Palestinos em Gaza reviram o lixo em busca de algo para queimar e se aquecer

Inverno é mais uma dificuldade para a sobrevivência. Quem sai para buscar lenha, às vezes é morto por disparos de Israel.

Palestinos em Gaza reviram o lixo em busca de algo para queimar e se aquecer
Crianças palestinas separam o lixo em um aterro sanitário no campo de al-Bureij, na região central da Faixa de Gaza, na quarta-feira, 24 de dezembro de 2025 / Imagem: AP/Abdel Kareem Hana
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*Por Toqa Ezzidin e Julia Frankel

O fato principal

Palestinos desesperados, em um lixão de um bairro de Gaza, cavavam com as próprias mãos em busca de pedaços de plástico para queimar e se proteger do frio e da umidade do inverno na região, devastada por 2 anos de bombardeios de Israel.

A cena, na região de Muwasi, na cidade de Khan Younis, contrastava fortemente com a visão do território apresentada por líderes mundiais reunidos a quilômetros dali, em Davos, na Suíça, onde inauguraram o "Conselho da Paz", um grupo a ser presidido pelo presidente norte-americano Donald Trump e que supervisionará Gaza.

Durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, Trump afirmou que níveis “recordes” de ajuda humanitária entraram em Gaza desde o início do cessar-fogo mediado pelos EUA, em outubro de 2025. Seu genro Jared Kushner e o enviado especial Steve Witkoff exaltaram o potencial de “desenvolvimento” do território devastado, com apresentações que incluíam construções de resorts.

Um bebê morreu de frio em Gaza na última quarta-feira (21). Foi a 9ª morte registrada de uma criança, por hipotermia, neste inverno em Gaza.

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Shaza Abu Jarad foi a 9ª criança a morrer de frio neste inverno em Gaza. Palestinos lidam com condições desumanas após 2 anos de bombardeios israelenses.

Sobreviver em Gaza significa revirar o lixo

Um residente palestino da vila de Ras Ein al-Auja, na Cisjordânia, queima lixo, domingo, 11 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Mahmoud Illean

Para Sanaa Salah, que vive em uma tenda com o marido e 6 filhos, acender uma fogueira é uma tarefa essencial diária para cozinhar e se aquecer. A família mal tem roupas suficientes para se proteger do frio.

Ela disse que não têm condições de comprar lenha ou gás. Acrescentou que a família sabe dos riscos de queimar plástico, mas não há alternativa.

“A vida é muito difícil”, afirmou, enquanto familiares alimentavam o fogo com plástico e papel. “Não conseguimos nem tomar uma xícara de chá.”
“Essa é a nossa vida”, disse. “Não dormimos à noite de tanto frio.”

A lenha é cara demais, contou Aziz Akel, cuja família inteira não tem renda nem pode pagar os 7 ou 8 shekels (cerca de US$ 2,50) necessários.

“Minha casa se foi e meus filhos ficaram feridos”, disse ele.

Sua filha, Lina Akel, contou que o pai sai cedo todas as manhãs para procurar plástico no lixo, o que ela chamou de “o essencial da vida”.

Palestinos duvidam do 'Conselho da Paz'

Um palestino caminha ao lado de um vestido de noiva exposto em uma rua próxima a uma loja de vestidos de noiva em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, na quinta-feira, 22 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Abdel Kareem Hana

Em Gaza, meses após a "trégua", continuam os bombardeios israelenses. Apenas desde o período de cessar-fogo, cerca de 470 pessoas foram mortas pelas Forças de Israel.

Outros centenas de milhares de palestinos ainda vivem em campos de deslocados, abrigados em tendas e prédios destruídos pela guerra, incapazes de se proteger das baixas temperaturas noturnas, dos ventos e das consequentes quedas de escombros.

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‘Nem as ovelhas vivem como nós’, disse um morador de Gaza. ‘Deixamos para trás casas e prédios com portas que se abriam e fechavam’.

Na última quinta-feira (22), tiros de tanques israelenses mataram 4 palestinos a leste da Cidade de Gaza, segundo Mohamed Abu Selmiya, diretor do Hospital Shifa, onde os corpos foram levados. O exército israelense não comentou de imediato.

