O que dizem os groenlandeses sobre o desejo de Trump em tomar a ilha ártica

De maneira geral, população local, que não chega a 60 mil habitantes, defende sua autonomia e desacredita no presidente norte-americano

O que dizem os groenlandeses sobre o desejo de Trump em tomar a ilha ártica
O pescador Gerth Josefsen prepara linhas de pesca no porto de Nuuk, Groenlândia, quarta-feira, 14 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Evgeniy Maloletka)
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transformou a ilha ártica da Groenlândia num ponto de atrito geopolítico com aliados históricos do seu país. Desde o início do mandato, dá declarações sobre comprá-la ou tomá-la à força.

A Groenlândia é uma região semiautônoma da Dinamarca, e o ministro das Relações Exteriores dinamarquês disse, nesta quarta-feira (14), após uma reunião na Casa Branca, que persiste uma “discordância fundamental” com Trump a respeito da ilha.

A disputa geopolítica passou a fazer parte do cotidiano dos groenlandeses.

“As pessoas não estão dormindo, as crianças estão com medo e isso ocupa todos os espaços nestes dias. Nós realmente não conseguimos entender o que está acontecendo”, disse a ministra groenlandesa Naaja Nathanielsen durante uma reunião com parlamentares britânicos nesta semana.

A AP (Associated Press) reuniu abaixo, neste conteúdo, uma série de declarações de groenlandeses sobre as ameaças de Trump.

Trump está ‘minando’ a cultura groenlandesa

Uma mulher empurra um carrinho de bebê com seus filhos em Nuuk, Groenlândia, quinta-feira, 15 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Evgeniy Maloletka, Arquivo

Trump desdenhou das defesas da Dinamarca na Groenlândia, sugerindo que se resumem a “2 trenós puxados por cães”. Ao dizer isso, Trump “nos diminui como povo”, disse Mari Laursen à Associated Press.

Laursen contou que já trabalhou em um navio pesqueiro, mas agora estuda Direito. Ela procurou a AP para dizer que acredita que exemplos anteriores de cooperação entre groenlandeses e americanos são “frequentemente ignorados quando Trump fala sobre trenós”.

Segundo ela, durante a Segunda Guerra Mundial, caçadores groenlandeses em seus trenós trabalharam em parceria com o exército norte-americano para detectar as forças nazistas alemãs na ilha.

“O clima e o ambiente ártico são muito diferentes do que eles (os americanos) estão acostumados –com navios de guerra, helicópteros e tanques. Um trenó puxado por cães é mais eficiente. Ele pode ir a lugares onde nenhum navio de guerra ou helicóptero chega”, afirmou Laursen.

Groenlandeses não acreditam nas alegações de Trump

O navio militar HDMS Knud Rasmussen da Marinha Real Dinamarquesa patrulha perto de Nuuk, Groenlândia, na quinta-feira, 15 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Evgeniy Maloletka

Trump afirmou repetidamente que navios russos e chineses estariam circulando pelos mares ao redor da Groenlândia. Muitos groenlandeses ouvidos pela AP rejeitaram essa alegação.

“Eu acho que ele (Trump) deveria cuidar dos próprios assuntos”, disse Lars Vintner, engenheiro de aquecimento.
“O que ele vai fazer com a Groenlândia? Ele fala de russos e chineses e de tudo o que estaria nas águas groenlandesas ou em nosso país. Somos apenas 57 mil pessoas. Os únicos chineses que vejo são quando vou ao restaurante de comida rápida. Todo verão saímos para velejar e caçar, e nunca vi navios russos ou chineses aqui na Groenlândia”, acrescentou.

No pequeno porto de Nuuk, Gerth Josefsen falou à AP enquanto colocava pequenos peixes como isca em suas linhas:

“Eu não vejo esses navios”, disse ele, lembrando que havia visto “um barco de pesca russo há 10 anos.”

Trump está interessado nos minerais estratégicos da Groenlândia

Uma mulher caminha por uma rua ao lado de uma bandeira nacional da Groenlândia em Nuuk, Groenlândia, na quarta-feira, 14 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Evgeniy Maloletka

Maya Martinsen, de 21 anos, balconista de loja, disse à AP que não acredita que Trump queira a Groenlândia para reforçar a segurança dos EUA.

“Eu sei que não é por segurança nacional. Acho que é por causa do petróleo e dos minerais que temos aqui e estão intocados”, afirmou, sugerindo que os EUA tratam sua terra natal como uma “negociação comercial.”

Ela considerou positiva a reunião entre autoridades norte-americanas, groenlandesas e dinamarquesas na Casa Branca e disse acreditar que “os povos dinamarquês e groenlandês estão, em sua maioria, do mesmo lado”, embora alguns groenlandeses desejem independência.

“É angustiante perceber que os americanos não estão mudando de ideia”, disse.

Ela acrescentou ainda que recebeu com bons olhos a notícia de que a Dinamarca e seus aliados enviariam tropas para a Groenlândia, “porque é importante que as pessoas com quem trabalhamos mais de perto enviem apoio.”

Groenlandeses recebem apoio da Dinamarca

Tuuta Mikaelsen, estudante de 22 anos, disse à AP que espera que os Estados Unidos tenham recebido a mensagem de autoridades dinamarquesas e groenlandesas para “recuar”.

Ela afirmou que não deseja se unir aos Estados Unidos, porque na Groenlândia “temos leis e também seguro de saúde":

"Podemos ir ao médico e às enfermeiras. Não precisamos pagar nada", disse ela, acrescentando:
“Não quero que os EUA tirem isso de nós.”

Groenlândia está no centro de uma tempestade midiática

Juno Berthelsen, deputado do partido de oposição Naleraq, que faz campanha pela independência no parlamento da Groenlândia, posa para uma foto em seu escritório em Nuuk, Groenlândia, na quinta-feira, 15 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Evgeniy Maloletka

No Parlamento da Groenlândia, Juno Berthelsen, deputado do partido de oposição Naleraq, que defende a independência, disse à AP que tem dado várias entrevistas por dia nas últimas duas semanas.

Questionado pela AP sobre o que diria a Trump e ao vice-presidente JD Vance se tivesse a oportunidade, Berthelsen respondeu:

“Eu diria a eles, claro, que –como temos visto– muitos republicanos e democratas também não concordam com esse tipo de retórica agressiva e com falar em intervenção ou invasão militar. Então, diríamos a eles que superem isso e continuem o diálogo diplomático, garantindo que o povo groenlandês esteja no centro dessa conversa.”
“É o nosso país”, disse ele. “A Groenlândia pertence ao povo groenlandês.”

*Kwiyeon Ha e Evgeniy Maloletka contribuíram para esta reportagem.

Autor

Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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