Poder e petróleo na Venezuela

Apesar de capturar Maduro, EUA mantiveram partido do presidente deposto no comando da Venezuela. Enquanto isso, Trump anunciou que vai receber até 50 milhões de barris de petróleo venezuelano a preço de custo.

Poder e petróleo na Venezuela
Um morador local passa por um mural que retrata bombas e poços de petróleo em Caracas, Venezuela, na terça-feira, 6 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Matias Delacroix
Índice

Resumo

O presidente dos EUA, Donald Trump, declarou que seu país deve receber até 50 milhões de barris de petróleo da Venezuela a preço de mercado. O valor do lucro das vendas da commodity, segundo Trump, deve ser usado para "beneficiar" as populações dos 2 países.

Trump diz que EUA receberão 30 a 50 milhões de barris de petróleo da Venezuela a preço de mercado
Valor deve ser usado para ‘beneficiar’ os 2 países, segundo Trump

Autoridades norte-americanas informaram nesta quarta-feira (7) que apreenderam duas embarcações petroleiras sancionadas pelos EUA. Os navios fariam parte de uma frota que transporta petróleo da Venezuela, do Irã e da Rússia.

EUA apreendem 2 navios petroleiros ligados à Venezuela no Atlântico Norte e no Caribe
Embarcações fariam parte de uma frota que transporta petróleo da Rússia, do Irã e da Venezuela para driblar sanções

Nos próximos dias, é esperada uma retirada gradual de algumas sanções contra o petróleo venezuelano pelos Estados Unidos, que procuram administrar esse recurso e, assim, influenciar na política local. Esta é uma estratégia mais alinhada ao que vem dizendo o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.

Rubio diz que EUA pressionarão mudança na Venezuela com embargo ao petróleo, enquanto Trump insiste que ‘estamos no comando’
Declarações do secretário de Estado soam como um ‘ajuste’ ao tom adotado por Donald Trump, que falou em administração diária da Venezuela

As declarações de Rubio, em certa medida, dosam a retórica de Trump, que fala repetidamente em suas entrevistas que os Estados Unidos estão "no comando" da Venezuela.

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O presidente norte-americano também pressiona outros países com ameaças de invasão. São os casos de Colômbia e Groenlândia, por exemplo. Este último, um território autônomo pertencente ao Reino da Dinamarca, um dos integrantes da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), uma aliança militar liderada pelos próprios Estados Unidos.

Dinamarca e Groenlândia buscam diálogo com Rubio sobre interesse dos EUA em tomar a ilha
Primeira-ministra da Dinamarca alertou que uma invasão da Groenlândia pelos EUA representaria o fim da OTAN
Sem que houvesse convite de autoridades, Donald Trump Jr. visitou a Groenlândia, ampliando a pressão no território dinamarquês / Imagem: AP Photo

A incerteza também vale para Cuba, que teve 32 soldados mortos durante a invasão dos EUA à Venezuela. Isso porque os governos cubano e venezuelano são tão próximos que é comum que agentes de Cuba façam a segurança de seu aliado na América do Sul.

O presidente Donald Trump, no entanto, declarou que não acredita que será necessária uma ação semelhante em Cuba. Ele também indicou que crê que Cuba cairá por si própria.

Cuba enfrenta futuro incerto após EUA derrubarem líder venezuelano Maduro
Governos cubano e venezuelano são tão próximos que, frequentemente, agentes de segurança de Cuba frequentemente serviam como guarda-costas do presidente da Venezuela

Agenda

Na sexta-feira (9.jan), está prevista a realização de uma reunião com executivos de empresas petrolíferas norte-americanas para discutir sobre a Venezuela. Representantes da Exxon, Chevron e ConocoPhillips devem comparecer ao encontro na Casa Branca.