Alguns moradores expressaram ceticismo em relação ao Conselho da Paz de Trump e à possibilidade de que ele melhore sua realidade.

“Esse comitê inclui israelenses. Não entendo como, como cidadãos, podemos compreender isso. “São os israelenses que nos causaram sofrimento”, disse Rami Ghalban, deslocado de Khan Younis.

Para outros, pensar no futuro é inútil.

“Estamos em uma situação sem alternativas. “Nossa condição é miserável”, disse Fathi Abu Sultan.

Moradores dizem que combustível e lenha ainda são escassos. Os preços são exorbitantes, e a busca por esses itens é perigosa. Dois meninos de 13 anos foram mortos na quarta-feira (21) por tiros de forças israelenses enquanto tentavam recolher lenha, segundo autoridades hospitalares.

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Parceiros das Nações Unidas que administram os campos de deslocados afirmam conseguir atender apenas cerca de 40% dos 970 acampamentos existentes na Faixa de Gaza, devido a limitações de capacidade e financiamento, de acordo com o que disse o porta-voz da ONU (Organização das Nações Unidas), Stephane Dujarric, nesta quinta-feira (22).

Dujarric falou que itens como tendas, colchões, sacos de dormir, cobertores, roupas de inverno, utensílios de cozinha e lâmpadas solares continuam sendo distribuídos.

Morte de 3 jornalistas palestinos

Palestinos em luto carregam o corpo de Anas Ghoneim, um dos três jornalistas palestinos mortos em um ataque israelense contra o veículo de um comitê egípcio, durante seu funeral em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, na quinta-feira, 22 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Abdel Kareem Hana

Dezenas de palestinos se reuniram nesta quinta-feira (22) para lamentar a morte de 3 jornalistas locais. Eles foram mortos no dia anterior (21) por um ataque israelense que atingiu o veículo em que estavam, segundo autoridades de saúde de Gaza.

Os jornalistas faziam filmagens perto de um campo de deslocados no centro de Gaza, administrado por um comitê do governo egípcio, segundo o porta-voz do comitê, Mohammed Mansour.

O exército israelense afirmou que o ataque ocorreu após detectarem "suspeitos" operando um drone. Segundo Israel, representavam uma ameaça às tropas.

Um deles, Abdul Raouf Shaat, colaborador regular da AFP, não estava em uma missão para a agência no momento do ataque. Em comunicado, a AFP exigiu uma investigação completa.

Enlutados rezam sobre os corpos dos jornalistas palestinos Abd Shaat e Anas Ghoneim, mortos em um ataque israelense contra o veículo de um comitê egípcio, durante o funeral em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, na quinta-feira, 22 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Abdel Kareem Hana

Enlutados choraram nesta quinta-feira (22) sobre os corpos dos jornalistas, colocados em sacos mortuários, com coletes de imprensa dispostos sobre o peito.

Os veículos de imprensa dependem amplamente de jornalistas palestinos e residentes locais para mostrar o que ocorre no território, já que Israel mantém proibida a entrada de repórteres estrangeiros, exceto em raras visitas guiadas.

Mais de 470 pessoas foram mortas por disparos israelenses em Gaza desde o início do cessar-fogo, em outubro, segundo o Ministério da Saúde local.

Ao menos 77 dessas vítimas foram baleadas próximo à linha de cessar-fogo que divide as áreas sob controle israelense da maior parte da população palestina em Gaza.

O ministério, ligado ao governo do Hamas, mantém registros detalhados de vítimas, considerados confiáveis por agências da ONU e especialistas independentes.

Abertura de passagem na fronteira

Enquanto Trump busca apoio para seu Conselho da Paz traçando um futuro para Gaza, novos detalhes sobre o que vem pela frente surgiram nesta quinta-feira.

Ali Shaath, chefe de um novo e futuro governo tecnocrático em Gaza, declarou que a passagem de Rafah –na fronteira entre Gaza e o Egito– será aberta nos 2 sentidos na próxima semana. Israel havia anunciado em dezembro que abriria o lado de Gaza da travessia, mas ainda não o fez.

A reabertura da passagem facilitaria o acesso de palestinos a tratamento médico ou a visitas a familiares no Egito.


*Frankel informou de Jerusalém.

Autor

Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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