Primeira-ministra do Japão anuncia dissolução do Parlamento para convocar eleições antecipadas
Takaichi pretende aproveitar sua popularidade para reconquistar assentos perdidos na Câmara Baixa e buscar apoio para suas políticas
*Por Mari Yamaguchi
O fato principal
A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, anunciou nesta segunda-feira (19.jan.2026) a dissolução da Câmara Baixa do Parlamento para convocar eleições antecipadas e buscar o apoio popular para suas políticas.
A medida entra em vigor na sexta-feira (23.jan), que é a data da 1ª sessão ordinária do Parlamento neste ano. Isso abre caminho para eleições antecipadas já em 8 de fevereiro.
"Hoje, eu, como primeira-ministra, decidi dissolver a Câmara Baixa em 23 de janeiro (...) Sanae Takaichi é apta para ser primeira-ministra? Eu quis pedir ao povo soberano que decida", disse ela.
Informações antecipadas
Shunichi Suzuki, secretário-geral do partido da premiê, o PLD (Partido Liberal Democrático), disse a jornalistas na última quarta-feira (14.jan) que Takaichi informou a ele e a outros altos funcionários que planejava dissolver a Câmara Baixa "em breve".
Naquela ocasião, Suzuki não especificou datas para a dissolução ou para as eleições antecipadas. Afirmou que Takaichi explicaria seus planos em uma coletiva de imprensa na segunda-feira (19).
Contexto
Eleita em 21 de outubro de 2025, Takaichi é a 1ª mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Japão. A convocação de eleições antecipadas é uma tentativa de capitalizar seus altos índices de aprovação, em torno de 70%, para ajudar seu partido governista, que enfrenta dificuldades, a conquistar mais cadeiras.
O Partido Liberal Democrático, marcado por escândalos (*detalhes abaixo, neste conteúdo), e sua coalizão têm uma pequena maioria na Câmara Baixa, que é a mais poderosa do Parlamento japonês.
Com a antecipação das eleições, Takaichi tenta garantir uma maior participação para o PLD e seu novo parceiro minoritário.
Parlamentares da oposição criticaram o plano. Dizem que é uma manobra egoísta que atrasa a discussão parlamentar sobre o orçamento, que precisa ser aprovado o mais rápido possível.
Takaichi busca o apoio popular para suas políticas, incluindo gastos fiscais "proativos", e planeja acelerar ainda mais o atual programa de fortalecimento militar sob a coalizão com um novo parceiro, o PIJ (Partido da Inovação do Japão), afirmou Suzuki.
O conservador PIJ juntou-se ao bloco governista após a saída do centrista Komeito devido a divergências sobre as visões ideológicas de Takaichi e as medidas anticorrupção.
Takaichi se reuniu com Suzuki e outros membros da coalizão na quarta-feira, após conversas em Nara (cidade histórica e turística do Japão) com o presidente sul-coreano Lee Jae-myeung, em uma cúpula destinada a estreitar os laços entre os países vizinhos.
O estreitamento de laços ocorre num momento de instabilidade comercial entre os países. Takaichi deu uma declaração sobre Taiwan que irritou a China, dias após sua posse.
Aprovação do orçamento
Vencer as próximas eleições ajudaria Takaichi e seu bloco governista a aprovar o orçamento e outras leis com mais facilidade.
No final de dezembro, seu gabinete aprovou um orçamento recorde de 122,3 trilhões de ienes (US$ 770 bilhões), que precisa ser chancelado antes do início do próximo ano fiscal, que começa em abril, para financiar medidas de combate à inflação, apoio a famílias de baixa renda e projetos para impulsionar o crescimento econômico.
Conhecida por suas posições nacionalistas e por seu conservadorismo em questões sociais, como gênero e diversidade sexual, Takaichi busca reconquistar os eleitores conservadores que foram atraídos por partidos populistas nas últimas eleições.
Escândalos políticos do PLD
O Partido Liberal Democrático do Japão tem sido abalado por uma série de escândalos financeiros e políticos, que resultaram na perda da maioria absoluta na Câmara Baixa (Câmara dos Representantes) nas eleições de outubro de 2024, após décadas de domínio quase ininterrupto.
Eis os principais escândalos que marcaram o partido recentemente:
- Escândalo do "Caixa 2" e fundos bão declarados (Slush Fund Scandal - 2023-2024): Este foi o maior escândalo político das últimas décadas no Japão. Investigadores descobriram que várias facções do PLD, principalmente a maior delas (anteriormente liderada por Shinzo Abe), não declararam centenas de milhões de ienes provenientes de festas de arrecadação de fundos.
- Comissões ilegais e propina: Membros do partido teriam acumulado fundos de forma ilegal, transformando o dinheiro não declarado em um "caixa 2" para uso pessoal ou político, violando a Lei de Controle de Fundos Políticos.
- Renúncia de ministros (dezembro de 2023): Em consequência direta do escândalo de subornos e fundos secretos, 4 ministros de alto escalão do governo do então primeiro-ministro Fumio Kishida renunciaram, incluindo o chefe de gabinete, o ministro da Economia, o da Agricultura e o do Interior.
- Dissolução de alas partidárias: O escândalo foi tão grave que várias alas poderosas do PLD, incluindo a de Kishida, anunciaram sua própria dissolução em janeiro de 2024 na tentativa de conter o dano à própria imagem.
- Vínculos com a Igreja da Unificação: Após o assassinato do ex-premiê Shinzo Abe em 2022, vieram à tona ligações profundas entre membros do PLD e a Igreja da Unificação (conhecida por práticas de doações coercitivas), gerando indignação pública e desconfiança contínua.
Autores
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
Primeira organização de notícias do Brasil criada no WhatsApp, em 2018, para combater a desinformação.
Inscreva-se nas newsletters do Correio Sabiá.
Mantenha-se atualizado com nossa coleção selecionada das principais matérias.