Petróleo

Existem curiosidades como pano de fundo na questão petrolífera:

A Venezuela tem cerca de 303 bilhões de barris de petróleo em reservas comprovadas, o que corresponde a aproximadamente 17% de todas as reservas conhecidas do planeta. É a maior do mundo, à frente da Arábia Saudita e do Irã. A produção atual gira em torno de pouco mais de 1,1 milhão de barris por dia, bem abaixo do pico histórico de cerca de 3,5 milhões de barris por dia no fim dos anos 1990.

Já os EUA teveram grande incremento na produção de petróleo nos últimos anos. No entanto, esse óleo costuma ser leve (fracking) e muitas refinarias norte-americanas, especialmente no Golfo do México, foram projetadas para processar petróleo pesado e “sour” (alto teor de enxofre), como é o tipo do petróleo venezuelano.

Sendo mais adequado para essas refinarias, facilita a operação e, potencialmente, reduz custos de processamento. Além disso, dados de 2024 mostravam que os EUA produziam cerca de 13,46 milhões de barris por dia, mas consumiam cerca de 20 milhões de barris.

A principal forma de importação de petróleo pesado feita pelos EUA vem do Canadá, país com o qual, desde o início da administração Trump, vem tendo problemas diplomáticos. Trump ameaçou tornar o Canadá um "51º estado" norte-americano, anexando o país vizinho. O outro maior produtor desse tipo de petróleo que costuma ser importado pelos EUA é a Rússia, histórica adversária geopolítica.

Relembre

O governo norte-americano realizou na madrugada do último sábado (3) uma operação que capturou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores. Ambos foram levados para julgamento em Nova York, onde estão detidos. A 1ª sessão diante da Justiça norte-americana ocorreu na segunda-feira (5).

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Apesar de consecutivas administrações dos EUA terem apoiado a oposição a Maduro nos últimos anos, quem assumiu o poder na Venezuela foi a então vice-presidente Delcy Rodríguez. Ou seja, Maduro caiu, mas seu partido manteve-se no comando do país.

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Inicialmente, a presidente interina Delcy Rodríguez adotou um tom mais duro contra os EUA. Depois, dosou o discurso e disse até, numa publicação, que estava "aberta" a negociações.

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Presidente interina disse a Trump que está aberta aos negócios, mesmo com captura de Maduro

Temor internacional

A ação do governo dos EUA causa temor em outros países, à medida em que põe em dúvida o respeito ao Direito Internacional de soberania das nações e de não interferência.

Taiwan, Ucrânia e nações do Oriente Médio, que já enfrentam turbulências promovidas por China, Rússia e pelos próprios Estados Unidos, tornam-se mais vulneráveis neste contexto.

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Países temem que a captura de Maduro possa abrir caminho para mais intervenções militares pelo mundo

No Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), realizada na última segunda-feira (5), países em sua maioria contestaram e criticaram a ação norte-americana na Venezuela.

No Conselho de Segurança da ONU, países contestam ação dos EUA contra a Venezuela
Secretário-geral da ONU, Antonio Guterres disse estar ‘profundamente preocupado’ e que ‘as regras do Direito Internacional não foram respeitadas’

Já no Irã, país aliado da Venezuela e que também passa historicamente por sanções norte-americanas, protestos vem sendo reprimidos pelas forças de segurança. Ao menos 35 pessoas já tinham morrido, conforme conteúdo que publicamos nesta terça (6).

As manifestações ocorrem, principalmente, em crítica à economia local. O distúrbio em Teerã agrada aos Estados Unidos, e o Líder Supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, têm respondido aos comentários de Trump nos últimos dias, desde que houve a operação militar que prendeu o presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Forças de segurança entram em confronto com manifestantes no principal mercado do Irã; ao menos 35 pessoas já morreram nos protestos
Protestos realizados principalmente contra a situação econômica do país vêm sendo reprimidos pelo governo
🧐
Essas notícias, quando interligadas, mostram como a ação contra o presidente da Venezuela tem mexido na geopolítica e na economia, com desdobramentos em diferentes países.

*Assobio Diário é a newsletter enviada pelo Correio Sabiá de segunda a sexta-feira, desde 2018.

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