O fato principal
O principal grupo separatista do Iêmen e suas instituições serão desmantelados a partir desta sexta-feira (9.jan.2025), de acordo com anúncio do secretário-geral do grupo, que ocorre depois de semanas de instabilidade nas áreas do sul do país e 1 dia depois de seu líder fugir para os Emirados Árabes Unidos.
Abdulrahman Jalal al-Sebaihi afirmou que o Conselho de Transição do Sul (STC, na sigla em inglês) fecharia todos os seus órgãos e escritórios dentro e fora do Iêmen. Citou divergências internas e crescente pressão regional.
Mas a decisão foi contestada pelo porta-voz do conselho, Anwar al-Tamimi, que postou no X que apenas o conselho completo, sob seu presidente, pode tomar tal medida, destacando as divisões internas no movimento separatista.
O Iêmen está atolado há mais de uma década numa guerra civil que envolve um complexo entrelaçamento de queixas sectárias e tribais, além da interferência de potências regionais.
Alinhados ao Irã, os houthis controlam as regiões mais populosas do país no norte, incluindo a capital, Sanaa. Enquanto isso, uma coalizão regional frouxa –incluindo Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos– apoia o governo reconhecido internacionalmente no sul.
Separatistas tomam território, depois o perdem
A turbulência segue um avanço no último mês das forças do STC nas províncias de Hadramout e al-Mahra, onde tomaram áreas ricas em petróleo, instalações e o palácio presidencial na principal cidade do sul, Aden. Essas ações expulsaram as Forças do Escudo Nacional alinhadas à Arábia Saudita e expuseram abertamente as tensões entre Riad e Abu Dhabi.
As forças apoiadas pela Arábia Saudita recuperaram desde então o controle de Hadramout, o palácio presidencial em Aden e acampamentos em al-Mahra.
Ao explicar a dissolução do STC, al-Sebaihi disse que o conselho não havia aprovado as operações militares, que, segundo ele, romperam a unidade no sul e “prejudicaram as relações com a coalizão liderada pela Arábia Saudita”.
Como resultado, “a continuidade da existência do conselho não serve mais ao propósito para o qual foi criado”, afirmou al-Sebaihi.
O STC foi criado em abril de 2017 como uma organização guarda-chuva para grupos que buscam restaurar o sul do Iêmen como Estado independente, como foi entre 1967 e 1990.
Al-Sebaihi disse que os membros do grupo agora se concentrariam em alcançar uma solução “justa” para o sul do Iêmen e preparar uma conferência na capital saudita.
Vitória para os sauditas
As operações militares do STC nas fronteiras da Arábia Saudita foram vistas como ameaça à segurança nacional do reino, e autoridades sauditas saudaram o anúncio da dissolução do conselho.
O ministro da Defesa saudita, Khalid bin Salman, disse que a questão sulista está agora em um “caminho real nutrido pelo reino e endossado pela comunidade internacional”. O embaixador saudita no Iêmen, Mohamed al-Jaber, chamou a decisão de “corajosa” e afirmou que a conferência em Riad incluirá todas as figuras influentes do sul. Ainda não há data anunciada para o evento.
O Conselho Shura do Iêmen, apoiado pelo governo reconhecido internacionalmente, também acolheu a decisão do STC e disse que a questão sulista deve ser resolvida por meio de “um processo político abrangente”.
Abdulsalam Mohammed, chefe do Centro de Estudos e Pesquisas Yemeni Abaad, afirmou nesta sexta-feira que a Arábia Saudita conseguiu conter a situação no terreno.
“Riad provou que não permitirá interferência estrangeira que altere o roteiro iemenita apoiando um lado em detrimento do outro, especialmente se houver uso da força e o caos continuar ameaçando a segurança do Iêmen, da região e do mundo”, disse ele em comentário no X.
Líder separatista foge para os Emirados Árabes Unidos
O anúncio do STC ocorre um dia após o líder do conselho, Aidarous al-Zubaidi, fugir do Iêmen para os Emirados Árabes Unidos.
O Conselho de Liderança Presidencial disse que o líder do STC foi acusado de traição depois de supostamente recusar viajar à Arábia Saudita na quarta-feira para reuniões, e após mobilizar forças do STC para al-Dahle, onde fica sua aldeia.
A assembleia nacional do STC havia convocado uma marcha para sábado em Aden e na cidade portuária de Mukalla, em Hadramout, em apoio ao “direito à autodeterminação” no sul do Iêmen e em defesa de al-Zubaidi. No entanto, não está claro se a marcha ainda ocorrerá após o anúncio da dissolução do conselho.
O toque de recolher imposto anteriormente em Aden devido à situação de segurança foi suspenso nesta sexta-feira, segundo Abu Zarae Al-Mahremy, membro do Conselho de Liderança Presidencial responsável pela segurança em Aden.
A guerra civil no Iêmen, na borda sul da Península Arábica e à beira do Mar Vermelho e do Golfo de Aden, matou mais de 150 mil pessoas, entre combatentes e civis. Ela também criou uma das piores catástrofes humanitárias do mundo.
*Khaled reportou do Cairo. Redatores da Associated Press Bassem Mroue, em Beirute, e Jon Gambrell, em Dubai, Emirados Árabes Unidos, contribuíram para esta reportagem.
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