Procurador iraniano nega que 800 prisioneiros tenham sido poupados da execução, como disse Trump

Por outro lado, o promotor também não confirmou que as execuções irão ocorrer. Ele defendeu que as instituições do país têm independência e não seguem orientações estrangeiras.

Procurador iraniano nega que 800 prisioneiros tenham sido poupados da execução, como disse Trump
Pessoas caminham pelo histórico Grande Bazar de Teerã, na terça-feira, 20 de janeiro de 2026, no Irã / Imagem: AP/Vahid Salemi
Índice

*Por Jon Gambrell

O fato principal

O principal promotor do Irã, Mohammad Movahedi, disse nesta sexta-feira (23.jan.2026) que são "completamente falsas" as declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o país ter desistido de enforcar cerca de 800 manifestantes detidos pelos protestos generalizados que ocorriam desde 28 de dezembro de 2025.

“Essa afirmação é completamente falsa; não existe tal número, nem o Judiciário tomou qualquer decisão nesse sentido”, disse Movahedi em comentários divulgados pela agência Mizan, ligada ao Judiciário.​

Trump deu sucessivas declarações sobre uma eventual desistência do Irã em executar manifestantes, mas não detalhou a origem da informação.

Liderado por Abbas Araghchi, o Ministério das Relações Exteriores do Irã (e o próprio Araghchi) tem linha direta com o enviado especial dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff, e conduziu várias rodadas de negociações com ele sobre o programa nuclear iraniano.​

No entanto, não ficou clara se esta seria a fonte de Trump. E Movahedi declarou que as ameaças dos Estados Unidos não interferem nas decisões internas do Irã:

“Temos separação de Poderes, as responsabilidades de cada instituição são claramente definidas e não, em hipótese alguma, recebemos instruções de potências estrangeiras.”​

Autoridades do Judiciário classificaram alguns dos detidos como “mohareb”, que significa “inimigos de Deus”. Esta acusação é passível de pena de morte no país e já foi usada, junto com outros tipos penais, para realizar execuções em massa em 1988, que teriam matado ao menos 5.000 pessoas.

Em uma sessão especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre o Irã, realizada em Genebra nesta sexta-feira (23), o alto-comissário da ONU para direitos humanos Volker Türk manifestou preocupação com “declarações contraditórias das autoridades iranianas sobre se os detidos em conexão com os protestos podem ser executados”.

Ele afirmou que o Irã “continua entre os países que mais executam no mundo”, com ao menos 1.500 pessoas supostamente executadas no ano passado, 2025, um aumento de 50% em relação a 2024.​

Enquanto isso, Mohammad Javad Haji Ali Akbari, líder das orações de sexta-feira em Teerã, declarou que Trump é um homem “de rosto amarelo, cabelo amarelo e desgraçado”, que seria “como um cachorro que só ladra”.​

“Aquele homem tolo recorreu a ameaças contra a nação, especialmente pelo que disse sobre o líder do Irã. “Se algum dano vier a ocorrer, todos os seus interesses e bases na região se tornarão alvos claros e precisos das forças iranianas, declarou o clérigo em comentários transmitidos pela rádio estatal iraniana.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã atacou uma resolução do Parlamento Europeu aprovada na quinta-feira (22), que condenou a “repressão e os assassinatos em massa perpetrados pelo regime iraniano contra manifestantes no Irã”.

A resolução pediu a libertação dos detidos e instou o Conselho Europeu a designar a Guarda Revolucionária iraniana, força paramilitar central na repressão, como organização terrorista.​

O ministério expressou “forte repulsa às afirmações insultuosas” da resolução. Em comunicado divulgado nesta sexta-feira (23), afirmou que “qualquer decisão ou posição ilegal ou intervencionista relativa às forças armadas da República Islâmica do Irã e aos defensores da segurança do país será respondida com medidas recíprocas por parte do Irã, e a responsabilidade pelas consequências recairá sobre aqueles que iniciaram tais ações”.​

Número de mortos aumenta

O novo balanço de mortos divulgado pela Human Rights Activists News Agency, entidade com sede nos EUA, informou que mais de 5.032 manifestantes foram mortos. A organização acrescentou que mais de 27.600 pessoas foram detidas.

