Globo de Ouro: 'O Agente Secreto' vence em duas categorias

Premiado nesta noite, o ator Wagner Moura disse em discurso que 'precisamos de mais filmes sobre a ditadura militar'. Ele declarou que a eleição de Bolsonaro em 2018 foi uma 'manifestação física dos ecos' desse período.

Globo de Ouro: 'O Agente Secreto' vence em duas categorias
Kleber Mendonça Filho, à esquerda, e Emilie Lesclaux posam na sala de imprensa com o prêmio de melhor filme - língua não inglesa por "O Agente Secreto" durante o 83º Globo de Ouro no domingo, 11 de janeiro de 2026, no Beverly Hilton em Beverly Hills, Califórnia: Imagem: AP Photo/Chris Pizzello
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O destaque

"O Brasil chega com tudo!", escreveu a Associated Press, uma das maiores agências globais de notícias, sobre a participação brasileira por meio de "O Agente Secreto" na premiação do Globo de Ouro, realizada neste domingo (11.jan.2026). O filme fez história ao vencer em duas das 3 categorias em que foi indicado.

  1. 🏆 Melhor ator em filme de drama (Wagner Moura); e
  2. 🏆 Melhor filme em língua não-inglesa.

Na categoria de melhor filme dramático, "O Agente Secreto" perdeu para "Hamnet: A vida antes de Hamlet".

Fotos de Wagner Moura no Globo de Ouro

Mais informações

O reconhecido sucesso internacional de "O Agente Secreto" –dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura– ocorre apenas 1 ano depois da vitória de Fernanda Torres, em 2025, como melhor atriz de drama pela atuação em "Ainda Estou Aqui".

"'O Agente Secreto' é um filme sobre a memória –ou a falta dela– e o trauma geracional. Acho que, se o trauma pode ser transmitido de geração em geração, os valores também podem. Então, este prêmio é para aqueles que se mantêm fiéis aos seus valores em momentos difíceis", disse o ator em seu discurso de agradecimento.

Em "O Agente Secreto", Moura interpreta um ex-professor e pesquisador forçado a se esconder enquanto tenta proteger seu filho pequeno durante a ditadura militar brasileira da década de 1970.

"Acho que precisamos de mais filmes sobre a ditadura militar. A ditadura ainda é uma ferida aberta na vida brasileira. Ela aconteceu há apenas 50 anos e, recentemente, de 2018 a 2022, nós tivemos um presidente fascista de extrema direita no Brasil, que é uma manifestação física dos ecos da ditadura. Então, a ditadura ainda é muito presente na vida diária no Brasil. Então, precisamos continuar a fazer filmes sobre ela", falou Wagner Moura, também em seu discurso.
Imagem: AP/Chris Pizzello

Moura é conhecido internacionalmente por sua interpretação do narcotraficante colombiano Pablo Escobar na série "Narcos" da Netflix, que foi ao ar de 2015 a 2017 e lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro em 2016. Ele também atuou em "Guerra Civil", de 2014.

Neste domingo (11), o ator superou a concorrência de Joel Edgerton em “Train Dreams”, Oscar Isaac em “Frankenstein”, Dwayne Johnson em “The Smashing Machine”, Michael B. Jordan em “Sinners” e Jeremy Allen White em “Springsteen: Deliver Me from Nowhere”.

No ano passado, 2025, o Brasil também conquistou seu 1º Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional com “Ainda Estou Aqui”.

Artistas usam broches contra o ICE

Alguns artistas usaram broches contra o ICE* no Globo de Ouro neste domingo, em tributo a Renee Good, mulher que foi baleada e morta em seu carro por um agente de Imigração e Alfândega (ICE) nesta semana em Minneapolis.

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*ICE: A sigla quer dizer Immigration and Customs Enforcement; é a polícia de Imigração e Alfândega dos EUA, que tem perseguido pessoas no país a mando do presidente Donald Trump.

Os broches em preto e branco exibiam slogans como “BE GOOD” e “ICE OUT”, introduzindo um tom político à premiação depois de uma cerimônia relativamente apolítica em 2025.

Mark Ruffalo, Wanda Sykes e Natasha Lyonne usaram os broches no tapete vermelho, enquanto Jean Smart e Ariana Grande passaram a utilizá-los já dentro do salão. Smart estava com o broche preso ao vestido quando recebeu o prêmio de melhor atuação de atriz em série de comédia ou musical.

Desde os disparos de quarta-feira (7.jan), protestos irromperam nos Estados Unidos, pedindo a responsabilização pela morte de Good e também por um outro caso de disparos em Portland, em que agentes da Patrulha de Fronteira feriram duas pessoas.

Alguns protestos resultaram em confrontos com as forças de segurança, especialmente em Minneapolis, onde o ICE realiza sua maior operação de fiscalização migratória da história.

“Precisamos que todas as partes da sociedade civil, da sociedade como um todo, se manifestem. Precisamos de nossos artistas. Precisamos de nossos artistas do entretenimento. Precisamos das pessoas que refletem a sociedade”, disse Nelini Stamp, da Working Families Power, uma das organizadoras dos broches contra o ICE.

Parlamentares prometeram uma resposta firme, e uma investigação do FBI sobre a morte de Good continua em andamento. O governo Trump, porém, reforçou a defesa das ações do agente do ICE, sustentando que ele agiu em legítima defesa e que acreditava que Good iria atropelá-lo com o carro.

Apenas uma semana antes da morte de Good, um agente do ICE de folga atirou e matou Keith Porter, de 43 anos, em Los Angeles. A morte dele desencadeou protestos na região de Los Angeles, com manifestantes exigindo a prisão do agente responsável.

Organizadores levam campanha de base às festas do Golden Globes

A ideia dos broches “ICE OUT” começou em uma troca de mensagens tarde da noite, nesta semana, entre Stamp e Jess Morales Rocketto, diretora-executiva de um grupo de defesa latino chamado Maremoto.

Elas sabem que momentos culturais de grande visibilidade podem apresentar questões sociais a milhões de espectadores. Este é o 3º ano de ativismo ligado ao Globo de Ouro para Morales Rocketto, que já mobilizou Hollywood para protestar contra as políticas de separação de famílias do governo Trump.

Stamp disse que sempre lembra do Oscar de 1973, quando Sacheen Littlefeather subiu ao palco no lugar de Marlon Brando e recusou o prêmio em protesto contra a forma como o entretenimento norte-americano retratava os povos indígenas.

Assim, as duas organizadoras começaram a ligar para celebridades e influenciadores que conheciam, que por sua vez levaram a campanha para figuras ainda mais proeminentes em seus círculos.

Esse esforço inicial incluiu a ativista trabalhista Ai-jen Poo, que em 2018 cruzou o tapete vermelho do Globo de Ouro ao lado de Meryl Streep para destacar o movimento Time’s Up.

“Existe uma tradição de longa data de pessoas que criam arte e se posicionam pela justiça em determinados momentos. Vamos continuar essa tradição”, disse Stamp.

As organizadoras prometeram manter a campanha ao longo de toda a temporada de premiações para garantir que o público conheça os nomes de Good e de outras pessoas mortas em ações de agentes do ICE com disparos de arma de fogo.


*Os trechos sobre o ICE são de autoria de James Pollard e Sarah Raza, ambos da Associated Press.

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Correio Sabiá
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