Paquistão está em 'guerra aberta' com o Afeganistão, diz ministro da Defesa
As duas partes têm longo histórico de troca de agressões. Forças da OTAN atuaram no Afeganistão até 2021.
*Por Munir Ahmed e Abdul Qahar Afghan
O fato principal
Paquistão e Afeganistão trocaram ataques diretos durante a noite desta quinta-feira (26.fev.2026). Esta escalada das tensões levou o ministro da Defesa paquistanês a declarar, nesta sexta-feira (27.fev), que os 2 países estão em estado de “guerra aberta”.
Os fatos

O Afeganistão lançou um ataque transfronteiriço contra o Paquistão na noite de quinta-feira (26), alegando ser uma retaliação aos ataques aéreos mortais realizados pelo Paquistão em áreas fronteiriças afegãs no último domingo (22).
O Paquistão, por sua vez, realizou ataques aéreos em Cabul e em outras duas províncias afegãs na madrugada de sexta-feira (27), afirmando ter como alvo instalações militares.
“Atacamos importantes alvos militares no Paquistão, enviando uma mensagem de que podemos atingir suas gargantas e que responderemos a cada ato maligno do Paquistão”, disse o porta-voz do governo afegão, Zabiullah Mujahid, em declarações televisionadas de Kandahar, na sexta-feira.
“O Paquistão nunca buscou resolver problemas por meio do diálogo”, acrescentou ele.
Após os ataques afegãos, o ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Mohammad Asif, afirmou em uma publicação no X:
“Nossa paciência se esgotou. Agora é guerra aberta entre nós.”
Asif afirmou que o Paquistão esperava a paz no Afeganistão após a retirada, em 2021, das forças da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), aliança militar liderada pelos Estados Unidos e integrada por grande parte dos países europeus.
Asif também disse que esperava que o Talibã, que assumiu o poder no Afeganistão, se concentrasse no bem-estar do povo afegão e na estabilidade regional.
Em vez disso, Asif disse que o Talibã transformou o Afeganistão "em uma colônia da Índia", com quem o Paquistão tem se envolvido periodicamente em guerras, confrontos e escaramuças desde que conquistou a independência do domínio colonial britânico em 1947.
Os laços da Índia com o Afeganistão melhoraram recentemente, com ofertas de aumento do comércio bilateral, para o desgosto de Islamabad.
As tensões entre os 2 países estão altas há meses. Confrontos na fronteira em outubro de 2025 mataram dezenas de soldados, civis e suspeitos de militância.
O Paquistão acusa o governo talibã do Afeganistão de abrigar grupos militantes que realizam ataques do outro lado da fronteira e também de se aliar à sua adversária geopolítica, a Índia.
Um cessar-fogo mediado pelo Catar pôs fim aos combates, embora os 2 lados ainda troquem tiros ocasionalmente. Diversas rodadas de negociações de paz em Istambul, em novembro, não conseguiram produzir um acordo formal.
'Exportando terrorismo'

As autoridades afegãs na província de Nangarhar, no leste do país, disseram que os combates continuavam na área fronteiriça de Torkham na manhã de sexta-feira.
A diretoria de informações da província afirmou que disparos de morteiro paquistaneses atingiram áreas civis em Torkham, incluindo um campo de refugiados que havia sido evacuado durante a noite.
Em resposta, o Afeganistão estava atacando postos do exército paquistanês do outro lado da fronteira, segundo a mesma diretoria.
Asif acusou o Afeganistão de “exportar terrorismo”. Islamabad frequentemente faz essa acusação contra seu vizinho, visto que a violência militante aumentou no Paquistão, acusando o Afeganistão de apoiar o Talibã paquistanês (TTP) e grupos separatistas balúchis ilegais.
O Paquistão acusa o TTP (que é separado do Talibã afegão, mas está intimamente ligado a ele) de operar dentro do Afeganistão. Tanto o grupo quanto o governo sediado em Cabul negam essa acusação.
“O conflito interno do Paquistão é uma questão puramente doméstica e não é novo”, disse Mujahid na sexta-feira, observando que o TTP está ativo há quase duas décadas.
O Paquistão também acusou frequentemente a vizinha Índia de apoiar o Exército de Libertação do Baluchistão, organização considerada ilegal, e o Talibã paquistanês, alegações que Nova Déli nega.
Ataques de retaliação

