tensões globais.

Moscou viu vários aliados estratégicos sofrerem reveses enquanto seus recursos e atenção estão consumidos pela guerra de 4 anos na Ucrânia, incluindo a queda do ex-presidente sírio Bashar Assad em 2024, os ataques dos EUA e de Israel ao Irã em 2025 e a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos neste mês, em 2026.​

Trump agora adota tom conciliador

Trump, por sua vez, adotou um tom mais conciliador, agradecendo aos líderes iranianos por não executarem centenas de manifestantes presos, em mais um indício de que ele pode estar recuando da ameaça de fazer um ataque militar.

“Irã cancelou o enforcamento de mais de 800 pessoas”, disse Trump a jornalistas em Washington, acrescentando:
“Tenho grande respeito pelo fato de terem cancelado.”​

Trump não esclareceu com quem falou no Irã para verificar a condição dessas execuções planejadas.​

As execuções, assim como a morte de manifestantes pacíficos, são duas das “linhas vermelhas” estabelecidas por Trump para uma eventual ação contra o Irã.​

Príncipe iraniano no exílio pede mais atos

Um manifestante fuma um cigarro após acendê-lo em um cartaz em chamas do Líder Supremo do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei, durante uma manifestação em Berlim, Alemanha, em apoio aos protestos em massa que ocorrem em todo o Irã contra o governo, na quarta-feira, 14 de janeiro de 2016 / Imagem: AP/Ebrahim Noroozi

Em contraposição, o príncipe herdeiro Reza Pahlavi, da antiga monarquia iraniana, atualmente no exílio, sugeriu que Trump deve enviar a prometida "ajuda" aos manifestantes do Irã. Pahlavi, cujo pai foi deposto pela Revolução Islâmica de 1979, disse que continua acreditando na palavra do presidente.​

“Acredito que o presidente é um homem de palavra”, afirmou Pahlavi a jornalistas em Washington.

Ele acrescentou que, “independentemente de haver ação ou não, nós, iranianos, não temos escolha senão continuar a luta.”​

“Eu voltarei ao Irã”, prometeu. Horas depois, convocou os manifestantes a voltar às ruas de sábado (17) a segunda-feira (19).​

Apesar do apoio de monarquistas mais fervorosos na diáspora, Pahlavi enfrenta dificuldades para conquistar apelo mais amplo dentro do Irã. Isso não o impediu, porém, de se apresentar como possível líder de transição caso o governo venha a cair.​

Autoridades iranianas detalham destruição nos protestos

Khatami, o clérigo linha-dura, também apresentou as primeiras estatísticas gerais sobre os danos causados pelos protestos. Disse que 350 mesquitas, 126 salões de oração e 20 outros locais sagrados sofreram danos. Outras 80 casas de líderes da oração de sexta-feira (um cargo importante dentro da teocracia iraniana) também teriam sido atacadas, num provável reflexo da raiva dos manifestantes contra símbolos do governo.​

Ele afirmou ainda que 400 hospitais, 106 ambulâncias, 71 veículos do corpo de bombeiros e outros 50 veículos de emergência também foram danificados.​

Mesmo com os protestos aparentemente sufocados dentro do Irã, milhares de iranianos no exílio e seus apoiadores têm tomado as ruas em cidades pela Europa para expressar sua revolta contra o governo da República Islâmica.​

A agência Human Rights Activists News Agency, sediada nos Estados Unidos, fixou na sexta-feira o número de mortos em 3.090. A quantidade é maior do que qualquer outra onda de protestos ou distúrbios no Irã em décadas e remete à Revolução de 1979, quando os aiatolás chegaram ao poder.

💡
Embora seja sediada nos Estados Unidos, a agência tem histórico de precisão ao longo de anos, com base numa rede de ativistas dentro do Irã que confirmam cada morte relatada.​

Iranianos driblam restrição à internet

Em meio ao apagão contínuo da internet, alguns iranianos cruzaram fronteiras para conseguir se comunicar com o resto do mundo. Em um posto de fronteira na província oriental de Van, na Turquia, um pequeno fluxo de iranianos que chegava nesta sexta-feira (16) dizia estar viajando justamente para contornar o bloqueio às comunicações.​

“Voltarei ao Irã depois que reabrirem a internet”, disse um viajante que se identificou apenas como Mehdi, por razões de segurança.​

Alguns cidadãos turcos que fugiam da turbulência no Irã também atravessaram a fronteira.​

Mehmet Önder, 47, estava em Teerã para tratar de negócios no setor têxtil quando os protestos começaram. Ele contou que permaneceu escondido em seu hotel até que o local foi fechado por motivos de segurança. Depois, ficou na casa de um cliente até conseguir voltar à Turquia.​

Embora não tenha saído às ruas, Önder disse ter ouvido tiros intensos.​

“Eu conheço o som das armas, porque servi no Exército no sudeste da Turquia. As armas que estavam disparando não eram armas simples. Eram metralhadoras”, afirmou.​

Tensão escala na região

Num sinal do potencial do conflito transbordar fronteiras, um grupo separatista curdo no Iraque afirmou que começou nos últimos dias a realizar ataques contra a Guarda Revolucionária do Irã, uma força paramilitar do país, em retaliação à repressão de Teerã aos protestos.​

Um representante do PAK (Partido da Liberdade do Curdistão) disse que seus membros “têm desempenhado um papel nos protestos, tanto com apoio financeiro quanto com operações armadas para defender manifestantes quando necessário”.

O grupo afirmou que os ataques foram conduzidos por integrantes de seu braço militar baseados dentro do Irã.​


*Amiri contribuiu para esta reportagem de Nova York. Os jornalistas da Associated Press Will Weissert e Darlene Superville, em Washington, e Serra Yedikardes, no posto fronteiriço de Kapikoy, na Turquia, também contribuíram.


O que mais estamos lendo

Who is Ahmad Khatami? Senior Iranian Hardline Cleric Calling for Execution of Protesters, Threatening Trump & Israel
Iranian cleric Ahmad Khatami demands execution of protesters, threatens Trump and Israel as nationwide unrest escalates amid severe government crackdown.

Autor

Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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