Polícia migratória de Trump mata um homem a tiros em operação em Minneapolis
Episódio que novamente envolve o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) é o 2º com morte em 2026 até agora
*Por Jack Brook, Steve Karnowski e Rebecca Santana
O fato principal
Um agente federal de imigração do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, em tradução da sigla, em inglês) atirou e matou um homem neste sábado (24.jan.2026) na cidade de Minneapolis, no estado do Minnesota.
Familiares identificaram o homem morto como Alex Pretti, um enfermeiro de UTI de 37 anos que protestou contra a repressão à imigração do presidente Donald Trump em sua cidade.
Repercussão

Após a morte de Alex Pretti, uma multidão furiosa se reuniu. Manifestantes entraram em confronto com agentes federais de imigração, que empunhavam cassetetes e lançaram bombas de efeito moral.
Tropas da Guarda Nacional de Minnesota foram enviadas tanto para o local dos tiros que mataram Alex quanto para um prédio federal onde autoridades têm enfrentado manifestantes diariamente, em auxílio à polícia local, por ordem do governador democrata Tim Walz (opositor de Trump).
O chefe de polícia de Minneapolis, Brian O’Hara, disse que as informações sobre os motivos que teriam levado ao "tiroteio" eram limitadas. O’Hara disse que a polícia acredita que o homem era um “proprietário legal de arma, com permissão para portar”.
Já a porta-voz do Departamento de Segurança Interna (vinculado ao governo Trump), Tricia McLaughlin, afirmou em comunicado que agentes federais realizavam uma operação e dispararam “tiros defensivos” depois que um homem (Alex Pretti) com uma arma de fogo se aproximou deles e “resistiu violentamente” quando os agentes tentaram desarmá‑lo.
A secretária do DHS (Departamentos de Defesa e de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos), Kristi Noem, afirmou em uma coletiva de imprensa que Pretti apareceu para “impedir uma operação de aplicação da lei”. Ela questionou por que ele estava armado, mas não deu detalhes sobre se Pretti sacou a arma ou a apontou para os agentes.
Em vídeos gravados por testemunhas, Alex Pretti é visto com um telefone na mão. Nenhuma imagem até agora confirma a versão oficial de que ele estivesse com uma arma. Pretti foi morto quando estava no chão, imobilizado por diversos agentes. Foi assim que um deles, veterano da Patrulha de Fronteira com 8 anos de serviço, abriu os disparos.
Trump se manifestou nas redes sociais com ataques ao governador Walz e ao prefeito de Minneapolis, sem mencionar pesar pelo homem morto. Compartilhou imagens da arma que, segundo autoridades de imigração, foi apreendida. E disse:
“O que é isso tudo? Onde está a polícia local? Por que não lhes foi permitido proteger os agentes do ICE?”
Trump, que é republicano, disse que o governador e o prefeito democratas “estão incitando uma insurreição com sua retórica pomposa, perigosa e arrogante”.
Pretti foi morto a pouco mais de 1 quilômetro de onde um agente do ICE atirou e matou Renee Good, mulher de 37 anos, há pouco mais de 15 dias (em 7 de janeiro de 2026), o que desencadeou protestos em massa.
A família de Pretti divulgou um comunicado na noite de sábado (24) dizendo que está “de coração partido, mas também muito furiosa”. Descreveu-o como uma pessoa bondosa que queria fazer a diferença no mundo por meio de seu trabalho como enfermeiro.
“As mentiras repugnantes contadas sobre nosso filho pelo governo são repreensíveis e nojentas. Alex claramente não está segurando uma arma quando é atacado pelos covardes e assassinos do ICE de Trump. Ele está com o telefone na mão direita e a mão esquerda levantada acima da cabeça enquanto tenta proteger a mulher que o ICE acaba de empurrar, tudo isso enquanto é atingido por spray de pimenta”, diz o comunicado da família.
“Por favor, divulguem a verdade sobre nosso filho. Ele era um homem bom.”
O chefe de polícia fez um apelo por calma, tanto ao público quanto às forças federais.
“Nosso pedido hoje é para que essas agências federais que estão atuando em nossa cidade o façam com a mesma disciplina, humanidade e integridade que a aplicação efetiva da lei neste país exige. Pedimos a todos que permaneçam pacíficos”, disse o chefe.
Gregory Bovino, da Patrulha de Fronteira dos EUA, que comanda a campanha de imigração do governo Trump nas grandes cidades, disse que o agente que atirou no homem tinha amplo treinamento como instrutor de tiro e em uso de força menos letal.
“Esse é apenas o mais recente ataque às forças da lei. Em todo o país, homens e mulheres do DHS têm sido atacados, alvejados a tiros”, afirmou.
Vídeo mostra agentes e o homem que levou o tiro

