O ataque dos EUA e de Israel ao Irã
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O destaque
Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã neste sábado (28.fev) –e assim continuaram nestes dias que se seguiram.
- Primeiro, houve notícias sobre a morte do ministro da Defesa do Irã e do chefe da Guarda Revolucionária do país.
- Depois, foi confirmada a morte do líder Supremo, o aiatolá Ali Khamenei, na madrugada de domingo (1.mar) pelo horário local de Teerã (mas ainda noite do dia 28.fev pelo horário de Brasília).
- Até sábado (28), mais de 200 mortes tinham sido confirmadas em decorrência dos ataques.

Mas os problemas não se restringiram ao Irã.
- A República Islâmica retaliou e atacou outros países do Oriente Médio alinhados aos EUA e a Israel –notadamente aqueles com bases militares norte-americanas (embora os países digam que os ataques não estão se restringindo às bases).
- A escalada do conflito também atingiu a economia global.

Petróleo
O Irã atacou ao menos 2 navios pretroleiros no Estreito de Ormuz, que atravessa águas territoriais do próprio Irã e do Omã. Quatro pessoas teriam ficado feridas, segundo autoridades omanianas. O Estreito foi fechado, e cerca de 150 navios estão ancorados.
O fechamento de Ormuz, por onde passa cerca de 1/5 do petróleo produzido no mundo, pressiona países produtores dessa commodity, como Qatar, Bahrein, Arábia Saudita e Emirados Árabes, que dependem da rota para escoar sua produção.

Esses mesmos países também foram atacados pelo Irã no sábado (28.fev), já que abrigam bases militares norte-americanas na região.
O Estreito de Ormuz também o principal canal do planeta para o transporte de gás liquefeito, produzido no Catar. Portanto, o fechamento desse pequeno ponto de ligação entre o Golfo Pérsico e os oceanos tem impacto na economia global.

Caos aéreo
Não é só isso.
Voos foram interrompidos em todo o Oriente Médio e em outras regiões no sábado, com o fechamento do espaço aéreo de diversos países e o impacto direto de greves em importantes aeroportos que conectam a Europa, a África e o Ocidente à Ásia.

Centenas de milhares de viajantes ficaram retidos ou foram desviados para outros aeroportos após Israel, Catar, Síria, Irã, Iraque, Kuwait e Bahrein fecharem seu espaço aéreo.
Também não houve atividade de voos sobre os Emirados Árabes Unidos, segundo o site de rastreamento de voos FlightRadar24, após o governo local anunciar o "fechamento temporário e parcial" de seu espaço aéreo.
Isso levou ao fechamento de importantes aeroportos de conexão em Dubai, Abu Dhabi e Doha, que são hubs aéreos essenciais, e ao cancelamento de mais de 1.800 voos pelas principais companhias aéreas do Oriente Médio.
As 3 principais companhias aéreas que operam nesses aeroportos –Emirates, Qatar Airways e Etihad– normalmente transportam cerca de 90.000 passageiros por dia por esses aeroportos, além de um número ainda maior de viajantes com destino ao Oriente Médio, de acordo com a empresa de análise de aviação Cirium.
O governo dos Emirados Árabes Unidos condenou o que chamou de "ataque flagrante envolvendo mísseis balísticos iranianos" no sábado.
Autoridades do Aeroporto Internacional de Dubai –o maior dos Emirados Árabes Unidos e um dos mais movimentados do mundo– disseram que 4 pessoas ficaram feridas, enquanto o Aeroporto Internacional Zayed, em Abu Dhabi, informou que uma pessoa morreu e outras 7 ficaram feridas em um ataque com drone.
Ataques também foram relatados no Aeroporto Internacional do Kuwait.
Embora o Irã não tenha reivindicado publicamente a autoria dos ataques, o alcance dos ataques retaliatórios que as nações do Golfo atribuíram ao Irã foi além das bases norte-americanas que o país havia anunciado como alvo.
As companhias aéreas americanas Delta Air Lines e United Airlines suspenderam os voos para Tel Aviv pelo menos até o final de semana. A companhia aérea holandesa KLM já havia anunciado no início da semana a suspensão de voos de e para Tel Aviv.
Companhias aéreas como Lufthansa, Air France, Transavia e Pegasus cancelaram todos os voos para o Líbano, enquanto a American Airlines suspendeu os voos de Filadélfia para Doha.
A Virgin Atlantic informou que evitará sobrevoar o Iraque, o que significa que os voos de e para a Índia, Maldivas e Riad poderão levar um pouco mais de tempo. A companhia aérea já não sobrevoava o Irã e afirmou que todos os voos levariam combustível suficiente caso precisassem ser alterados em cima da hora.
A British Airways informou que os voos para Tel Aviv e Bahrein serão suspensos até a próxima semana, e os voos para Amã, na Jordânia, foram cancelados no sábado.
Repercussão
Brasil
O governo brasileiro se manifestou por meio de uma nota divulgada no sábado (28) pelo Itamaraty, sede das Relações Exteriores.
Eis o texto completo:
"O governo brasileiro manifesta profunda preocupação com a escalada de hostilidades na região do Golfo, que representa uma grave ameaça à paz e à segurança internacionais, com potenciais impactos humanitários e econômicos de amplo alcance.
Ao fazer apelo à interrupção de ações militares ofensivas, o Brasil insta todas as partes a respeitar o Direito Internacional e condena quaisquer medidas que violem a soberania de terceiros Estados ou que possam ampliar o conflito, tais como ações retaliatórias e ataques contra áreas civis.
Recordando que a legítima defesa, prevista no artigo 51 da Carta das Nações Unidas, é medida excepcional e sujeita à proporcionalidade e ao nexo causal com o ataque armado, o Brasil se solidariza com a Arábia Saudita, o Bahrein, o Catar, os Emirados Árabes Unidos, o Iraque, o Kuwait e a Jordânia –objetos de ataques retaliatórios do Irã em 28 de fevereiro.
Ao lamentar a perda de vidas civis, o Brasil expressa, ainda, solidariedade às famílias das vítimas. Enfatiza, a propósito, a obrigação dos Estados de assegurar a proteção de civis, em conformidade com o Direito Internacional Humanitário.
O Brasil reafirma que o diálogo e a negociação diplomática constituem o único caminho viável para a superação das divergências e a construção de uma solução duradoura, cabendo às Nações Unidas papel central na prevenção e na resolução de conflitos, nos termos da Carta de São Francisco."
Líderes mundiais

