Podcasts sobre o oceano estão em ascensão
Brasil está entre os 10 países que mais consomem o formato
*Por Juliana Di Beo, da rede Ressoa Oceano
O Brasil consolidou sua posição entre os 10 países com maior consumo de podcasts no mundo. Por aqui, quase 4 em cada 10 brasileiros dedicam pelo menos uma hora da semana ao formato. Entre as diversas áreas do conhecimento exploradas, destacam-se as ciências do mar e a cultura oceânica — campos que ganham ainda mais força com iniciativas como o movimento Escola Azul Brasil, que adota múltiplos recursos para integrar o oceano e a zona costeira às salas de aula, o chamado currículo azul.
O país, aliás, assume um papel pioneiro na implementação desse currículo. Sendo uma nação de dimensões continentais e com uma extensa faixa costeira, o Brasil une sua riqueza marinha ao fato de ser um expressivo consumidor de podcasts da América Latina. Cruzando esses 2 cenários, um estudo exploratório realizado pela rede Ressoa Oceano e apresentado no Congresso Internacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (COPUCI 2026), no Centro Universitário Rosário, na Argentina, em maio deste ano, mapeou os programas que comunicam o oceano.




Submerso é um podcast colaborativo de quatro iniciativas de divulgação da ciência sobre ciências do mar e oceanografia. Verde Mar é um projeto focado em conservação ambiental, sustentabilidade, ecoturismo e pesquisas científicas do jornalista Caio Salles. Histórias que ninguém te conta é uma série de reportagens em áudio produzida pela Agência Pública e apresentada pelas jornalistas Mariana Simões e Gabriele Roza que explora o passado oculto da Zona Portuária do Rio de Janeiro. Introdução à História Marítima Brasileira é um podcast realizado pela Ábaco Cultural baseado no livro institucional homônimo da Marinha do Brasil.
A pesquisa identificou 69 podcasts dedicados a temas oceânicos entre 2019 e 2025, um volume expressivo para o nicho da divulgação científica. Em sua maioria, esses programas estão vinculados a universidades, organizações não governamentais ou nascem de produções independentes. Esse resultado pode representar a importância do financiamento público para a produção de podcasts no Brasil, ou ainda que há uma preocupação e responsabilidade pública em fomentar a cultura científica.
Geograficamente, a região Sudeste — com destaque para os estados de São Paulo (28,7%) e Rio de Janeiro (15,8%) — concentra a maior parte dos programas, um reflexo do maior acesso a investimentos e fomento nas áreas de comunicação, inovação e ciências do mar.

Perspectivas para podcasts científicos
Traçando um recorte mais amplo, o fenômeno do podcasting se tornou objeto de um levantamento integrado que uniu esforços de um grupo diverso de pesquisadores em comunicação. O livro “Produção científica sobre podcast na América Latina e Caribe: tendências e perspectivas” aponta que existem mais de 4 milhões de programas indexados globalmente.
Nesse cenário, o público latino-americano mostra um crescimento contínuo, saltando de 30,3% de alcance em 2024 para uma estimativa de 32,4% em 2026, com o mercado brasileiro liderando isolado na região, somando mais de 51 milhões de ouvintes mensais.
Diante desse ecossistema efervescente, a obra realiza um esforço inédito de sistematização para construir uma verdadeira cartografia regional do formato.
Um dos achados mais interessantes dessa pesquisa é a distribuição das áreas de investigação de podcast em pesquisas acadêmicas, com destaque para 3 grandes áreas:
- Educação: liderando as teses e dissertações, o formato é amplamente analisado como ferramenta pedagógica e recurso metodológico tanto no ensino básico quanto no superior;
- Comunicação e Jornalismo: ocupa o 2º lugar, com investigações voltadas para a narrativa sonora, o jornalismo digital e a análise de programas específicos; e
- Divulgação Científica e Saúde: consolida uma parcela expressiva de trabalhos focados na acessibilidade da ciência e na educação em saúde.
Podcast da rede Ressoa Oceano
Por unir o potencial pedagógico à capacidade de atrair novos públicos, o áudio digital se estabeleceu como um veículo promissor para a comunicação pública da ciência. O que se mostra promissor é apostar no podcast tanto para comunicar temas ligados ao oceano como para adotá-lo como ferramenta de ensino e aprendizagem em diferentes contextos educacionais.
É a partir deste olhar que nasceu o podcast Ressoa: uma janela para o mar. Com um formato educativo e narrativo, o programa traduz pesquisas, histórias e curiosidades que cruzam desde as praias, manguezais, dunas e florestas de macroalgas até os recifes de corais e o mar profundo. Além da equipe da rede Ressoa Oceano, os episódios contam com especialistas, cientistas, empreendedores, mergulhadores e artistas.
Há 7 episódios já disponíveis no Spotify, YouTube e Deezer – os demais estão previstos para serem publicados até setembro.
Projeto quer conectar ciência do mar a escolas
Além de buscar dar continuidade ao mapeamento de podcasts oceânicos no Brasil e expandir as fronteiras da pesquisa para outros países latino-americanos, o projeto ambiciona transformar esses dados em um catálogo acessível, conectando a ciência do mar a escolas, organizações e a todo o público interessado em ouvir o que o oceano tem a dizer.
Considerando que a Década do Oceano chegou à sua última metade de atividades, espera-se que os podcasts sobre o oceano e os episódios dos programas que abordam atualidades e política sigam crescendo.
Pode-se dizer que o tema ainda não foi analisado em episódios de podcasts sobre temas atuais gerais, mas é notável um crescimento da atenção e do interesse sobre temáticas ligadas ao oceano. Eis alguns exemplos de episódios:
- O Assunto (“A corrida pelas riquezas do fundo do mar”; O oceano no centro da pauta mundial)
- Café da Manhã (“Por que estão falando tanto em El Niño”)
- Rádio Novelo Apresenta (“Em águas profundas”).
Então, reserve um tempinho para conhecer alguns desses podcasts e se aproximar do oceano.
Autor
Somos uma rede colaborativa de comunicação sobre o oceano. Apostamos na ação conjunta de atores sociais diversos para mobilizar ações para conscientização e mudança de comportamento em relação à cobertura, percepção e visibilidade sobre o oceano.