O Afeganistão afirmou que o ataque transfronteiriço de quinta-feira (26) foi uma retaliação aos ataques aéreos mortais do Paquistão contra áreas fronteiriças afegãs no domingo. Os governos divulgaram versões bastante divergentes sobre o número de baixas:
- O porta-voz do exército paquistanês, tenente-general Ahmed Sharif Chaudhry, afirmou que as operações aéreas e terrestres paquistanesas mataram pelo menos 274 membros das forças afegãs e de militantes afiliados, além de ferirem mais de 400, enquanto 12 soldados paquistaneses foram mortos e outros 27 ficaram feridos. Um soldado paquistanês está desaparecido em combate.
- Mujahid rejeitou as alegações sobre o elevado número de baixas afegãs, classificando-as como “falsas”. Ele afirmou que 55 soldados paquistaneses foram mortos e que os corpos de 23 deles foram levados para o Afeganistão. Ele também disse que “muitos” soldados paquistaneses foram capturados. Treze soldados afegãos foram mortos, segundo ele, e outros 22 ficaram feridos, enquanto 13 civis também ficaram feridos. Uma escola religiosa na província de Paktika foi bombardeada na manhã de sexta-feira, acrescentou ele, dizendo que ainda não havia informações disponíveis sobre possíveis vítimas.





Uma das imagens mostra familiares e soldados carregando o caixão de um oficial do exército, morto em um atentado suicida no distrito fronteiriço de Bannu, para seu sepultamento após uma oração fúnebre em Mansehra, Paquistão, domingo, 22 de fevereiro de 2026. As outras imagens mostram o estrago provocado pelo ataque. / Imagens: AP/Saqib Manzoor
O Ministro da Informação do Paquistão, Attaullah Tarar, disse que os sistemas antidrone do Paquistão abateram vários drones de pequeno porte sobre as cidades de Abbottabad, Swabi e Nowshera, no noroeste do país, na sexta-feira.
Tarar afirmou que os drones pareciam fazer parte de um ataque frustrado do Talibã paquistanês e que não houve vítimas. Tarar alegou que os ataques com drones “mais uma vez expuseram as ligações diretas entre o regime talibã afegão e o terrorismo no Paquistão”.
Pedidos internacionais por moderação

O Ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, realizou conversas telefônicas separadas com seus homólogos paquistanês, afegão, catariano e saudita na sexta-feira (27) para discutir o conflito. Em outubro, Turquia, Catar e Arábia Saudita facilitaram negociações entre as partes.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, instou ambos os lados a protegerem os civis, conforme exigido pelo direito internacional, e a “continuarem a buscar a resolução de quaisquer divergências por meio da diplomacia”, afirmou o porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, em comunicado.
A Rússia pediu o fim imediato dos combates e uma solução diplomática para o conflito, declarou o diplomata russo Zamir Kabulov à agência de notícias RIA Novosti. Kabulov, enviado especial do presidente Vladimir Putin para o Afeganistão, afirmou que Moscou consideraria mediar o conflito entre os 2 países, caso fosse solicitada, segundo a RIA Novosti.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, instou o Paquistão e o Afeganistão a resolverem suas divergências por meio do diálogo durante o mês sagrado do Ramadã. Ele também afirmou que Teerã está pronta para auxiliar na facilitação do diálogo.
Refugiados na fronteira
As autoridades paquistanesas afirmaram que dezenas de refugiados afegãos na área fronteiriça de Torkham foram realocados para locais mais seguros.
O Paquistão lançou uma ampla repressão em outubro de 2023 para expulsar migrantes sem documentos, incentivando aqueles que já estavam no país a saírem por conta própria para evitar prisões e expulsando outros à força. O Irã também iniciou uma repressão contra migrantes na mesma época.
Desde então, milhões de pessoas cruzaram a fronteira para o Afeganistão, incluindo pessoas que nasceram no Paquistão décadas atrás e construíram suas vidas e criaram negócios lá.
Em 2025, 2,9 milhões de pessoas retornaram ao Afeganistão, segundo a agência da ONU para refugiados, com quase 80.000 tendo retornado somente neste ano.
Autor
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.