Israel recupera restos mortais do último refém em Gaza
Refém foi encontrado do lado do território ocupado por Israel, que acusava o Hamas de dificultar as investigações
*Por Julia Frankel e Samy Magdy
O fato principal
Israel disse nesta segunda-feira (26.jan.2026) que recuperou os restos mortais do último refém em Gaza, Ran Gvili. O desfecho abre caminho para a próxima fase do "cessar-fogo" com o Hamas.
O próximo passo do acordo de "cessar-fogo" deve ser a reabertura da passagem de Rafah, na fronteira de Gaza com o Egito, permitindo que palestinos se desloquem nos 2 sentidos e que mais ajuda humanitária entre no território devastado pelos bombardeios.
O gabinete do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse no domingo (25) que, uma vez concluída a busca por Gvili, Israel abriria a passagem de Rafah. O trecho está em grande parte fechado desde maio de 2024, exceto por um curto período no início de 2025.
Netanyahu declarou que encontrar os restos mortais de Gvili foi “uma realização incrível” para o país e seus soldados. Falou ainda que Gvili, morto durante o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, foi um dos primeiros a ser levados para Gaza.
“Não há mais reféns em Gaza. Concluímos essa missão, como prometi, e vamos concluir as outras missões que estabelecemos”, disse Netanyahu nesta segunda-feira ao se dirigir ao Parlamento israelense.
A devolução de todos os reféns remanescentes, vivos ou mortos, era parte central da 1ª fase da trégua em Gaza. A família de Gvili vinha pedindo ao governo de Israel que não entrasse na 2ª fase até que seus restos mortais fossem recuperados e devolvidos.
Além da abertura de Rafah, a 2ª fase da "trégua" também prevê o envio de uma força internacional de segurança, o desarmamento do Hamas, a retirada das tropas israelenses e a reconstrução de Gaza. Esta etapa ainda inclui a transição para uma nova estrutura de governança em Gaza.
“A próxima fase é desarmar o Hamas e desmilitarizar a Faixa de Gaza. A próxima fase não é reconstrução”, disse Netanyahu.
Em um ato simbólico, o presidente israelense Isaac Herzog retirou nesta segunda-feira (26) um alfinete amarelo usado por muitos cidadãos israelenses e figuras públicas desde os primeiros meses da guerra para mostrar solidariedade aos reféns e suas famílias.
Afinal, o Hamas estava falando a verdade?
Israel acusou repetidamente o Hamas de arrastar os pés na recuperação dos restos de Gvili. O lado israelense argumentava que o Hamas, que tinha entregue todos os reféns (exceto 1, o próprio Gvili), não estava cumprindo o acordo de cessar-fogo.
Já Hamas dizia que tinha feito tudo o que era possível para devolver os reféns e acusava Israel de obstruir o restante das buscas, postergando o fim dos bombardeios contra os palestinos. Isso porque as forças israelenses ocupam até hoje mais da metade do território de Gaza e disparam contra civis.
O refém foi encontrado exatamente no dia (26) em que equipes israelenses, sob pressão dos Estados Unidos, do Egito e de outros países, foram a campo vasculhar um cemitério em Gaza em busca dos restos mortais de Gvili, num esforço desesperado de Israel para localizar o corpo.
Antes da recuperação dos restos de Gvili, 20 reféns vivos e os restos de 27 outros haviam sido devolvidos a Israel desde o cessar-fogo, o mais recente no início de dezembro. Em troca, Israel libertou os corpos de centenas de palestinos para Gaza.
Gvili, um policial de 24 anos conhecido carinhosamente como “Rani”, foi morto enquanto lutava contra militantes do Hamas no ataque realizado em outubro de 2023, que matou cerca de 1.200 pessoas e levou 251 reféns.
Já a ofensiva de Israel matou mais de 71.400 palestinos desde 2023, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. Apenas durante o "cessar-fogo", foram mais de 480 palestinos mortos por fogo israelense. Nesta segunda-feira (26), 2 meninos foram mortos por disparos israelenses.

Palestinos reagem à recuperação dos restos do último refém
Palestinos em Gaza disseram que, agora que foi encontrado o último refém, esperam que a passagem de Rafah possa ser aberta em seus 2 sentidos (um deles está fechado sob domínio israelense). Isso permitiria viagens de ida e volta ao enclave, além da evacuação de pessoas que precisam de cuidados médicos.
“Esperamos que isso acabe com os pretextos de Israel e abra a passagem”, disse Abdel-Rahman Radwan, morador da Cidade de Gaza cuja mãe é paciente de câncer e precisa de tratamento fora de Gaza.
Ahmed Ruqab, um pai que vive com sua família de 6 pessoas em uma tenda no campo de refugiados de Nuseirat, pediu que mediadores e os EUA pressionem Israel para permitir mais ajuda e caravanas em Gaza.
“Precisamos virar essa página e recomeçar”, disse ele por telefone.
Israel e Hamas vinham sendo pressionados pelos EUA e outros mediadores da trégua para avançar para a segunda fase da trégua que entrou em vigor em 10 de outubro.
Parentais de Gvili repetiram na semana passada apelos para que o governo de Israel e o presidente dos EUA, Donald Trump, garantissem a liberação de seus restos mortais. A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, chamou o desenvolvimento desta segunda-feira de “notícia incrível” em uma postagem nas redes sociais, acrescentando: “O presidente Trump tornou isso possível”.
“A maioria pensava que era algo impossível de fazer”, postou Trump.
Suprema Corte de Israel analisa petição para abrir Gaza a jornalistas internacionais
A Associação da Imprensa Estrangeira (FPA, de Foreign Press Association, na sigla em inglês) pediu nesta segunda-feira (26) à Suprema Corte de Israel que permita que jornalistas entrem em Gaza livre e independentemente. Israel vem matando sistematicamente profissionais da imprensa.

A FPA, que representa dezenas de organizações de notícias globais, luta há mais de 2 anos pelo acesso independente da mídia a Gaza. Israel proibiu repórteres de entrar em Gaza, independentemente dos ataques do Hamas em 2023, dizendo que a entrada poderia colocar jornalistas e soldados em risco.
O Exército de Israel ofereceu visitas breves aos jornalistas sob estrita supervisão militar.
Advogados da FPA disseram ao painel de 3 juízes que as restrições não são justificadas e que, com trabalhadores humanitários entrando e saindo de Gaza, jornalistas deveriam ser permitidos.
*Magdy relatou do Cairo. Repórteres da Associated Press Josef Federman, Natalie Melzer e Melanie Lidman em Jerusalém contribuíram para esta reportagem.
Autores
Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
Primeira organização de notícias do Brasil criada no WhatsApp, em 2018, para combater a desinformação.
Inscreva-se nas newsletters do Correio Sabiá.
Mantenha-se atualizado com nossa coleção selecionada das principais matérias.
