'Mãe de todos os acordos': União Europeia e Índia anunciam acordo comercial histórico
Acordo pode beneficiar até 2 bilhões de pessoas e envolve cerca de 1/3 do comércio global
*Por Maurício Ferro, do Correio Sabiá, com Rajesh Roy e Sam McNeil, da Associated Press
O fato principal
Após quase duas décadas de negociações, a Índia e a União Europeia anunciaram nesta terça-feira (27.jan.2026) que chegaram a um acordo de livre comércio para aprofundar os laços econômicos e estratégicos. O acordo, que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, descreveu como a "mãe de todos os acordos", afeta até 2 bilhões de pessoas.
"A Europa e a Índia estão fazendo história hoje. Concluímos a mãe de todos os acordos. Criamos uma zona de livre comércio para 2 bilhões de pessoas, com benefícios para ambos os lados. Este é apenas o começo. Fortaleceremos ainda mais nossa relação estratégica", escreveu Ursula von der Leyen na sua conta no X (antigo Twitter).
Europe and India are making history today.
— Ursula von der Leyen (@vonderleyen) January 27, 2026
We have concluded the mother of all deals.
We have created a free trade zone of two billion people, with both sides set to benefit.
This is only the beginning.
We will grow our strategic relationship to be even stronger. pic.twitter.com/C7L1kQQEtr
O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, destacou num discurso virtual numa conferência de energia que este acordo representa 1/4 do PIB (Produto Interno Bruto) global.
"Este acordo trará grandes oportunidades para os povos da Índia e da Europa. Representa 25% do PIB global e 1/3 do comércio mundial", disse Modi.
Presidente do Conselho Europeu, o português António Costa publicou em sua conta no X:
"Hoje marca um momento histórico, pois abrimos um novo capítulo nas relações entre a UE e a Índia, no que diz respeito ao comércio, à segurança e aos laços interpessoais. O nosso conselho envia uma mensagem clara: numa ordem global em transformação, a UE e a Índia mantêm-se unidas como parceiros estratégicos e de confiança."
Today marks a historic moment as we open a new chapter in EU-India relations - on trade, security, and people-to-people ties.
— António Costa (@eucopresident) January 27, 2026
Our Summit sends a clear message: in a reshaping global order, the EU and India stand together as strategic, reliable partners. https://t.co/Dvn3yggfHn
Num outro momento, em discurso, António Costa lembrou de suas raízes indianas num momento em que o mundo amplia restrições contra imigrantes:
“Sou presidente do Conselho Europeu, mas também sou um cidadão indiano residente no exterior. Como podem imaginar, isso tem um significado muito especial. Tenho muito orgulho das minhas raízes em Goa.”
Contexto
O acordo entre 2 dos maiores mercados do mundo surge num momento em que os Estados Unidos impõem tarifas de importação elevadas tanto à Índia quanto à União Europeia, o que interrompe os fluxos comerciais estabelecidos e leva as principais economias a buscar parcerias alternativas.
Em um discurso, Ursula von der Leyen disse que o acordo com a Índia era uma história de "2 gigantes" que escolheram a parceria "de uma forma verdadeiramente vantajosa para ambos". Ela também afirmou que ele envia "uma mensagem forte de que a cooperação é a melhor resposta para os desafios globais".
Mais informações gerais sobre o acordo
O acordo com a Índia prevê o livre comércio de quase todos os bens entre os 27 membros da UE (União Europeia) e a Índia. Abrange desde têxteis até medicamentos e reduz os altos impostos de importação sobre vinhos e carros europeus, por exemplo.
A Índia e a UE também concordaram com uma estrutura para uma cooperação mais profunda em matéria de defesa e segurança e com um pacto separado destinado a facilitar a mobilidade de trabalhadores qualificados e estudantes, o que sinaliza que a sua parceria se estende para além do comércio.
Segundo Ursula von der Leyen, o novo acordo prevê uma redução gradual das tarifas indianas sobre carros da UE, de 110% para 10%. A maioria das outras tarifas também será eliminada: 44% para máquinas, 22% para produtos químicos e 11% para produtos farmacêuticos.
Os agricultores europeus terão acesso ao mercado agrícola indiano (a maioria das restrições será suspensa ou significativamente reduzida). As empresas da UE receberão acesso privilegiado ao mercado de serviços indiano, incluindo serviços financeiros e transporte marítimo.
O acordo de segurança prevê uma cooperação reforçada em segurança marítima e cibernética, combate ao terrorismo e até o potencial desenvolvimento conjunto de tecnologia militar no futuro.
Espera-se ainda que o acordo comercial entre a Índia e a UE duplique as exportações da UE para a Índia até 2032.
Acordo para reduzir tarifas e flexibilizar barreiras regulatórias

