Manifestantes da Geração Z no Nepal estão revoltados com o governo que eles mesmos instalaram

De acordo com analistas, a falta de coordenação entre os manifestantes é um dos principais entraves para promoção das mudanças desejadas

Manifestantes da Geração Z no Nepal estão revoltados com o governo que eles mesmos instalaram
A polícia nepalesa detém um jovem manifestante durante um protesto antigovernamental em Katmandu, Nepal, em 22 de dezembro de 2025 / Imagem: AP/Niranjan Shrestha
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*Por Binaj Gurubacharya / Associated Press

O essencial

Mukesh Awasti estava pronto para partir para a Austrália em setembro de 2025, um mês ensolarado, para estudar engenharia civil. No entanto, em vez disso, juntou-se à revolta de jovens contra a corrupção no Nepal e perdeu a perna após ser baleado por forças de segurança.

Deitado numa cama de hospital no Centro Nacional de Trauma na capital Kathmandu, onde sua perna foi amputada, o jovem de 22 anos disse lamentar ter sacrificado tanto por tão pouco alcançado depois de vários sacrifícios.

Iniciados em 8 de setembro de 2025, protestos violentos em Kathmandu deixaram 76 mortos e mais de 2.300 feridos antes que manifestações impulsionadas por ativistas "Gen Z" forçassem a nomeação, em 12 de setembro, da 1ª primeira-ministra mulher da História do Nepal, Sushila Karki, uma juíza aposentada da Suprema Corte que prometeu eleições em março de 2026.

A nova primeira-ministra do Nepal, Sushila Karki, aguarda enquanto ministros se preparam para prestar juramento perante o presidente nepalês, Ram Chandra Poudel, no edifício presidencial em Katmandu, Nepal, em 15 de setembro de 2025 / Imagem: AP/Niranjan Shrestha, Arquivo

Desde então, o governo interino e sua líder enfrentam críticas de muitos que participaram dos protestos que a levaram ao poder com a expectativa de grandes mudanças na nação himalaia.

"Arrependo-me de participar porque o novo governo que trouxemos não alcançou nada, nos decepcionou", disse Awasti.
"Deveria haver o fim à corrupção, que não aconteceu, e pessoas que atiraram nos protestos deveriam ter sido presas, mas isso também não ocorreu", completou.

Até o momento de publicação deste conteúdo, a agência anticorrupção do governo tinha aberto um caso relevante de corrupção, mas que não incluía figuras de políticos-chave.

Políticos acusados de corrupção pelos manifestantes preparam-se para disputar eleições futuras e não há processos contra líderes que estavam no poder em setembro, quando manifestantes foram feridos em manifestações anteriores.

Promessas não cumpridas

Dezenas de manifestantes, incluindo alguns feridos em setembro, protestaram nas últimas semanas contra o governo que ajudou a levar ao poder. Esses protestos ocorreram perto do gabinete da primeira-ministra, e a polícia foi forçada a dispersá-los em alguns casos.

"Estamos de volta à rua porque o governo falhou em cumprir sua promessa. Há tantas famílias que perderam entes queridos e [houve tantos] feridos, mas o que o governo fez? Nada", disse Suman Bohara, que anda de muletas com pé direito destruído. "Estamos aqui porque somos obrigados."

Dezenas de milhares de jovens manifestantes primeiro se reuniram em Kathmandu em 8 de setembro para protestar contra corrupção generalizada, falta de oportunidades, emprego e má governança.

O estopim para os atos foi a proibição de redes sociais. No Nepal, que tem histórico de censura e cujo governo estava assolado por acusações de corrupção, isso foi visto como um ato de repressão.

Àquela altura, os jovens manifestantes romperam barreiras policiais e tentaram entrar no Parlamento, sendo alvejados por forças de segurança.

No dia seguinte àquela tentativa, protestos se espalharam pelo país. Multidões enfurecidas queimaram escritórios do primeiro-ministro e presidente, delegacias e casas de políticos proeminentes, que fugiram em helicópteros militares.

Manifestantes comemoram em frente ao prédio do Parlamento após o edifício ter sido incendiado durante um protesto contra a proibição das redes sociais e a corrupção em Katmandu, Nepal, em 9 de setembro de 2025 / Imagem: AP/Prakash Timalsina, Arquivo

O Exército interveio para restaurar o controle, e as negociações culminaram na nomeação de Karki para o cargo de primeira-ministra, com a tarefa-chave de conduzir eleições parlamentares em 2026. O governo segue afirmando que está determinado a cumprir esta meta.

"Enquanto o mundo aguarda uma mudança suave de governo através de nossas eleições em 5 de março, asseguro que realizaremos essas eleições", disse Karki. "Nossos preparativos estão quase completos, e ambiente de segurança melhorou muito com o aparato de segurança garantido."

Grupos Gen Z sem clareza

Demandas diferentes emergiram de grupos jovens:

  • A eleição direta de primeiros-ministros;
  • A revogação da Constituição atual; e
  • A prisão de todos os políticos anteriores.

Não há líder ou grupo único desses jovens, mas sim vários indivíduos que alegam representar a voz do Nepal no "movimento Gen Z".

A falta de clareza entre os manifestantes que foram às ruas em setembro é o principal obstáculo para promoção das mudanças desejadas no Nepal, segundo analistas.

"Toda confusão atual no Nepal se deve à falta de clareza dos grupos Gen Z sobre o que demandam e como o governo foi formado", disse Abeeral Thapa, diretor do Polygon College of Journalism and Mass Communications em Kathmandu.

Alguns manifestantes agora se opõem às eleições planejadas para março, dizendo que o protesto não visava apenas eleições para o novo Parlamento. Segundo eles, as demandas de fim à corrupção e prisão de corruptos deveriam ser cumpridas imediatamente.

Outros grupos buscam eleições que tragam novos legisladores para realizar todas essas tarefas.

Ainda não está claro o quão poderoso é o governo e quais as limitações inerentes a um mandato político para que, de fato, sejam cumpridas todas as demandas da população que levaram os líderes interinos ao poder.

Ao nomear o governo interino, o presidente mencionou que o propósito-chave era conduzir eleições para o Parlamento. Thapa notou que a Constituição do Nepal não tem disposição específica para formar governo interino. Uma linha no documento diz:

"O dever principal do presidente é cumprir e proteger a Constituição."

Thapa disse que os "protestos não foram bem planejados inicialmente" e que "começaram com [demandas de] controle à corrupção e fim da proibição de redes sociais".

"Mas, na realidade, foi como caçar cervos e acabar matando tigre, com o protesto tomando uma grande virada e levando ao colapso do governo", acrescentou.

Thapa falou que a realização das eleições em março continua sob dúvidas, embora não haja outra alternativa sendo considerada no momento.

Autor

Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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