Petróleo: Trump firma acordo com a Índia que atinge a Rússia
Presidente dos EUA deve reduzir tarifas dos produtos indianos em troca da interrupção de compra do petróleo russo barato
*Por Josh Boak, Aamer Madhani e Rajesh Roy
O fato principal
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse na segunda-feira (2.fev.2026) que pretende reduzir as tarifas de importação de produtos indianos de 25% para 18%, após o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, concordar em interromper as compras de petróleo russo.
"It was an Honor to speak with Prime Minister Modi, of India, this morning... He agreed to stop buying Russian Oil, and to buy much more from the United States and, potentially, Venezuela. This will help END THE WAR in Ukraine" - President Donald J. Trump 🇺🇸 pic.twitter.com/RD7PZ8S16z
— The White House (@WhiteHouse) February 2, 2026
O anúncio ocorre após meses de pressão de Trump sobre a Índia para que reduzisse sua dependência do petróleo bruto russo barato. A Índia tem se beneficiado da queda nos preços do petróleo russo, que foi sancionado por outros países numa tentativa de isolar Moscou por causa da invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022.
Trump afirmou que a Índia também começará a reduzir a zero seus impostos de importação sobre produtos norte-americanos e comprará US$ 500 bilhões em produtos dos EUA.
“Isso ajudará a ACABAR COM A GUERRA na Ucrânia, que está acontecendo agora, com milhares de pessoas morrendo a cada semana!”, disse Trump em uma publicação no Truth Social anunciando a redução das tarifas sobre a Índia.
Modi publicou no X que estava “encantado” com a redução tarifária anunciada e que a “liderança de Trump é vital para a paz, a estabilidade e a prosperidade globais”.
“Estou ansioso para trabalhar em estreita colaboração com ele para levar nossa parceria a patamares sem precedentes”, disse Modi.
Trump, historicamente, tem uma relação cordial com Modi. No entanto, a parceria ficou mais conturbada em tempos recentes, devido à guerra entre a Rússia e a Ucrânia e às disputas comerciais.
O presidente dos EUA tem tido dificuldades para cumprir a promessa de campanha de encerrar rapidamente a guerra entre Rússia e Ucrânia, mas vem impondo tarifas sem a aprovação do Congresso para tentar alcançar seus objetivos.
O anúncio do acordo com a Índia ocorre em um momento em que seu enviado especial, Steve Witkoff, e seu genro, Jared Kushner, devem realizar mais uma rodada de negociações trilaterais com autoridades russas e ucranianas em Abu Dhabi ainda esta semana, com o objetivo de encontrar uma solução para a guerra.
Trump diz que atingir a receita petrolífera da Rússia é a melhor maneira de levar Moscou a encerrar a guerra de quase 4 anos contra a Ucrânia. Este argumento coincide com sua defesa das tarifas.
Histórico
Em junho, Trump anunciou que os Estados Unidos imporiam uma tarifa de 25% sobre produtos da Índia, após sua administração considerar que o país havia feito muito pouco para reduzir seu superávit comercial com os EUA e abrir seus mercados para produtos norte-americanos.
Em agosto, Trump impôs tarifas de importação adicionais de 25% sobre produtos indianos devido às suas compras de petróleo russo, elevando o aumento combinado da taxa para 50%.
Com os compromissos de parar de comprar petróleo russo e reduzir tarifas contra produtos dos EUA, a alíquota sobre produtos indianos poderia cair para 18%, valor próximo aos 15% cobrados sobre produtos da União Europeia e do Japão, entre outras nações.
Mais defesa, menos energia
Historicamente, a relação da Índia com a Rússia gira mais em torno da defesa do que da energia. A Rússia fornece apenas uma pequena fração do petróleo da Índia, mas a maior parte de seu equipamento militar.
No entanto, após a invasão russa, a Índia aproveitou para comprar petróleo russo com desconto, o que lhe permitiu aumentar seu fornecimento de energia.
Acordo Índia-União Europeia
A redução tarifária anunciada por Trump ocorre dias depois da Índia e da União Europeia terem chegado a um acordo de livre comércio com potencial de impactar até 2 bilhões de pessoas, após quase duas décadas de negociações.
Esse acordo permitiria o livre comércio de quase todos os produtos entre os 27 membros da União Europeia e da Índia, desde têxteis a medicamentos. A medida ainda reduziria os altos impostos de importação sobre vinhos e carros europeus.
O acordo entre 2 dos maiores mercados do mundo também refletiu o desejo de reduzir a dependência dos EUA, após os aumentos nos impostos de importação de Trump terem interrompido os fluxos comerciais estabelecidos.
Embora o custo das tarifas de Trump tenha sido em grande parte arcado por empresas e consumidores norte-americanos, os impostos podem reduzir os volumes de comércio entre os países.
Nos últimos meses, a Índia acelerou os esforços para finalizar diversos acordos comerciais. Assinou um acordo com o Omã em dezembro e concluiu as negociações para um acordo com a Nova Zelândia.
Na manhã de segunda-feira (2), Trump publicou nas redes sociais uma foto com Modi na capa de uma revista, sugerindo que a conversa entre os 2 teria sido positiva.
Quando os 2 líderes se encontraram em fevereiro de 2025, o presidente dos EUA afirmou que a Índia começaria a comprar petróleo e gás natural dos Estados Unidos.
No entanto, as negociações se mostraram frustrantes e as tarifas impostas por Trump no ano passado pouco fizeram para mudar as objeções iniciais da Índia.
Enquanto os EUA buscam maior acesso ao mercado e tarifas zero para quase todas as suas exportações, a Índia mostrou ter ressalvas sobre abrir setores como agricultura e laticínios, que empregam grande parte da população do país.
O Departamento do Censo informou que os EUA registraram um déficit comercial de US$ 53,5 bilhões em bens com a Índia durante os primeiros 11 meses de 2025, o que significa que importaram um valor maior do que exportaram.
Com uma população superior a 1,4 bilhão de pessoas, a Índia é o país mais populoso do mundo, sendo um contrapeso geopolítico e econômico à China.
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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
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