Em um comunicado, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, o presidente francês, Emmanuel Macron, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, apelaram aos Estados Unidos e ao Irã para que retomem as negociações sobre um acordo nuclear e afirmaram ser favoráveis a uma solução negociada.
Esses líderes disseram que seus países não participaram dos ataques contra o Irã, mas mantêm contato próximo com os Estados Unidos, Israel e parceiros na região. Os 3 países têm liderado os esforços para negociar uma solução sobre o programa nuclear iraniano.
“Condenamos veementemente os ataques iranianos contra países da região. O Irã deve se abster de ataques militares indiscriminados”, declararam. “Em última análise, o povo iraniano deve ter a liberdade de determinar seu futuro”, acrescentaram.
Mais tarde, em uma reunião de segurança de emergência, Macron afirmou que a França “não foi avisada nem esteve envolvida” nos ataques. Ele pediu esforços intensificados para uma solução negociada, dizendo que “ninguém pode pensar que as questões do programa nuclear iraniano, da atividade balística e da desestabilização regional serão resolvidas apenas por meio de ataques”.
A Liga Árabe, composta por 22 nações, classificou os ataques iranianos como “uma violação flagrante da soberania de países que defendem a paz e lutam pela estabilidade”. Essa coalizão de nações historicamente condenou tanto Israel quanto o Irã por ações que, segundo ela, ameaçam a estabilidade da região.
Marrocos, Jordânia, Síria e Emirados Árabes Unidos denunciaram os ataques iranianos contra bases militares norte-americanas na região, incluindo Kuwait, Bahrein, Catar e Emirados.
Sob o governo do ex-presidente Bashar al-Assad, a Síria era um dos aliados regionais mais próximos do Irã e uma crítica ferrenha de Israel. No entanto, uma declaração de seu Ministério das Relações Exteriores condenou o Irã de forma singular, refletindo os esforços do novo governo para reconstruir laços com as potências econômicas regionais e com os Estados Unidos.
A Arábia Saudita afirmou que “condena e denuncia nos termos mais fortes a traição da agressão iraniana e a flagrante violação da soberania”.
Omã, que tem mediado as negociações entre o Irã e os EUA, afirmou em comunicado que a ação dos EUA "constitui uma violação das normas do direito internacional e do princípio da resolução de disputas por meios pacíficos, em vez de por meio de hostilidades e derramamento de sangue".
A Nova Zelândia se absteve de demonstrar apoio irrestrito, mas reconheceu no sábado que os ataques dos EUA e de Israel estavam impedindo que o regime iraniano representasse uma ameaça constante. “A legitimidade de um governo se baseia no apoio de seu povo”, afirmaram o primeiro-ministro da Nova Zelândia, Christopher Luxon, e o ministro das Relações Exteriores, Winston Peters, em uma declaração conjunta. “O regime iraniano perdeu esse apoio há muito tempo.”
Países da Europa e do Oriente Médio usaram uma linguagem cautelosa, evitando a percepção de que apoiavam uma ação unilateral americana ou que estavam condenando diretamente os Estados Unidos.
Outros foram mais diretos. O Ministério das Relações Exteriores da Rússia classificou os ataques como “um ato premeditado e não provocado de agressão armada contra um Estado-membro soberano e independente da ONU”. O ministério acusou Washington e Tel Aviv de “se esconderem atrás” de preocupações com o programa nuclear iraniano enquanto, na verdade, buscam uma mudança de regime.
Da mesma forma, o governo chinês disse estar “altamente preocupado” com os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã e pediu a suspensão imediata da ação militar e o retorno às negociações. “A soberania, a segurança e a integridade territorial do Irã devem ser respeitadas”, afirmou um comunicado do Ministério das Relações Exteriores da China.
Apesar das recentes tensões com os EUA, o Canadá também expressou seu apoio à ação militar. “A República Islâmica do Irã é a principal fonte de instabilidade e terror em todo o Oriente Médio”, disse o primeiro-ministro Mark Carney.
A Autoridade Palestina, em comunicado, condenou os ataques iranianos contra nações árabes, muitas das quais historicamente contribuíram para o seu financiamento. Não houve menção aos ataques israelenses ou americanos.
Um clima de nervosismo é perceptível em diversos países. O ministro das Relações Exteriores da Noruega, Espen Barth Eide, declarou à emissora norueguesa NRK que temia que o fracasso das negociações entre os EUA e o Irã significasse uma “nova e extensa guerra no Oriente Médio”.
A Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2017, condenou os ataques norte-americanos e israelenses contra o Irã em termos ainda mais contundentes.
“Esses ataques são totalmente irresponsáveis e correm o risco de provocar uma escalada ainda maior, além de aumentar o perigo da proliferação nuclear e do uso de armas nucleares”, afirmou sua diretora-executiva, Melissa Parke.
Líderes da União Europeia divulgaram uma declaração conjunta no sábado, apelando à moderação e ao engajamento na diplomacia regional, na esperança de “garantir a segurança nuclear”.
A Liga Árabe também apelou a todas as partes internacionais "para que trabalhem em prol da desescalada o mais rapidamente possível, a fim de poupar a região do flagelo da instabilidade e da violência e de retomar o diálogo".