A assinatura formal do acordo ainda não ocorreu, mas existe a possibilidade de ser realizada ainda este ano, 2026, após a análise dos detalhes legais do texto pelas autoridades e sua ratificação pelo Parlamento Europeu.
O ministro do Comércio da Índia, Piyush Goyal, afirmou esperar que o acordo entre em vigor até o final do ano.
Espera-se que a Índia reduza ou elimine as tarifas para 96,6% das exportações da UE, enquanto a UE retribuirá com reduções semelhantes em fases que, eventualmente, abrangerão quase 99% das remessas indianas em valor comercial, de acordo com declarações de ambos os lados.
Os setores indianos que devem se beneficiar do acordo incluem têxteis, vestuário, bens de engenharia, couro, artesanato, calçados e produtos marítimos, enquanto os ganhos da UE serão em vinhos, automóveis, produtos químicos e farmacêuticos, entre outros.
Um sistema de cotas para automóveis, vinhos e uísque foi acordado, reduzindo as elevadas tarifas alfandegárias.
A Comissão Europeia afirmou que as tarifas cobradas pela Índia sobre carros fabricados na UE serão gradualmente reduzidas de 110% para até 10%, enquanto que para autopeças serão totalmente abolidas após 5 a 10 anos.
Tarifas que chegam a 44% para máquinas, 22% para produtos químicos e 11% para produtos farmacêuticos também serão em grande parte eliminadas.
Em relação ao vinho europeu, as tarifas na Índia cairão de 150% para 20% para vinhos premium.
A Índia excluiu do acordo produtos lácteos como leite e queijo, juntamente com cereais, alegando "sensibilidades internas" em relação a esses produtos.
A UE, por sua vez, não permitirá tarifas concessionais sobre as importações de açúcar, carne, aves e carne bovina indianas, disseram funcionários do Ministério do Comércio da Índia.
Compensação pelo impacto das tarifas mais altas dos EUA

A Índia busca diversificar seus destinos de exportação como parte de uma estratégia para compensar o impacto das tarifas mais altas dos EUA.
Os Estados Unidos aplicaram uma taxa adicional de 25% sobre produtos indianos devido às suas compras de petróleo russo com desconto. Isso elevou as tarifas combinadas impostas pelos Estados Unidos a seu aliado asiático para 50%.
Para a UE, o acordo oferece ao bloco acesso ampliado a uma das principais economias de crescimento mais rápido do mundo e ajuda exportadores e investidores europeus a reduzir sua dependência de mercados mais voláteis.
O comércio entre a Índia e a UE atingiu US$ 136,5 bilhões em 2024-2025. Os 2 lados esperam aumentar esse valor para cerca de US$ 200 bilhões até 2030, disseram autoridades indianas.
“Em última análise, o acordo visa criar um corredor comercial estável entre dois grandes mercados em um momento em que o sistema de comércio global está se fragmentando”, disse o analista de comércio indiano Ajay Srivastava.
A União Europeia ainda se recupera da abordagem agressiva de seu outrora aliado inabalável do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos.
Há um sentimento generalizado de traição em todo o bloco de 27 nações, decorrente da onda de tarifas mais altas imposta por Trump, da aproximação com partidos de extrema-direita e da beligerância em relação à Groenlândia, um território semiautônomo da Dinamarca.

A UE intensificou sua aproximação com mercados ao redor do mundo. No último ano, Ursula von der Leyen assinou acordos com o Japão, Indonésia, México e América do Sul sob o lema "autonomia estratégica", que na prática equivale a uma ruptura com os EUA, vistos como erráticos pela maioria dos líderes europeus.
Autores
Primeira organização de notícias do Brasil criada no WhatsApp, em 2018, para combater a desinformação.
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
Jornalista e empreendedor. Criador/CEO do Correio Sabiá. Emerging Media Leader (2020) pelo ICFJ. Cobriu a Presidência da República.

