Presidente de Uganda garante seu 7º mandato; oposição fala em fraude

Pane de máquinas com identificação biométrica levou fiscais eleitorais a usarem registros em papel, o que frustrou ativistas pró-democracia que pediam os equipamentos para tentar evitar fraudes

Presidente de Uganda garante seu 7º mandato; oposição fala em fraude
Apoiadores do presidente ugandense Yoweri Museveni comemoram sua vitória na eleição presidencial em Kampala, Uganda, no sábado, 17 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Brian Inganga
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*Por Rodney Muhumuza / Associated Press

O fato principal

O presidente de Uganda, Yoweri Museveni, garantiu seu 7º mandato com 71,65% dos votos, de acordo com os resultados oficiais divulgados neste sábado (17.jan.2026), após uma eleição marcada por um corte prolongado de internet e denúncias de fraude por seu jovem adversário, que rejeitou o resultado e convocou protestos pacíficos.

O músico convertido em político, mais conhecido como Bobi Wine –cujo nome real é Kyagulanyi Ssentamu–, obteve 24,72% dos votos, segundo os números finais. A participação foi de 52%, a menor desde o retorno à política multipartidária em 2006.

'Processo eleitoral injusto', diz opositor

Wine condenou o que classificou como um "processo eleitoral injusto" e falou que seus fiscais eleitorais foram "sequestrados" antes mesmo do início da votação em partes do país, situado na África Oriental.

O opositor afirmou que rejeita os “resultados falsos” e pediu aos ugandeses que protestassem pacificamente até que os “resultados legítimos” fossem anunciados.

Wine afirmou ter fugido para evitar ser preso, depois que as forças de segurança do país invadiram a sua casa na noite de sexta-feira (16).

As forças de segurança tiveram presença constante na campanha, e Wine acusou as autoridades de segui-lo e de hostilizar seus apoiadores com gás lacrimogêneo. Ele fez campanha usando colete à prova de balas e capacete por temer pela própria segurança.

Já o porta-voz da polícia, Kituuma Rusoke, disse que Wine “não está preso” e pode sair de casa livremente, mas há “acesso controlado” ao local para evitar que outros entrem na propriedade e incitem violência.

Autoridades eleitorais enfrentam questionamentos sobre a falha das máquinas biométricas de identificação de eleitores na quinta-feira (15), que causou atrasos no início da votação em áreas urbanas –incluindo a capital, Kampala–, redutos da oposição.

Após a pane, os fiscais usaram registros em papel, em um revés para ativistas pró-democracia que exigiam as máquinas para evitar fraudes.

A falha das máquinas deve servir de base para eventuais contestações judiciais ao resultado oficial.

Wine não disse se acionará os tribunais, que já rejeitaram pedidos oposicionistas para anular vitórias de Museveni em eleições anteriores. As cortes apenas recomendaram reformas eleitorais.

Museveni concordou com o plano da comissão eleitoral de recorrer a registros em papel, mas Wine denunciou fraude, alegando “enchimento massivo de urnas” e sequestro de fiscais de seu partido para favorecer o governismo.

O que disseram os observadores eleitorais

O chefe da missão de observadores da União Africana, o ex-presidente nigeriano Goodluck Jonathan, disse a jornalistas no sábado que a equipe não encontrou “evidências de enchimento de urnas” nas seções observadas. Ele tinha pedido testes prévios das máquinas biométricas para evitar panes e atrasos.

Alguns observadores locais foram mais críticos, chamando a falha das máquinas de sinal de alerta. Além disso, o clima eleitoral foi marcado por “medo e tensão entre os eleitores, e algumas pessoas simplesmente optaram por não participar”, disse o diretor da Foundation for Human Rights Initiative, Livingstone Sewanyana.

Presidente altera regras para se perpetuar no poder

Museveni, de 81 anos, altera regras para se manter no poder em Uganda. Dos presidentes da África, é o 3º com mandato mais longo.

Os últimos obstáculos legais, como limites de mandato e idade, foram removidos da Constituição. Além disso, possíveis adversários foram presos ou afastados.

O presidente não disse quando se aposentará e não tem concorrentes nas fileiras superiores de seu partido.

O veterano oposicionista Kizza Besigye, que foi 4 vezes candidato presidencial, segue preso sob acusação de traição. Ele diz que a detenção tem motivação política.

Yusuf Serunkuma, acadêmico e colunista do jornal Observer, disse à Associated Press no sábado (17) que Wine “não tinha chance” contra o autoritário Museveni, que é quem nomeia a comissão eleitoral.

“Ele emasculou com sucesso a oposição”, afirmou Serunkuma sobre Museveni.

Mesmo com o desafio de Wine, o presidente enfrentou “uma das oposições mais fracas” recentemente, em parte porque oposicionistas não estão unidos, enquanto Museveni é o líder inconteste de seu partido e controla as Forças Armadas.

Para implementar o corte de internet, que vigorou de terça (13) à tarde de sábado (17), a Uganda Communications Commission ordenou que provedores suspendessem o acesso por uma suposta ameaça à segurança nacional.

As empresas acataram, apesar da ordem carecer de peso legal, sem declaração de emergência.

Uganda nunca viu uma transição pacífica de poder presidencial desde a independência do domínio colonial britânico, há 6 décadas.

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Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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