O total de mortos supera o de qualquer outro ciclo de protestos ou distúrbios no país em décadas e remete aos dados da Revolução Islâmica de 1979.

Ativistas ainda acreditam que a quantidade real de mortes seja muito maior. Isso porque há dificuldades para confirmar informações, já que o governo do Irã derrubou a internet do país há 2 semanas.

Já o governo iraniano divulgou na quarta-feira (21) o seu 1º balanço oficial sobre os protestos, no qual assume que 3.117 pessoas foram mortas.

O boletim acrescentou que 2.427 dos mortos nas manifestações iniciadas em 28 de dezembro eram civis e integrantes das forças de segurança. O restante, “terroristas”.

Deslocamento de navios de guerra dos EUA

O exército americano, por sua vez, deslocou mais meios militares para o Oriente Médio, incluindo o porta-aviões USS Abraham Lincoln e os navios de guerra que o acompanham, que deixaram o Mar do Sul da China.

Um oficial da Marinha dos EUA, que falou sob condição de anonimato para discutir movimentos militares, disse na quinta-feira (22) que o grupo de ataque do Lincoln está no Oceano Índico.

Trump afirmou na quinta-feira (22), a bordo do Air Force One, que os EUA estão movendo os navios na direção do Irã “apenas no caso” de ele decidir agir.

“Temos uma frota massiva seguindo nessa direção e talvez não precisemos usá-la”, disse.

Trump também mencionou as várias rodadas de conversas que autoridades americanas mantiveram com o Irã sobre seu programa nuclear antes de Israel lançar uma guerra de 12 dias contra a República Islâmica, em junho, na qual aviões de guerra dos EUA bombardearam instalações nucleares iranianas.

O presidente norte-americano ameaçou o Irã com uma ação militar que faria ataques anteriores dos EUA contra instalações de enriquecimento de urânio “parecerem amendoins”.

“Eles deveriam ter fechado um acordo antes de os atingirmos”, disse Trump.

O Ministério da Defesa do Reino Unido informou, separadamente, que seu esquadrão conjunto de caças Eurofighter Typhoon com o Catar, o 12º Esquadrão, “foi deslocado para o Golfo (Pérsico) para fins defensivos, em razão das tensões regionais”.​

Analistas afirmam que uma escalada militar pode dar a Trump a opção de realizar ataques, embora até agora ele tenha evitado isso, limitando-se a repetir ameaças a Teerã.

A execução em massa de prisioneiros era uma das "linhas vermelhas" estabelecidas por Trump –que não deveriam ser cruzadas, a fim de evitar o uso de força militar. A outra era a morte de manifestantes pacíficos.

“O presidente Trump agora parece ter recuado, provavelmente sob pressão de líderes regionais e ciente de que ataques aéreos sozinhos seriam insuficientes para derrubar o regime; no entanto, ativos militares continuam sendo deslocados para a região, indicando que uma ação cinética ainda pode ocorrer”, disse o Soufan Center, um think tank com sede em Nova York, em uma análise divulgada nesta sexta-feira (23).​

*Konstantin Toropin, em Washington, Geir Moulson, em Berlim, e Melanie Lidman, em Tel Aviv, Israel, contribuíram para este relato.

Autor

Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

Inscreva-se nas newsletters do Correio Sabiá.

Mantenha-se atualizado com nossa coleção selecionada das principais matérias.

Por favor, verifique sua caixa de entrada e confirme. Algo deu errado. Tente novamente.

Participe para se juntar à discussão.

Por favor, crie uma conta gratuita para se tornar membro e participar da discussão.

Já tem uma conta? Entrar

Inscreva-se nas newsletters do Correio Sabiá.

Mantenha-se atualizado com nossa coleção selecionada das principais matérias.

Por favor, verifique sua caixa de entrada e confirme. Algo deu errado. Tente novamente.