Ministro iraniano alerta que assassinato de Khamenei abre a caixa de Pandora
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, alertou as Nações Unidas que o assassinato do Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei, “abre uma perigosa caixa de Pandora”.
Em uma carta enviada à ONU no domingo, Araghchi escreveu que o assassinato do Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei, “constitui uma violação grave e sem precedentes das normas mais fundamentais que regem as relações entre os Estados”.
Ele reiterou seu apelo à ONU e ao Conselho de Segurança para que tomem medidas a fim de garantir a responsabilização dos EUA e de Israel por seu papel no assassinato.
“Tal conduta não apenas viola princípios estabelecidos do direito internacional; ela abre, de forma imprudente, uma perigosa caixa de Pandora, corroendo os alicerces da igualdade soberana e a estabilidade do sistema internacional”, acrescentou.
Para não passar em branco...
Na semana anterior, o STF (Supremo Tribunal Federal) definiu penas para 5 réus acusados de planejar o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e do motorista Anderson Gomes.
Ainda na semana passada, inundações e deslizamentos deixaram dezenas de pessoas mortas em Minas Gerais, principalmente em Juiz de Fora (MG).
O tema que merece atenção
Nesta semana, será necessário olhar de perto para estes 2 acontecimentos, ao mesmo tempo em que mantemos no radar os desdobramentos no Oriente Médio e suas repercussões globais.
O que observar
- Como vão ficar os aeroportos globais? Quantos voos serão impactados?
- Como oscilará o preço do petróleo? Isso terá impacto no valor da gasolina aqui no Brasil? Quanto?
- Haverá novas rodadas de negociação sobre o programa nuclear iraniano? Como fica o governo no país árabe? Haverá novas manifestações? Se sim, serão a favor do governo?
Estas perguntas são centrais para entender os acontecimentos desta semana, já que o Irã passou por semanas de protesto que atingiram a credibilidade do governo. Milhares de pessoas foram mortas.
Agora, com a morte do aiatolá e o incentivo de Trump para que os iranianos renovem o poder no país, o que vai acontecer? Os iranianos atenderão ao pedido? Terão força política para isso? Ou a tendência é que a morte do aiatolá inflame seus apoiadores e mantenha o ordenamento atual?
Da mesma maneira, é relevante observar se as rodades de negociação sobre o programa nuclear iraniano continuarão a ocorrer. Encontros estavam sendo realizados antes do ataque norte-americano.
Em geral, essas conversas presenciais são realizadas no Omã, um país intermediário na região, com bom trânsito entre o Ocidente e as nações árabes.
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Autor
Jornalista e empreendedor. Criador/CEO do Correio Sabiá. Emerging Media Leader (2020) pelo ICFJ. Cobriu a Presidência da República.



