Protestos no Irã: número de mortos chega a 116
Companhias aéreas cancelaram voos, internet foi cortada e poucos canais de imprensa ainda conseguem operar no país
*Por Jon Gambrell / Associated Press
O principal
Os protestos no Irã chegaram neste domingo (11.jan.2026) à marca de duas semanas, enquanto o número de mortos em episódios de violência ligados às manifestações chegou a pelo menos 116, de acordo com ativistas.
Com a internet fora do ar no Irã e as linhas telefônicas cortadas, tornou-se ainda mais complexo, do exterior, dimensionar os protestos.
No entanto, o saldo das manifestações já chega a 116 mortos e mais de 2.600 detidos, de acordo com a Human Rights Activists News Agency, com sede nos Estados Unidos, que apresentou dados precisos em várias ondas anteriores de agitação no país.
A TV estatal iraniana noticia baixas entre as forças de segurança e diz que mantém o controle do país, sem mencionar manifestantes mortos, aos quais tem chamado de “terroristas”. Ainda assim, o canal reconheceu que os protestos continuaram até a manhã de domingo, com atos em Teerã e na cidade sagrada de Mashhad, no nordeste.
Teerã elevou o tom das ameaças de maior repressão aos manifestantes no sábado (10.jan), quando o procurador-geral Mohammad Movahedi Azad avisou que qualquer pessoa que participe dos protestos será considerada “inimiga de Deus”, acusação que pode levar à pena de morte. O comunicado, divulgado pela TV estatal, afirmou ainda que até quem “ajudar os desordeiros” poderá ser enquadrado no mesmo crime.
“Os promotores devem, de maneira cuidadosa e sem demora, por meio da emissão de acusações formais, preparar o terreno para o julgamento e o enfrentamento decisivo daqueles que, ao trair a nação e criar insegurança, buscam a dominação estrangeira sobre o país. Os processos devem ser conduzidos sem brandura, compaixão ou indulgência”, dizia o texto.
O presidente dos EUA, Donald Trump, demonstrou apoio aos manifestantes, afirmando nas redes sociais:
“O Irã está olhando para a LIBERDADE, talvez como nunca antes. Os EUA estão prontos para ajudar!!!”
Os jornais norte-americanos The New York Times e o Wall Street Journal informaram, citando autoridades norte-americanas sob anonimato, que Trump recebeu opções militares para um ataque ao Irã, mas ainda não tomou uma decisão final.
O Departamento de Estado, em mensagem separada, declarou:
“Não brinquem com o presidente Trump. Quando ele diz que fará algo, ele fala sério.”
O que dizem os poucos canais de imprensa que ainda estão em operação
O sábado (10) marcou o início da semana de trabalho no Irã, mas muitas escolas e universidades deram aulas online, segundo a TV estatal.
Sites internos do governo iraniano continuam funcionando, apesar do corte do acesso à internet e às ligações internacionais na quinta-feira (8). Alguns veículos estatais e semioficiais também continuam em funcionamento.
Financiada pelo Catar, a rede Al Jazeera vem fazendo transmissões ao vivo do Irã, mas parece ser o único grande veículo estrangeiro com operação no país.
A TV estatal exibiu no sábado (10), repetidamente, um arranjo orquestral marcial da peça “Épico de Khorramshahr”, do compositor iraniano Majid Entezami, enquanto mostrava manifestações pró-governo.
A música, veiculada com frequência durante a guerra de 12 dias iniciada por Israel em 2025, celebra a libertação de Khorramshahr em 1982, na guerra Irã-Iraque.
A mesma música também já foi usada em vídeos de mulheres cortando os cabelos em protesto após a morte de Mahsa Amini, em 2022.
O canal estatal também exibiu várias vezes imagens de supostos manifestantes atirando com armas de fogo contra forças de segurança.
Em um vídeo online verificado pela Associated Press, manifestantes protestaram na sexta-feira (9) na região de Saadat Abad, no norte de Teerã. Parecia haver milhares de pessoas nas ruas.
“Morte a Khamenei!”, gritava um homem, em referência ao líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei.
A agência semioficial Fars, considerada próxima à Guarda Revolucionária iraniana e uma das poucas mídias autorizadas a publicar para o exterior, divulgou imagens de câmeras de segurança que disse serem de protestos em Isfahan.
Nessas imagens, um manifestante aparece disparando um fuzil, enquanto outros ateiam fogo e lançam coquetéis molotov contra o que parece ser um complexo governamental.
Associado à TV estatal, o Young Journalists’ Club noticiou que manifestantes mataram 3 membros da Força Voluntária Basij, ligada à Guarda Revolucionária do Irã, na cidade de Gachsaran.
O Young Journalists’ Club também relatou que:
- 1 agente de segurança foi esfaqueado até a morte na província de Hamadan;
- 1 policial foi morto na cidade portuária de Bandar Abbas;
- 1 policial foi morto na província de Gilan; e
- 1 outro agente morreu em Mashhad.
A agência semioficial Tasnim, também próxima à Guarda, afirmou que as autoridades detiveram quase 200 pessoas que fariam parte de supostos “grupos terroristas operacionais”.
De acordo com a Tasnim, essas pessoas estariam em posse de armas de fogo, granadas e coquetéis molotov.
A TV estatal ainda exibiu imagens de um funeral com a participação de centenas de pessoas em Qom, cidade seminária xiita ao sul de Teerã.
Mais contexto
O príncipe herdeiro exilado Reza Pahlavi, que havia convocado protestos para quinta (8) e sexta-feira (9), pediu em sua mensagem mais recente que manifestantes voltassem às ruas no sábado (10) e no domingo (11). Ele incentivou os participantes a levarem a antiga bandeira iraniana com o leão e o sol e outros símbolos nacionais do período do xá* para “reconquistar os espaços públicos”.
O apoio de Pahlavi a Israel –e o apoio que recebe de Israel– já provocou críticas no passado, especialmente depois da guerra de 12 dias. Em alguns atos, manifestantes gritaram palavras de ordem em apoio ao xá, embora não esteja claro se isso representa apoio direto a Pahlavi ou o desejo de voltar a um período anterior à Revolução Islâmica de 1979.
As manifestações começaram em 28 de dezembro, após o colapso da moeda iraniana, o rial, que passou a ser negociado a mais de 1,4 milhão por 1 dólar, num contexto de economia estrangulada por sanções internacionais, em parte impostas por causa do programa nuclear do país. Os protestos se intensificaram e se transformaram em atos que desafiam diretamente a teocracia iraniana.
Cancelamento de voos
Companhias aéreas cancelaram alguns voos para o Irã devido aos protestos. A Austrian Airlines informou no sábado (10) que decidiu suspender seus voos para o país “como medida de precaução” até segunda-feira (12). A Turkish Airlines já havia anunciado o cancelamento de 17 voos para 3 cidades iranianas.
Enquanto isso, cresce a preocupação de que o bloqueio da internet abra caminho para uma repressão sangrenta das forças de segurança, como ocorreu em outras ondas de protestos.
Ali Rahmani, filho da laureada com o Nobel da Paz Narges Mohammadi –que está presa no Irã– lembrou que, em manifestações em 2019, as forças de segurança mataram centenas de pessoas, “então só podemos temer o pior”.
“Eles estão lutando e perdendo suas vidas contra um regime ditatorial”, disse Rahmani.
*Os jornalistas da Associated Press, Oleg Cetinic, em Paris, e Kirsten Grieshaber, em Berlim, contribuíram para esta reportagem.
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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
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