Horas antes de protesto na Colômbia, Petro e Trump têm conversa amigável pelo telefone

Ligação provocou uma mudança no discurso do presidente colombiano, que dosou o tom. Ambos indicaram que devem se encontrar pessoalmente.

Horas antes de protesto na Colômbia, Petro e Trump têm conversa amigável pelo telefone
O presidente colombiano Gustavo Petro discursa para seus apoiadores em um comício convocado por ele para protestar contra as declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, em Bogotá, Colômbia, na quarta-feira, 7 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Santiago Saldarriaga
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*Por Isabel Debre e Manuel Rueda / Associated Press

Uma “violação abominável” da soberania latino-americana. Um ataque cometido por “escravizadores”. Um “espetáculo de morte” comparável ao bombardeio de Guernica, na Espanha, pela Alemanha nazista em 1937.

Talvez não haja líder mundial criticando tão severamente o ataque da administração Trump à Venezuela quanto o presidente de esquerda Gustavo Petro, da Colômbia, historicamente o aliado mais importante de Washington na região.

Nos últimos 30 anos, os Estados Unidos têm trabalhado em estreita colaboração com a Colômbia, o maior produtor mundial de cocaína, para prender traficantes de drogas, combater grupos rebeldes e impulsionar o desenvolvimento econômico em áreas rurais.

Enquanto outros líderes agem com cautela, o presidente colombiano, conhecido por sua franqueza, aproveitou a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA para intensificar sua escalada de guerra de palavras com o presidente Donald Trump, que afirmou que uma operação militar americana na Colômbia “soa bem para mim”.

Atendendo ao chamado de protesto de Petro, milhares de colombianos se reuniram em praças públicas em todo o país na quarta-feira “para defender a soberania nacional” contra as ameaças militares de Trump, gritando “Viva a Colômbia livre e soberana!” e aguardando ansiosamente o que esperavam ser mais uma dura crítica de Petro a Trump.

Apoiadores do presidente colombiano Gustavo Petro participam de um comício convocado por ele para protestar contra declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, em Bogotá, Colômbia, na quarta-feira, 7 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/Santiago Saldarriaga

Em vez disso, para surpresa de todos, o presidente colombiano ofereceu um ramo de oliveira ao homem que repetidamente o chamou de chefão do narcotráfico sem nenhuma prova.

“Eu tinha preparado um discurso para hoje, mas terei que fazer outro”, disse Petro à multidão em Bogotá. “O primeiro era bastante severo. Eu precisei mudá-lo.”

Minutos antes, Petro contou que havia tido uma conversa amigável por telefone com Trump, explicando que sua única ligação com o narcotráfico era seu firme compromisso de combatê-lo.

“Pedi (a Trump) que restabelecesse a comunicação direta entre nossos governos”, disse Petro. “Se não houver diálogo, haverá guerra.”

Trump divulgou um comunicado nas redes sociais chamando de “Grande Honra” falar com Petro. Ele chegou a convidar seu mais feroz crítico para a Casa Branca, revelando, como já mostrara no passado, uma notável capacidade de mudar de rumo rapidamente.

“Apreciei sua ligação e seu tom, e espero encontrá-lo em breve”, escreveu Trump sobre Petro.

A súbita reaproximação entre os irritadiços adversários revelou que, apesar das diferenças, Petro e Trump compartilham a disposição de se aliar a um rival ideológico quando isso lhes convém.

Para a Colômbia, os EUA continuam essenciais no combate militar contra guerrilhas e traficantes. Washington forneceu aproximadamente US$ 14 bilhões a Bogotá nas últimas duas décadas.

Para os EUA, a Colômbia segue como pedra angular da estratégia antidrogas no exterior, fornecendo inteligência crucial usada para interceptar drogas no Caribe.

“Os colombianos são extremamente eficazes em aproveitar seus contatos em Washington, no Congresso e em outros lugares, enquanto o setor privado se mobiliza”, disse Michael Shifter, especialista em América Latina do think tank Diálogo Interamericano, em Washington.
“As pessoas tentavam dizer a Trump: ‘Veja, você pode punir Petro até certo ponto, mas não deve punir o país. Isso prejudica o combate às drogas e será danoso para os Estados Unidos.’”

Trump e Petro se detestam

Petro desperta a ira de Trump há meses.

Ele barrou voos de deportação militar dos EUA, incentivou soldados norte-americanos a desobedecer a Trump durante um comício pró-Palestina em Nova York, condenou ataques dos EUA a supostos navios de drogas como “assassinato” e se desentendeu com Trump sobre a guerra de Israel em Gaza e sua repressão à imigração.

Enfurecido, Trump passou a descrevê-lo com termos usados antes para Maduro, chamando Petro de “lunático” e “líder internacional do narcotráfico”. Revogou seu visto norte-americano e o de seus principais aliados e diplomatas; impôs duras sanções a ele, seus familiares e sua ministra do Interior; prometeu acabar com toda a ajuda dos EUA à Colômbia e ameaçou impor tarifas punitivas sobre as exportações colombianas.