Em um vídeo do tiroteio deste sábado, gravado por um transeunte e obtido pela Associated Press, é possível ouvir manifestantes assobiando e gritando palavrões para agentes federais na Nicollet Avenue.
O vídeo mostra um agente empurrando uma pessoa que veste um casaco marrom, saia e meia‑calça preta e carrega uma garrafa de água. Essa pessoa estende a mão para um homem, e os 2 se agarram, se abraçando. O homem, usando um casaco marrom e um gorro preto, parece estar erguendo o telefone na direção do agente.
O mesmo agente empurra o homem no peito, e os 2, ainda abraçados, caem para trás.
O vídeo então muda para outra parte da rua e depois retorna aos 2 indivíduos, que se separam. O foco da câmera muda de novo e, em seguida, mostra 3 agentes cercando o homem.
Logo, pelo menos 7 agentes o cercam. Um está sobre as costas do homem, e outro, que parece segurar um spray ou um bastão na mão, desfere um golpe no peito dele. Vários agentes tentam puxar os braços do homem para trás, enquanto ele parece resistir. Ao puxarem seus braços, seu rosto aparece brevemente na câmera. O agente com o dispositivo na mão atinge o homem perto da cabeça várias vezes.
Ouve‑se 1 disparo, mas, com os agentes cercando o homem, não fica claro de onde veio o tiro. Vários agentes recuam após o disparo. Ouve‑se mais tiros. Os agentes recuam e o homem fica imóvel no asfalto.
Governador fala em 'campanha de brutalidade' do ICE

Walz disse que não tem confiança nas autoridades federais e que o estado vai liderar a investigação sobre o mais recente tiroteio fatal. Ele divulgou uma declaração no sábado (24) classificando a aplicação das leis de imigração como "brutalidade organizada".
"A ocupação federal de Minnesota há muito deixou de ser uma questão de aplicação das leis de imigração. É uma campanha de brutalidade organizada contra o povo do nosso estado. E hoje, essa campanha ceifou mais uma vida", disse Walz.
Ele afirmou que o estado, e não o governo federal, conduzirá a investigação sobre a morte de Alex Pretti, de 37 anos.
"Os cidadãos de Minnesota e nossas forças policiais locais fizeram tudo o que podiam para reduzir a tensão. O governo federal precisa reduzir a tensão. Apelo mais uma vez ao Presidente para que retire os 3.000 agentes de Minnesota que estão semeando o caos e a violência."
Superintendente do Departamento de Apreensão Criminal de Minnesota, Drew Evans afirmou em coletiva de imprensa que agentes federais bloquearam sua agência na cena do crime, mesmo depois de obter um mandado judicial assinado.
Em meio à agitação, o líder da maioria democrata no Senado, Chuck Schumer, disse que os democratas não votarão um pacote de gastos que inclua dinheiro para o DHS.
A declaração de Schumer aumenta a possibilidade de que o governo possa entrar em paralisação parcial em 30 de janeiro, quando o financiamento acaba.
Protestos continuam mesmo com frio extremo

Manifestantes se reuniram no local do tiroteio, apesar do frio extremo. No meio do dia de sábado, o pior da onda de frio extremo já havia passado, mas a temperatura ainda era de -21°C.
Após o tiroteio, uma multidão furiosa se reuniu e gritou palavrões para os agentes federais, chamando-os de “covardes” e mandando que fossem embora. Um agente respondeu com ironia enquanto se afastava.
Agentes em outro ponto empurraram um manifestante que gritava para dentro de um carro. Manifestantes arrastaram contêineres de lixo de becos para bloquear as ruas, e as pessoas que se reuniram entoaram frases como “ICE out now” e “observar o ICE não é crime”.
Quando escureceu, centenas de pessoas se reuniram em silêncio diante de um memorial crescente no local do tiroteio. Algumas carregavam cartazes dizendo “Justiça para Alex Pretti”. Outras entoavam os nomes de Pretti e Good.
Uma loja de donuts e uma loja de roupas próximas permaneceram abertas, oferecendo aos manifestantes um lugar aquecido, além de água, café e lanches.
Caleb Spike, que saiu de um subúrbio próximo para demonstrar apoio e expressar sua frustração, declarou:
“Parece que todo dia acontece algo mais absurdo. O que está acontecendo em nossa comunidade é errado, é revoltante, é repugnante.”
Autor
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.