Empolgado com a queda de Maduro, Trump aumentou o tom nos últimos dias, chamando Petro de “homem doente que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos” e alertando para uma possível operação militar americana em solo colombiano.

O presidente Donald Trump discursa para parlamentares republicanos da Câmara durante o retiro anual de políticas públicas, na terça-feira, 6 de janeiro de 2026, em Washington / Imagem: AP/Evan Vucci

Apresentando-se como patriota em defesa da soberania nacional contra a interferência dos EUA, Petro convocou reuniões emergenciais na ONU (Organização das Nações Unidas) e na OEA (Organização dos Estados Americanos) e articulou protestos em todo o país, onde faixas diziam: “Os EUA são a maior ameaça à paz mundial.” Petro falou até em pegar em armas contra os EUA para defender a Colômbia.

A Colômbia ficou na mira de Trump e o governo de Petro num dilema: como colher ganhos políticos ao enfrentar Washington a poucos meses das eleições presidenciais sem colocar em risco a assistência militar que recebe e sem provocar uma invasão?

Petro transforma o conflito em vantagem

Frustrado com a resistência do Congresso às suas reformas polêmicas, sem conseguir cumprir a promessa de “paz total” com grupos armados e enfrentando uma série de eleições, Petro encontrou em Trump o antagonista perfeito para lutar por seu legado.

“Ele quer esse palco em que seja o adversário mais claro, seja no discurso ou na política, dos Estados Unidos”, disse Sergio Guzmán, analista de risco político em Bogotá.
O presidente colombiano Gustavo Petro observa a cerimônia de posse de novos comandantes militares na academia do exército em Bogotá, Colômbia, na segunda-feira, 29 de dezembro de 2025 / Imagem: AP/Esteban Vega

A Constituição impede Petro de disputar um novo mandato na eleição presidencial de maio. Ainda assim, como primeiro presidente de esquerda da Colômbia, ele quer que sua coalizão mantenha o poder frente à direita em ascensão, que culpa seu governo impopular pelo aumento da criminalidade. O país também realizará eleições legislativas em março.

Na quarta-feira, a estratégia de Petro de se posicionar como Davi contra o Golias de Trump pareceu ter dado resultado.

Enquanto as ameaças de Trump pareciam excessivas e despertavam simpatia em favor de Petro, o presidente colombiano conseguiu reduzir as tensões antes que o conflito verbal se transformasse em confronto militar capaz de arruinar a parceria de segurança mais vital do país.

“A prioridade é a paz, e a paz se conquista pelo diálogo”, disse Petro aos manifestantes após a conversa com Trump. “A Colômbia pode dormir tranquila.”

Cresce a preocupação na Colômbia com as ameaças de Trump

Soldados colombianos guardam a fronteira com a Venezuela em Villa del Rosario, Colômbia, no sábado, 3 de janeiro de 2026, após o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciar que o presidente Nicolás Maduro havia sido capturado por forças americanas / Imagem: AP/Santiago Saldarriaga

Especialistas duvidavam da probabilidade de uma operação militar dos EUA contra Petro, que, ao contrário de Maduro, foi democraticamente eleito.

Mas complicavam os cálculos do governo colombiano os comentários cada vez mais militaristas de Trump sobre a América Latina, que colocavam a Colômbia no mesmo grupo que a Venezuela como fonte de drogas e imigrantes para os EUA.

“Embora as instituições colombianas ainda mantenham cooperação e tenham muito a perder, Petro pessoalmente sente que essa ponte já foi queimada”, disse Elizabeth Dickinson, analista sênior do International Crisis Group.

Enquanto Petro usava as redes sociais para bombardear Trump, seus ministros da Justiça e do Interior corriam para assegurar às agências de inteligência dos EUA que a Colômbia “continuaria a coordenar e cooperar na luta contra o narcotráfico”, segundo o governo.

O ministro da Defesa, Pedro Sánchez, também tentou conter a crise, declarando que este era um “momento de ouro” para que os EUA e a Colômbia se afastassem da confrontação.

Em seu aviso mais severo até agora, a chanceler Rosa Villavicencio disse a jornalistas na terça-feira que, embora a Colômbia buscasse resolver as tensões diplomaticamente, as autoridades estavam se preparando “para a possibilidade de uma agressão contra o nosso país pelos Estados Unidos”.

“Para isso, temos um exército altamente treinado e muito bem preparado”, afirmou –afinal, ele foi treinado pelos próprios EUA.

Em vez de preparar-se para a guerra, Villavicencio terminou a quarta-feira (7) organizando uma viagem a Washington para preparar a visita de Petro à Casa Branca.

Mas, antes disso, as autoridades lembraram que ela precisaria de um visto norte-americano.


*DeBre informou de Buenos Aires, Argentina. A jornalista da Associated Press, Gaby Molina, em Bogotá, Colômbia, contribuiu para este relatório.

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Associated Press
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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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